Para quem respira... nem que seja um pequeno sopro. Eu ainda respiro logo sonho... Ainda que doa ao doer, doa mais ao doar: doa-te.
sábado, 26 de setembro de 2015
"FICA", convite
Boa tarde!
Venho, por este meio, convidá-lo (la) para o lançamento do meu mais recente livro, o romance "FICA" (com a chancela da Chiado Editora), que decorrerá na Biblioteca Municipal Raul Brandão em Guimarães, no dia 3 de Outubro, Sábado, pelas 11h da manhã.
Informo, de igual modo, que toda a minha obra artística, no ramo da escrita, estará em exposição na loja do Sr. Júlio Alfarrabista (na rua da Rainha, em Guimarães), nos dias 3 e 4 de Outubro, inserida no evento Noc-Noc Guimarães (grande exposição da obra de vários artistas nacionais e internacionais).
Peço a gentileza de encaminhar o convite em anexo a quem interessar. A entrada é livre.
Muito grata.
Conceição Sousa
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Carta a um companheiro errado
Carta a um companheiro errado, na esperança de que ainda haja tempo para mim:
Amei-te com dedicação, amei-te porque quis, porque tive vontade e sentia-me feliz quando cuidava de tudo em redor para que pudesses sentir-te ainda mais feliz. Nunca esperei gratidão, sabes? Até sou daquele tipo de pessoa que fica sem jeito quando lhe é tecido um elogio ou quando alguém solta em palavras o que, a todos os momentos, os olhos já haviam dito " Sou-te tão grato...". Nunca, nunca, esperei gratidão, sabes? Amo, porque amo, porque sim, porque o oposto de amar ou o vazio de amar não encontra espaço em mim. Amei-te muito, durante longo tempo, e com sincera dedicação... mas não suporto a ingratidão, abomino essa má fé, essa linguagem do corpo de quem desdenha quem sempre lhe quis e lhe fez bem. Tudo morre dentro de mim quando me lanças o olhar envenenado de quem esperou mais ainda e remoeu o fio de nylon que faltava; de quem teceu no esquecimento agro o prazer rendilhado de décadas felinas no encalço de uma lingerie tão de afável negro quanto de condenável rubro. Tudo morre, morreu, dentro de mim, sabes? E é ingratidão, sim. Não tenho de continuar a amar-te, ouve...não tenho de continuar a amar-te. E tu não tens de continuar a olhar-me de um inferno ao qual faço questão de não pertencer. Vai, tu, mais o teu inferno, vai... mesmo que penses que o teu inferno sou eu e tudo o mais que tu ainda querias e que eu, porventura, não sabia que querias e não consegui te dar. Não amo para que me sejas grato, já to disse, mas também te implorei que não suporto essa fome de mais, esse rosto tolhido pelo fel do que ainda querias de mim, essa mágoa cega e ingrata de quem nunca perguntou "Estás bem?", de quem nunca respondeu ao amor com o peito aberto e o sorriso franco de um "Não te preocupes...eu estou aqui, atento a ti". E à ingratidão magoada, a minha única resposta é o silêncio resignado e a total falta de dedicação.
Conceição Sousa
Amei-te com dedicação, amei-te porque quis, porque tive vontade e sentia-me feliz quando cuidava de tudo em redor para que pudesses sentir-te ainda mais feliz. Nunca esperei gratidão, sabes? Até sou daquele tipo de pessoa que fica sem jeito quando lhe é tecido um elogio ou quando alguém solta em palavras o que, a todos os momentos, os olhos já haviam dito " Sou-te tão grato...". Nunca, nunca, esperei gratidão, sabes? Amo, porque amo, porque sim, porque o oposto de amar ou o vazio de amar não encontra espaço em mim. Amei-te muito, durante longo tempo, e com sincera dedicação... mas não suporto a ingratidão, abomino essa má fé, essa linguagem do corpo de quem desdenha quem sempre lhe quis e lhe fez bem. Tudo morre dentro de mim quando me lanças o olhar envenenado de quem esperou mais ainda e remoeu o fio de nylon que faltava; de quem teceu no esquecimento agro o prazer rendilhado de décadas felinas no encalço de uma lingerie tão de afável negro quanto de condenável rubro. Tudo morre, morreu, dentro de mim, sabes? E é ingratidão, sim. Não tenho de continuar a amar-te, ouve...não tenho de continuar a amar-te. E tu não tens de continuar a olhar-me de um inferno ao qual faço questão de não pertencer. Vai, tu, mais o teu inferno, vai... mesmo que penses que o teu inferno sou eu e tudo o mais que tu ainda querias e que eu, porventura, não sabia que querias e não consegui te dar. Não amo para que me sejas grato, já to disse, mas também te implorei que não suporto essa fome de mais, esse rosto tolhido pelo fel do que ainda querias de mim, essa mágoa cega e ingrata de quem nunca perguntou "Estás bem?", de quem nunca respondeu ao amor com o peito aberto e o sorriso franco de um "Não te preocupes...eu estou aqui, atento a ti". E à ingratidão magoada, a minha única resposta é o silêncio resignado e a total falta de dedicação.
Conceição Sousa
terça-feira, 14 de julho de 2015
Humanismo
Há um caminho que parte do mundo insiste em seguir. Um caminho que nos entrega ao ego, à ganância, ao poder e nos exclui da partilha, do que somos e do que conseguimos, com todos os outros. Há Homens que lutam pelo que todos somos, que percebem a fragilidade da vida e conseguem ser altruístas ao ponto de saber ceder nas próprias convicções para que todos possamos não ser ainda mais sacrificados. Actualmente, na Europa, temos um Schäuble, que representa o que chamo de "abocanhamento" de tudo o que é material, essa parte do mundo a que me referi, de quem até saliva por mais poder, e temos um Alexis Tsipras, que pertence ao segundo tipo de Homens, os que não abdicam dos valores humanistas: do respeito por si mesmo e ao próximo, da bondade, do amor fraterno, da coragem, do desprendimento do supérfluo financeiro. Desde tempos muito antigos que uma parte do mundo só anseia dominar todo o mundo;desde tempos muito antigos que uma outra parte do mundo dói-se pelo sofrimento de todo o mundo e reage, rebela-se, com coragem, força, inteligência, por amor à vida, à sua e à de todos os que lhe são próximos. Essa parte corajosa do mundo começa sempre por ser pequena, começa por um, sempre por um, mas a força de um espírito - quando todos os outros sentem que já estão mortos, por isso mais vale lutarem por viver - contagia, e como qualquer contágio que se preze, é veloz e eficaz. Há-de haver mais sofrimento, mais pesar, mais mortes, mas a História ensina que quando damos as mãos e nos doemos pelo bem de todos, não há Schäuble que possa vencer a luta por uma vida digna no seio das comunidades. Se fosse um elemento do Eurogrupo,pensaria muito bem antes de decidir continuar com a política de austeridade direcionada a todo um povo, a vários povos. É uma questão de tempo para a sublevação dos povos. A História ensina. É tão óbvio o caminho, já trilhado antes, que aí vem que até dói. Sou mãe. Não consigo sentir alegria dentro de mim. Só uma vontade enorme de continuar a lutar para que possam os meus filhos um dia vir a viver com dignidade e alegria. A minha luta é esta, com as palavras. Sei que a sociedade é injusta, sei que uns vivem com mais, outros com menos, outros com nada. Por mim, viveríamos todos com as mesmas condições e, bem partilhado, ninguém passaria fome, ninguém morreria às portas dos hospitais, ninguém sentiria vontade de pôr uma corda ao pescoço. Quem me conhece, sabe que sou assim. O que consigo ganhar, partilho. E rodeio-me de pessoas, felizmente, que também sentem da mesma forma, por isso as partilhas também entram na minha casa. Entre nós, com esta história da austeridade, é pouco, mas vamos sobrevivendo. Conseguimos que ninguém tenha ficado sem casa, sem luz, sem água, sem gás, sem medicação, sem comida, sem carinho, sem companhia. Era tão mais fácil se este espírito existisse entre as gentes de um mesmo povo, entre povos. Reformulo: o espírito existe nos povos, não existe é nos seus líderes, que provavelmente os enganaram para conseguirem liderar. Era tão mais fácil se o poder estivesse realmente nas mãos dos povos. E está: é uma questão de tempo, e de muito sofrimento entretanto.
Livros de Conceição Sousa
sábado, 11 de julho de 2015
No fim não há o verbo
Ofereço palavras, umas atrás das outras,
nem sempre com gente perto,
às vezes, muitas vezes, só para os meus dedos,
os meus olhos, e um outro tempo, talvez...
penso que é isto que nos distingue dos seres inanimados,
esta vontade desesperada de comunicar.
Talvez também eles se façam dela - e nós ainda não tenhamos
descoberto o canal da sua recepção. Já que, entre nós, seres que desesperam por comunicar, raramente se assista à sua compreensão, raramente se escute um desespero diferente do nosso.
Porque somos tão focados num só indivíduo?
Porque desesperamos por comunicar e só escutamos o nosso próprio umbigo?
Deus deu-nos o dom da palavra para que nos consigamos libertar do nosso ego,
e só encontraremos o sentido da vida quando abraçarmos o nosso silêncio e soubermos escutar o silêncio do nosso irmão.
No fim de tudo, não há o verbo: esse só atrapalha.
Quem me escuta?
Eu, ainda, não sei escutar ninguém.
Conceição Sousa
nem sempre com gente perto,
às vezes, muitas vezes, só para os meus dedos,
os meus olhos, e um outro tempo, talvez...
penso que é isto que nos distingue dos seres inanimados,
esta vontade desesperada de comunicar.
Talvez também eles se façam dela - e nós ainda não tenhamos
descoberto o canal da sua recepção. Já que, entre nós, seres que desesperam por comunicar, raramente se assista à sua compreensão, raramente se escute um desespero diferente do nosso.
Porque somos tão focados num só indivíduo?
Porque desesperamos por comunicar e só escutamos o nosso próprio umbigo?
Deus deu-nos o dom da palavra para que nos consigamos libertar do nosso ego,
e só encontraremos o sentido da vida quando abraçarmos o nosso silêncio e soubermos escutar o silêncio do nosso irmão.
No fim de tudo, não há o verbo: esse só atrapalha.
Quem me escuta?
Eu, ainda, não sei escutar ninguém.
Conceição Sousa
quarta-feira, 1 de julho de 2015
artesã
Quero dizer que estou aqui, hoje, sempre tranquila no epicentro da tempestade. Só porque a vida é tão efémera que de nada nos vale perder um segundo que seja com um mau sentimento. No entanto, lutar, lutar sempre para que todos tenham, no que depender de nós, as melhores condições de vida. Haja um a precisar de pão que me terá ali na palma da sua mão. Se não precisar, terá na mesma. ( Verdade seja dita.) Caso a feche, num acto de soberba, não prenderá o meu caminho, antes o afastará para um outro destino. Sou artesã de um só gigantesco ninho.
Conceição Sousa
Conceição Sousa
É a rotina que o segura aos dias. O fogo perdeu-se algures nas costuras. A cola arrasta-se dos sapatos às veias, mas perde a força ao chegar ao coração. A vida existe para o acordar todas as manhãs, o aquecer nas bermas do entusiasmo e o adormecer do frenesim da dor. A vida escorraçou-o para os braços da morte mas o sopro não se resigna e consome, teimosamente, toda a aragem de mais uma madrugada. Se a sente é porque veio. Se veio é porque é dele. Se lhe pertence, há que fechar os olhos e amar. Amar é ser amado - mesmo que por uma breve aragem na madrugada.
Conceição Sousa
Conceição Sousa
Alívio
Às vezes, os sustos voltam, só para redefinirem prioridades. Este voltou e já foi. Alívio. A vida é bela. Tudo o resto é acessório e assaz de importante na sua insignificância. Há que saber sentir o tempo: com o corpo que é teu, a alma que te confidencia, o afecto de quem te presta atenção e a natureza dos dias e das noites que ama a tua natureza sem que o saibas. Consegues sentir? A grande paz? Sê feliz, nessa comunhão que te pertence e à qual te entregas. A maldade só te consome se tu lhe deres guarida e conversares intimamente com ela. Se a não deixares entrar, ela não se instala. Se insistir em segurar-te o braço e caminhar contigo, sorri-lhe e devolve em dobro todo o teu paciente amor. Olha que podes! Podes mesmo! Só tens de te focar no corpo que é teu, na alma que te confidencia, no afecto de quem te presta atenção e na natureza dos dias e das noites que ama a tua natureza sem que o saibas. Todos os teus sentidos andam distraídos. Se parares um pouco, fechares os olhos, escutares com redobrada atenção, uma subtil aragem eriçará a tua penugem e tu perceberás o calor da energia universal a amar-te. O arrepio é quando tu sentes e devolves todo o amor que te dão. E uns pingos de chuva, uma brisa a maresia ou até uma simples música podem desencadear essa partilha energética. Quem precisa da mesquinhez dos Homens?
Conceição Sousa
Conceição Sousa
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Quero escapar à frieza
Quero escapar à frieza. O hábito entranha-se na alma como a humidade se agarra à esponja. O âmago enche-se de um líquido espesso e cresce ao ponto de uma saturação gelada. O familiar passa fome e tu comes da fome que te olha. O amigo sente frio e tu sentes do frio que te cerca. O vizinho perde a cor para a doença e tu perdes a dignidade quando olhas para o lado. O desempregado verte as lágrimas e tu vertes a ostentação de cada vez que te cruzas com ele no elevador quando vais... trabalhar. Entras na frutaria e alguém sofre por te ver entrar na frutaria e por saber que não pode comprar uma peça de fruta. Entras no hospital e alguém sofre por te ver entrar no hospital quando sabe que não pode amenizar a dor da sua doença porque não consegue pagar a taxa moderadora. Entras no teu emprego e alguém sofre por te ver entrar no teu emprego porque precisaria de ter um emprego , um modo de subsistência, e não há forma de o conseguir.
Quero escapar à frieza, sentir nos afectos que vêm de longe a infância de um toque de humanidade. Quero espremer o meu coração e vê-lo derramar a humidade ingénua de quem não se esquece da origem e do comum. Somos sangue, todos sangue, todos rubro, todos com as mesmas necessidades básicas, o mesmo fôlego, o mesmo ímpeto, o mesmo calor, a mesma fome, a mesma sede, a mesma carência no encalço de um amparo, um simples conforto: uma palavra. ( um silêncio.)
Quero manter-me humana. Quero ser digna de ter nascido humana. Quero ser digna de um dia morrer com este dever de humanidade cumprido. (Reg.)
Conceição Sousa
Quero escapar à frieza, sentir nos afectos que vêm de longe a infância de um toque de humanidade. Quero espremer o meu coração e vê-lo derramar a humidade ingénua de quem não se esquece da origem e do comum. Somos sangue, todos sangue, todos rubro, todos com as mesmas necessidades básicas, o mesmo fôlego, o mesmo ímpeto, o mesmo calor, a mesma fome, a mesma sede, a mesma carência no encalço de um amparo, um simples conforto: uma palavra. ( um silêncio.)
Quero manter-me humana. Quero ser digna de ter nascido humana. Quero ser digna de um dia morrer com este dever de humanidade cumprido. (Reg.)
Conceição Sousa
domingo, 22 de março de 2015
Não és assim tão importante.
Não és assim tão importante... penso que já percebeste isso, não? Importante sou eu. Mas, admito, gosto deste sossego que me prende a ti, desta vontade de te sentir como quem agradece o alvorecer, ou abre os poros à fragrância vespertina, ou degusta o beijo fresco da madrugada no orvalho que nos ressuscita a pele. Não és assim tão importante, apenas na medida em que o é um habitat natural. Contigo, respiro. Contigo, sorrio. Contigo, amo. Contigo, vivo... mas sem ti, sem ter noção de que é sempre contigo, mesmo pensando que sem ti. E não é assim com o sol, o vento, a lua,os órgãos internos, os ossos? E não é assim com as árvores, a água, a temperatura amena, os órgãos externos, a pele? E não é sempre assim, sem ter noção de que é sempre contigo,mesmo pensando que sem ti? Porque o que nos consubstancia, desde o ventre - o sangue! -, não abre as vísceras todos os dias para nos mostrar do que somos feitos, mas está sempre lá, é do que somos feitos e nem por isso lhe damos o visceral valor. Esquecemo-nos. Esquecemo-nos de que nada é garantido. E basta que um ínfimo nada falte para que tudo desabe. E tu és apenas um ínfimo nada que não pode, de maneira alguma, faltar,ouviste? Não podes - estás proíbido de -, faltar-me. Mas não és assim tão importante...
sábado, 21 de fevereiro de 2015
FICA (romance)
Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta (já nem me dirijo aos outros acima na hierarquia porque não são de cá, da Terra, humanos, são uma espécie de alienígenas com tiques de pactos de agressividade), a redução do défice e o término da espiral recessiva (que os cidadãos não vivenciam), os vangloriosos resultados a que afirmais a boca cheia terdes chegado ( e que os cidadãos não sentem) são à custa de cortes unilaterais e arbitrários nos rendimentos do trabalho ( ...de agora e de outrora), são à custa do roubo diário da dignidade das famílias ( da felicidade das famílias), da possibilidade de honrarem os seus compromissos, a sua palavra, o seu fio condutor ( perdemos o Norte, sabeis disso?), são à custa de cada vez mais sem-abrigo, de cada vez mais negligência nos cuidados de saúde, na assistência à terceira-idade, são à custa do holocausto do desemprego, da fuga apocalíptica de muitos (aos milhares) da sua nação (uma que sentem como estranguladora, exploratória, implacável no desrespeito pela dignidade humana, gratuita nas injustiças, em pleno corredor da morte quanto à quebra do voto de confiança e dos alicerces da democracia – a tentar perceber como vai acontecer, injecção letal?), são à custa do contínuo assalto fiscal, das desculpas esfarrapadas burocráticas para comer um pouco mais da fome de quem já nada tem (e tudo serve, até um recibo que alguém esqueceu de guardar – vamos lá ver se o barro cola à parede…), são à custa da machadada certeira nas pernas curtas de muitos trabalhadores independentes ( que ilusão, meu Deus!) que, pese embora a honestidade de o declararem que o são ( nem sempre é assim – e esses têm mais sorte), trabalhadores necessitados de actividade lateral prioritária independente para sobrevivência ao flagelo da ditadura mascarada de democracia, são barbaramente bombardeados com mais assalto aos parcos rendimentos de circunstância que auferem ( “era para tapar aquele buraco, mas, meu amigo, cavei um mais fundo ainda”, dirão agora, com a corda ao pescoço).
Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta (não quero crer que também sois daquela espécie alienígena, sem pingo de humanidade, só focada em pactos de agressividade), devo informá-los que esta é uma nação governada por elites vergonhosas, invejosas e temerárias, que encontram nas leis, lapidadas a dedo cirúrgico, a sabedoria e a manha necessárias à decapitação de qualquer tipo de prosperidade, seja a independente, seja a inteligente, seja a crente. Vão sacanear outros!
Dedos erguidos, dedos bem erguidos, bem tesos para arremessar no papel toda a fúria reflexiva, instintiva e combativa.
Srs. Deputados do governo e oposição de faz-de-conta (não quero crer que também sois daquela espécie alienígena, sem pingo de humanidade, só focada em pactos de agressividade), devo informá-los que esta é uma nação governada por elites vergonhosas, invejosas e temerárias, que encontram nas leis, lapidadas a dedo cirúrgico, a sabedoria e a manha necessárias à decapitação de qualquer tipo de prosperidade, seja a independente, seja a inteligente, seja a crente. Vão sacanear outros!
Dedos erguidos, dedos bem erguidos, bem tesos para arremessar no papel toda a fúria reflexiva, instintiva e combativa.
Conceição Sousa in "FICA" (romance)
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Frincha
- Nem sequer uma frincha para que pudesses sentir-me brisa, e ao teu tremor o lamento da vaga que não volta. Ser-te-ei assim tão desinteressante?
- (...)
- É sozinha que falo, a mesma da infância, e, às vezes, penso... embora percorra infinidades, e não consiga parar de percorrer infinidades, é no mesmo lugar que estou. Algo não soa. És tão distante... Queres a verdade? Mesmo a verdade? Distante ...é um adjetivo que inventei para te sentir um beijo que voa. Na verdade, és... eu ,a tapar um vazio.
- (Estás completamente só.)
- Obrigada por me lembrares. E tu és cruel. P'ra que me dizes se sabes que me faz chorar? Choras comigo, é? Até era... Deixa-me estar.
- (...)
- É sozinha que falo, a mesma da infância, e, às vezes, penso... embora percorra infinidades, e não consiga parar de percorrer infinidades, é no mesmo lugar que estou. Algo não soa. És tão distante... Queres a verdade? Mesmo a verdade? Distante ...é um adjetivo que inventei para te sentir um beijo que voa. Na verdade, és... eu ,a tapar um vazio.
- (Estás completamente só.)
- Obrigada por me lembrares. E tu és cruel. P'ra que me dizes se sabes que me faz chorar? Choras comigo, é? Até era... Deixa-me estar.
Conceição Sousa
terça-feira, 10 de junho de 2014
15* Um cão, um gato talvez?
15*
Um cão, gato talvez?
Não deveria ter nascido pessoa, deveria ter nascido animal doméstico, um
cão, um gato talvez, tenho este ímpeto de acarinhar, de estender a pata para te
afagar o rosto, para te sentir bem-vindo, e olho... olho um olhar infinito de
ternura, um olhar resiliente, precisado da tua voz, do teu sorriso, da tua
incomensurável atenção.
Não deveria ter nascido pessoa, um animal doméstico, sim, um cão, um gato
talvez, uma alma, igual a tantas outras, enclausurada num pedaço de carne que
queima, um infindável pedido de auxílio, um não pestanejar hirto a abraçar o
seu dono, a aguardar ininterruptamente o instante do calor, um cão, um gato
talvez, só porque nunca falo, só porque nunca verbalizo, só porque nunca digo
com as palavras - p'ra que preciso delas? -, só porque não me querem as pessoas
como eu quero que elas me queiram. Sou orelhas pontiagudas e olhar resiliente:
observo e aguardo - p'ra que preciso das palavras?
Um cão, um gato talvez, e muda de verbo talvez o mundo me quisesse, ou
acabasse comigo de vez.
A crueldade é ser pessoa, quando me sinto alma enclausurada no interior de
um animal doméstico, um que fala demais, e que tudo o que deseja é que lhe consintam
o instante de um afagar de rosto e de um cafuné.
E porque sou pessoa as pessoas complicam tanto...
Conceição Sousa
Acordo
Acordo sempre bem para o dia. As cores da manhã celebram-me partilha de um ser maior, natureza dentro e em redor, todo não parte. Oro ao âmago de mim, de nós, envolvência do instante puro, só pelo instante infinito: este pincel de aurora, este aroma a chilrear, esta brisa amena e um ímpeto de eriçar. Partilha. E o amor que amo nos olhos que me são calor de ventre, e o amor que amo nos braços dos homens que me protegem de mim, e a família de que não abdico e que me leva ao colo no embalo do que lhes sou. E a fé que me encontrou e me sossega as dores na certeza de que também a morte é partilha: o nascimento de um novo ciclo neste infinito que faz questão de me mostrar :
não há um que na vida ou na passagem a uma outra vida esteja só.
A dor é para que reconheças o amor. Nem uma nem outro se explicam, mas existem, transformam.
Por que não confias no tanto que não vês, em nós?
Amo-nos. Ama-nos.
Há. É. Sente.
não há um que na vida ou na passagem a uma outra vida esteja só.
A dor é para que reconheças o amor. Nem uma nem outro se explicam, mas existem, transformam.
Por que não confias no tanto que não vês, em nós?
Amo-nos. Ama-nos.
Há. É. Sente.
domingo, 1 de junho de 2014
13* Adivinha o que me excita?
13* Adivinha o que me excita?
O que me
encanta em ti é essa forma tão linda de ser, o sentimento que contamina tudo o
que tocas, e até o que não tocas. Não é relevante a direção desse teu sentir, o
que me cativa é como sentes quando sentes e sempre que sentes. Vejo que suas
essa entrega inabalável; testemunho as rugas que carregas, cada vez mais fundas
e agras, sem, no entanto, te queixares de um ínfimo cansaço – e só um cego não
vê como te cansas.
Suo contigo, sabes?
Mas não me canso
como tu te cansas… É tão cómodo estar deitada nesta cama a carpir a existência,
a rebelar-me de ter nascido sem tampouco mover um polegar para garantir-me
pessoa, quanto mais abrir os braços para
te abraçar pessoa?
És tão lindo, sabias?
Ainda mais quando percebes o meu ócio ( Ó!, Cio!) e vens mesmo levantar os
lençóis e meter-te na cama comigo. Não merecia que o fizesses, entendes? Tão
desdobrado em acarinhar tudo e todos, em amparar meio mundo, e nunca te
esqueces de vir buscar este calor, aqui, nesta cama gelada, sujeito a saíres empedernido
e fatigado de sobremaneira. E sais mesmo, de todas as nossas urgentes vezes,
empedernido e fatigado. E mais lindo ainda. Um gelo que se liquefaz pele
sorvida. Um brilho no sorriso com que te apresentas – e que continua a celebrar
o instante em que nos vimos. Não desenlaças esses cálices ao alto e um tilintar
que sempre ecoa.
“Danças-me um
século, diva?”, perguntas.
“ Danço-te um
milénio, e talvez um pouco mais, génio”, respondo.
( Já te disse
que sou viciada na tua resiliência? Já te segredei que é isso que me excita? A
tua resiliência?)
O meu ouvido
pregado na tua lapela, a tactear nos pés o ritmo de te saber vivo, um coração
maroto, esse teu, que me faz pisar-te porque pára por breves segundos e acelera
como se quisesse fugir uma eternidade. E eu confesso-te:
“ Assim não sei dançar, tudo o que faço é
tropeçar em ti, traste!”
“ Não faz mal,
pisa à vontade, sardinhas – o que carinhosamente me chamas, tenho muitas na
cara, e que culpa me assiste? –, o meu queixo agradece essa dentada de
coelhinha”, gracejas. A tua arte é gracejar, sabias. E és uma graça, a minha
graça.
“ Sardinhas ou coelhinha, qual preferes? Peixe
ou carne?”, provoco, a isca, sei que gostas de um deslize ordinário.
“ Eu quero é
comer, tanto me faz, tenho uma fome de ti!”, mordes, o teu segundo de
brejeirice, e eu adoro quando és brejeiro. Um gelo que se liquefaz pele
sorvida. Um brilho no sorriso com que te apresentas – e que continua a celebrar
o instante em que nos vimos. Braços enlaçados e cálices bem lá no alto. Não há
nada que quebre um celebrar assim.
“ Danças-me um
milénio, então, velhinha?”, fazes beicinho, ai, como me enlouqueces quando
fazes beicinho…
“Danço-te o
que tu quiseres e aguentares. Mas tens de me levantar bem lá no alto, quero
sentir-nos tocar no voo dos pássaros, consegues?”
E tu aceitas o
desafio. Mordes o sorriso. E elevas-me só para nós.
Não te contei,
mas fiz-me melhor que eu mesma, supra superei-me, só para que pudesses ficar
mais um milénio encantado comigo, só p’ra que pudesses continuar a sentir-te
seduzido, só p’ra que saibas que não há melhor do que eu. E, quando te sentir
fugir de novo, aguarda-me, uma outra te surpreenderá, ainda melhor do que esta,
duvidas?
“ Danças-me um
milénio, então, velhinha?”, suplicas.
Que rede é esta que te apanhou e da qual não
queres sair? Vais ter mesmo de dançar um milénio e um pouco mais comigo. Essa
tua resiliência endoidece-me. E tu vens sempre buscar, aqui, a este ócio
debaixo dos lençóis, suado, pisado, tropeçado, morto, vens buscar a tua vida.
E eu dou-ta,
meu amor, desde que me leves sempre nesse cálice de celebração, nesse brilho de
sorriso campeão com que te apresentas –
e que continua a enlaçar o instante em que nos vimos.
“Danço-te um
milénio, e talvez um pouco mais… Não, não leves ainda os teus lábios, preciso
de senti-los um pouco mais.”
( Já te disse
que sou viciada na tua resiliência? Já te segredei que é isso que me excita? A
tua resiliência?)
Conceição
Sousa
sábado, 31 de maio de 2014
12* Insignificância
12* Insignificância
Há
objectos que existem para me lembrar da minha insignificância – é uma frase arrogante
de tão egocêntrica e despudorada, mas é assim mesmo, o objecto só existe em
função de mim, para que eu saiba o quão insignificante sou ( sou mesmo
importante não?). Há objectos que faço questão de ter bem perto ( tipo terapia
de choque, mordiscadela de acorda!, aferroada de “toma lá que é para não te
atirares aos cães!”) só para que nunca me esqueça da minha soberba
insignificância: sei.
O
que não te perdoo, e não te perdoo mesmo, é que, caso não seja assim, tão
insignificante como queres que eu sinta que sou, caso seja exactamente o
extremo oposto, sofras dessa maneira tão parva, tão jumenta, tão linear de quem
não percebe nada do que anda cá a fazer, ó pessoa ida!
Ora
diz-me lá se há alguma lógica no que se segue:
·
Amas-me tão enervantemente que quando te enervas
dizes que me odeias. ( Em que é que ficamos?)
·
Amas-me tão obsessivamente que quando me queres
( e tudo o que tu queres é só querer-me) fazes este mundo e o outro para que
não te queira.
·
Amas-me tão intrinsecamente que no exterior tudo
o que jogas é às escondidas: passas a vida a olhar-me, mas não convém que te
veja, não vá eu bater no muro “ um, dois, três, vi-te!” e ser a minha vez de
esconder. ( Tens medo de nunca mais me encontrar, é? Se não me encontro, não te
encontro, certo?)
·
Amas-me tão levianamente que quando me “f****” é
sempre a valer ( ai, e como vale!), é pena que te calhe o reverso da palavra, o mais ingrato, o que me
faz carpir o caminho do que se tem asco e perguntar “ Por que me queres tão
mal? Por ti mesmo sei que nunca quererias, seria o exactamente oposto: o bem-bom
da palavra, ora “f******”! ( fica-te! – que pensavas? –, fica-te e desiste desse
pau, mau jeito de amar.)
·
Amas-me tão ingenuamente que na inocência de te
ser doce perdes-te na confecção de uma geleia melosa e peganhenta, e o mais que
resulta é um lambuzar guloso que em nada
cola o genuíno amor que pensas que me tens.
Sossega, tu, que nem estás a ler isto… ora não sou eu insignificante? Como
dizia lá acima, há objectos ( e pessoas) que só trago comigo para que me
lembrem do quão insignificante estou neste pedaço de carne, que me embala num
berço a que chamam de tempo. E, garanto-te, o mais que me importa é o tom do abalo,
sussurro doce e lento, a inclinar as pálpebras na direção do escuro, janela
fechada para o mundo e aberta para os braços do que nos dá colo…
Quando se é insignificante assim, há toda uma significância da vida que
nos irrompe pela alma adentro. Temos mesmo de fechar os olhos, induzir o sono,
porque a vida, de tão bela e extraordinária , cega-nos a vista. E a senti-la é
por um fiozinho de olhar, a experimentar meias-luas, porque é na neblina que a verdade
acontece, é no fosco que a realidade se consuma, é no mate, apanhado de duas malhas, sem
brilho, que o lance irrompe e se desvenda:
sorriso e gratidão.
De ti só quero mesmo é que me lembres que sou insignificante.
Há objectos bem duros que não podem, de modo algum, despencar da nossa
mão.
Catástrofe!
Conceição Sousa
11*
11*
“ Sou a toalha onde descansas os teus sonhos”,
o indicador a atravessar a fala,
“Envolve-me”,
os lábios à procura do lugar onde o orvalho consinta um breve fôlego.
“ É o teu rosto nos sulcos deste pano”,
a encosta que escorre, devagar, em tom de procissão,
“ é o teu rosto que pregam e não sabem que só eu o trajo”,
linguajar na subida para onde as águas vertem,
“ linda mulher, que nunca quis ser minha e é tão dela”,
a neblina a avisar que o calor se aproxima e que é hora dos poros encharcarem,
“linda mulher, que nunca quis ser minha e é tão dela”
o grito cavernoso.
“ Faz de mim as rugas que te beijam o pé descalço”,
“ Faz de mim o arrepio que te devolve os olhos.”
E ela não faz.
E ele continua a trajá-la.
E os ombros querem que não se façam e que não se queiram.
Os ombros só querem que os deixem ser ombros. E que lhes permitam querer.
Vens?
Vou?
Conceição Sousa
“ Sou a toalha onde descansas os teus sonhos”,
o indicador a atravessar a fala,
“Envolve-me”,
os lábios à procura do lugar onde o orvalho consinta um breve fôlego.
“ É o teu rosto nos sulcos deste pano”,
a encosta que escorre, devagar, em tom de procissão,
“ é o teu rosto que pregam e não sabem que só eu o trajo”,
linguajar na subida para onde as águas vertem,
“ linda mulher, que nunca quis ser minha e é tão dela”,
a neblina a avisar que o calor se aproxima e que é hora dos poros encharcarem,
“linda mulher, que nunca quis ser minha e é tão dela”
o grito cavernoso.
“ Faz de mim as rugas que te beijam o pé descalço”,
“ Faz de mim o arrepio que te devolve os olhos.”
E ela não faz.
E ele continua a trajá-la.
E os ombros querem que não se façam e que não se queiram.
Os ombros só querem que os deixem ser ombros. E que lhes permitam querer.
Vens?
Vou?
Conceição Sousa
quarta-feira, 28 de maio de 2014
10* Já não dói
10* Já não dói.
Sei
querer – e sei que, quando quero, quero muito. E quem não quer?
Mas
também sei sentir. Faço por isso: por saber sentir. E sei que me dói sem que te
doa a ti. E sei que a mágoa é minha – tão só minha. E sei que é tolice exigir a
alguém um sentimento que é só meu. Por que haveria esse alguém de sentir o meu
sentimento, pensa?
O
desacerto das pessoas é quererem obrigar as outras pessoas a sentir o que tão
somente é sentimento delas: unipessoal. É bonito? Parabéns! Usufrui, agarra-te
com unhas e dentes a esse sentimento, pois só o que sentes e é teu é válido,
genuíno –
mas não o imponhas ao outro,
mesmo que o objecto desse teu
olhar tão límpido, tão brilhante, principalmente se o impulso desse teu estado
de devaneio feliz.
Não o
imponhas.
Ao trespassares
o teu horizonte de encanto, invades a neblina de um outro mundo que não o teu,
repara: invades,
e observas-te, no lado de lá,
deserção de ti mesmo, no lado de cá, fenda irreparável, quebra de identidade,
coisa feia e violenta.
E p’ra quê? P’ra
que te apedrejem de volta? E com razão. Quem te deu licença de pisar em
território ocupado? Ou para que vires o sangue do avesso e ele se verta
inexistência condenável?
Há um sentir
nublado, p’ra lá do enlevo da montanha, que não o teu. Despede-te. E despe-te
da arrogância. Nada te é posse. Muito menos aquilo que ao outro pertence: o seu
sentimento.
Sopra-lhe um
beijo quando o vires, ao teu arrogar-se; testemunha-lhe o teu sorriso, aquele
que ficou lá atrás, junto a uma espada empunhada contra o céu, o vosso troféu,
e aguarda um reflexo – luminosidade, talvez…
Às vezes,
acontece, um reflexo, um espelho de água, umas nano-vagas que ondulam a brisa
do teu leve aceno. Vi-te, tocaste-me, levei-te no meu ombro para sermos
felizes. Um segundo em que dois sorrisos se olharam e algo de extraordinário aconteceu:
o teu sentimento confessou-se o meu.
Um segundo de
invasão basta-me.
Um segundo de
invasão de que não tenho remorsos. O que é um segundo de invasão quando comparado
com quase um século corpóreo e mais de um milénio de vida? Comungada com
milhões de tantas outras vidas; algumas ainda nem sabem que estão para nascer e
para morrer. Digo-te já: mais de um milénio e outro tanto. E olha que tenho um
dom.
As nuvens trazem
cinzas carregadas de rebordos prateados e falam-me, a todo o instante, desses
teus milénios. Um bem tão grande às pessoas, à humanidade. As nuvens sabem. Agora,
também tu ficaste a saber.
Um anjo com
asas de zinco segredou-me o teu caminho e sossegou-me. Pediu-me desculpa,
sabes? Disse que não conseguia falar-te e precisou de me atirar nos teus braços
para que pudesses tropeçar naquela imagem,
a que só a ti
estava destinada.
Diz-me, agora
mesmo, que está orgulhoso de ti. Que soubeste receber a ternura dos beijos que
sopram os ares da humildade do instante, e que o tempo em ti deixou de contar:
só o que tocares será sorriso e destino. Mas isso tu sabes.
Não me tocas.
Não serei sorriso. Não serei destino.
Não fiques
triste. Sei me alegrar, sem invadir mais do que um segundo.
O anjo com
asas de zinco pede-me desculpa, conhece a minha dor. Diz que lhe falaram de mim
como mensageira, e que nem foi descuido nem nada, precisamente por anteciparem
o meu coração de chumbo. Tinham plena certeza de que o abriria, só mais uma
vez, especialmente para ti (está explicada a minha surpresa!); que te deixaria
entrar, te comunicaria o calor dos astros, e te expulsaria com eles.
Doeria o
retorno ao claustro, avisaram. Não encontraram, contudo, mais ninguém que pudesse
tocar-te e sobreviver de novo ao glaciar, com um segundo apenas de invasão.
Perdoei-lhes,
sabes. A todos eles, os que congeminaram. A ti não há o que perdoar. Não foste
tu que me atiraste nos teus braços, nem foste tu que me devolveste à clausura.
E eles têm razão. Já não dói.
Há
alinhamentos de curvas no céu, melancolias de berço, extremidades que atentam
um colo que se pede.
Moro num vale assombrado
de um musgo mistério e benzido por uma cordilheira de auroras platinas. Nem sei quem toca em quem.
Só sei que os sinto tocarem-se e tocarem-me. Vivo quotidianamente, enquanto
vejo o mundo a passar, no extraordinário. São as nuvens que me calam as
calamidades e me ditam que te abrace. E eu só quero dizer-te que este abraço é
até que eu deixe de ser, como as nuvens.
Tenho sorte de
morar no coração de Deus, e de o saber.
Conceição
Sousa
9* Só porque tu
9*
Só porque tu
Acredito nesta vontade que passa de mim para ti e de ti para mim.
Acredito no silêncio quando a porta se tranca no limite da fúria indomável.
Acredito nas lágrimas que tecem o rebordo do que se quer enlaçar mas não encontra o ponto de amarra, apenas de elos que se encandeiam na direção da cabeceira extenuada.
Acredito na voz do que nos roga um caminho e nos dita reinícios atrás de reinícios, em cada ranger de madeira, em cada sussurro de “diz-me… diz-me…”, dedos a comprimir bocas extasiadas, incansavelmente a saliva “diz-me…”
Acredito nos teus braços quando me soltas o cabelo e seguras os olhos, à luz de velas, guardião do nosso templo, ao sabor do incenso indiscreto.
A vergonha fugiu quando lhe dissemos que há luzes a dar horas em despertadores que não se apagam. De duas em duas tacadas quiseram acordar-nos, ingénuos… Como se acorda a insónia dos amantes?
E foi às apalpadelas que os lençóis granulados nos embrulharam. A ternura é doce, sabias? Tivemos de sacudi-la. Há instantes que exigem ferocidade. E nós somos arrebunhar lento de roupas dispersas e rasgos calejados. Resgatámo-la em pleno voo e trouxemo-la para a nossa almofada, não sem antes lhe ensinarmos o depenicar dos pombos, desde o sacro até ao nunca, via lacrimal no despudor das nossas costas.
Acredito nos teus braços quando me soltas o cabelo, sabias?
E me seguras os olhos.
Há um beijo que me dedicas de cada vez que te cubro de nós, só porque tu, só porque tu…
E pergunto mil suspiros em que esplanada desertaste o orgulho.
“Leva já longas férias, velhinha…”, respondes de língua comprometida, a torcer o rubro de um mundial que ninguém esquece, embora todos ignorem. Abraças-me. E adormeces na minha nuca o sono dos felizes.
Respeito o nosso sorriso.
Acredito que todas as mágoas trabalham no indizível e servem o amor que cresce no silêncio das barbas grisalhas. Acredito que o que não se explica é a resiliência, nascente de um imparável rio.
Conceição Sousa
Só porque tu
Acredito nesta vontade que passa de mim para ti e de ti para mim.
Acredito no silêncio quando a porta se tranca no limite da fúria indomável.
Acredito nas lágrimas que tecem o rebordo do que se quer enlaçar mas não encontra o ponto de amarra, apenas de elos que se encandeiam na direção da cabeceira extenuada.
Acredito na voz do que nos roga um caminho e nos dita reinícios atrás de reinícios, em cada ranger de madeira, em cada sussurro de “diz-me… diz-me…”, dedos a comprimir bocas extasiadas, incansavelmente a saliva “diz-me…”
Acredito nos teus braços quando me soltas o cabelo e seguras os olhos, à luz de velas, guardião do nosso templo, ao sabor do incenso indiscreto.
A vergonha fugiu quando lhe dissemos que há luzes a dar horas em despertadores que não se apagam. De duas em duas tacadas quiseram acordar-nos, ingénuos… Como se acorda a insónia dos amantes?
E foi às apalpadelas que os lençóis granulados nos embrulharam. A ternura é doce, sabias? Tivemos de sacudi-la. Há instantes que exigem ferocidade. E nós somos arrebunhar lento de roupas dispersas e rasgos calejados. Resgatámo-la em pleno voo e trouxemo-la para a nossa almofada, não sem antes lhe ensinarmos o depenicar dos pombos, desde o sacro até ao nunca, via lacrimal no despudor das nossas costas.
Acredito nos teus braços quando me soltas o cabelo, sabias?
E me seguras os olhos.
Há um beijo que me dedicas de cada vez que te cubro de nós, só porque tu, só porque tu…
E pergunto mil suspiros em que esplanada desertaste o orgulho.
“Leva já longas férias, velhinha…”, respondes de língua comprometida, a torcer o rubro de um mundial que ninguém esquece, embora todos ignorem. Abraças-me. E adormeces na minha nuca o sono dos felizes.
Respeito o nosso sorriso.
Acredito que todas as mágoas trabalham no indizível e servem o amor que cresce no silêncio das barbas grisalhas. Acredito que o que não se explica é a resiliência, nascente de um imparável rio.
Conceição Sousa
segunda-feira, 26 de maio de 2014
8* Um alien
8*
Um alien
Um kg de
rojões com carne, com osso e com courata. Um kg de ameijoa. Duas gelatinas: uma
de morango e uma de ananás. Uma mousse de chocolate. Duas doses de sorriso e
cinco fatias de abraço. Prontinha p’ra chegar a casa, pôr o homem a cozinhar e
espalhar doçura no rosto cintilante dos filhos. Todas as famílias felizes são
um pouquinho gorduchinhas, só um pouquinho. Quem resiste a um mimo de chocolate?
Só para procurar estrelas cintilantes em dentições convertidas à religião do
hmmm! O Ioga perfeito.
“Ó mamã, és do
outro mundo!”
Não soubera
eu, acabava agorinha mesmo de ser informada. Como é possível que os nossos
filhos, de todos, acertem o alvo no ponto exacto do conhecimento de nós mesmos?
E começam lá longe, no reflexo de sucção.
“Só mais dois
euros, vá… Ó mamã, és mesmo do outro mundo!”
“Como sabes? Vieste
de lá, foi, patanisca?”
Gargalhada ao
cubo quanto dá? Depende do ponto de partida. A primeira açoitadela de
cabeça vale por quantos? Nós três. Nós?
Três nós?
“Tu é que
dizes que te damos um nó na cabeça. Uma gargalhada deve valer por três. Se te
damos um quando te zangas.”
Não seremos cinco? Ok, consinto. Seja três
perdigotos por cada açoitadela de gargalhada nos óculos que não usas, pá ( ou
será que usas? Já não me lembro…)! Quanto dá então gargalhada ao cubo? Se for
mágico dá… deixa lá ver… pelo menos nove faces coloridas, doze não será? – e um
texto esquizofrénico.
Gelatina! Gelatina! Gelado, queres tu dizer.
“Trouxeste, mamã,
gelado?”
“Sou do outro
mundo, mas não me perco, filhote: 27: 3x3=9x3=27 27: 3x3=9x3=27”
Íamos no
reflexo de sucção que vem de lá longe, da teta, e de tudo o resto, porque a
sofreguidão conecta-se com tudo o que seja tocável, dê alimento ou não. Há
ainda outro reflexo ante-comunicativo, a mãozinha que ergue para se proteger da
dor, da fralda que cobre o rosto enquanto suga o leite (“ Deixa-me respirar,
caraças! Está tudo às escuras!”), da fralda pronta a secar a saliva teimosa no
canto da boca. E não gostas, eu sei que não gostas, pá, mas tem de ser. Tem de
ser. Eu sei mais do que tu: precisas de te alimentar e de estar limpinho, senão
gretas aí esse cantinho de lábio maroto. A mão que ergues para afastar o pano,
para te proteger da dor, não protege de nada, só estorva. É a minha mão
teimosa, com esse pano seguro, que te vai impedir de ferir – e de doer.
Choras?
Competência básica. Comunicas. Um bebé sem sílabas chora para comunicar e ri
para comunicar. Precisaremos nós de saber muito mais? Dói, não falas, choras.
Eu ouço, e socorro-te. Ou não… Tens fome, não falas, choras. Eu ouço, e
socorro-te. Ou não… Sentes-te só, no quarto ao lado, não falas, choras. Eu
ouço, e socorro-te, mas dizem que não devo ir logo a correr para não te
habituar mal, senão vais chorar toda a vida, eu vou desesperar de tanto ecoares
o teu grito no meu ouvido e vamos acabar por não nos suportar um ao outro.
Ris em busca
da tranquilidade. Ris nas primeiras horas de vida. “Está a sonhar, ‘tadinho.”
Já vens do ventre a rir, que mistério é este, caramba? Imitas os sons, os
gestos, o toque, os passos, as palavras…
Imitas o que vês, o que ouves, o que intuis. Imitas e aprendes. Imitas e transformas-te – às vezes em miau!miau!, em
au!au!, em mémé!...
É só ir lá
atrás, à linguagem dos bebés, para percebermos a filosofia da vida. Toda a
santa vida é este inferno celestial ou este céu infernal nos relacionamentos. Choras
porque tens de chorar: é acto reflexo de origem. Sobrevivência. Ris porque tens de rir: é acto reflexo de
origem. Sobrevivência. Imitas porque tens de imitar: é acto reflexo de origem.
Sobrevivência. Sugas porque tens de
sugar: é acto reflexo de origem. Sobrevivência.
Qual é a
dúvida?
Já sei. Sou do
outro mundo. E vim de lá a rir.
Conceição
Sousa
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