Número total de visualizações de páginas

domingo, 7 de agosto de 2011

Vir tudo

Não seria hora já de a mim vir tudo?
Virtude : falsa nas horas em que me mudo.
Mudo - nesta terra de ninguém e do sobre mais;
Mudo - totalmente sem pio entre os demais.
E quem diz que não mereço esta sorte?
Eu. Eu digo : afronto-te . Tu que me contrarias.
Eu grito tudo de direito : todas as de(vidas) alegrias.
Venham a mim. Somem-se sem jeito (vergonha).
Não seria já hora de a mim vir tudo?
Virtude em que me têm todos os que sabem.
E só sabe quem procura e nada encontra.
E só sabe quem busca, acha e perde.
E só sabe quem pára, fica e morre.
E só sabe quem vai, luta e corre.
Não seria hora já de a mim vir tudo?
Virtude que em mim mora sem que eu saiba.
Vir tudo que sempre esteve sem que viesse.
Tudo o que fui - sem que de mim adormecesse.
Tudo o que sou -nas vagas horas de mim mesmo.
Só sabe assim "vir tudo" o que acredita ainda vir.
Só sabe assim virtude o que está sempre pronto a : parir.

(de Conceição Sousa)

De verdade, amei-te.

No ar que te sustenho, encontro-te - átomos de dor - na calçada do céu.
Inspiro veladas partículas, ridículas poeiras de luz : do amor o véu.
Entre suspiros, em trote, o cavalo marca sua ferradura na cruz;
pára, exausto, relincha no claustro, preso ao torpor do corpo: conduz.
É o sopro : é agora. É o vento: demora. É tudo o que já foi outrora.
A vida - danada. A ora ouriçada ora apagada vida - a que também cospe.
E a morte sabe, a morte está : sempre a sorte do que será - o lado mais forte.
No ar que te respiro digo (mil vezes digo): sei-te, sinto-te, amei-te.
De verdade, amei-te.

(Conceição Sousa)

sábado, 6 de agosto de 2011

E o renascimento dá-se.

E quando ela cai, molha; e quando molha, sente-se; e ao sentir, percebe-se; e ao perceber, entranha-se; e ao entranhar-se, rejuvenesce-se; e ao rejuvenescer-se, renasce-se; e ao renascer-se, é-se feliz. E quando ela cai - a chuva -, humedece-nos na dureza da tábua rasa : desperta o odor da madeira em comunhão. Sente-se na pele do exilado a frescura na saudade do que já foi e torna a ser, o ciclo das estações- esse que insiste em permanecer e nos fazer crer. Aí : percebe-se o mundo a celebrar nossa existência, a beijar-nos na clemência de quem sabe o porquê de ainda cá estarmos, a abraçar-nos (lenta e docemente) na partilha de o comungarmos. Nesse mágico momento, entranha-se na alma o cheiro a pó no ar, da vida o pleno saborear, do " sim : sinto, estou, sou" o respirar. E celebra-se , encantamento, nessa paragem do tempo ( que ao andar nos faz recuar), gotas de orvalho o início a suster : caem na terra ; rejuvenescem - toque de fôlego vivo - o árido ser esquecido. E o renascimento dá-se : em lágrimas humedecidas - em sal faz-se. A mãe natureza diz-nos que é hora de o seu ventre sentir. E à humana curta memória relembra o ciclo do existir : com uma singela gota de chuva - tão singela - faz-nos sorrir.

(Conceição Sousa)

Maldito vazio em redor.

Por vezes, por muito que se faça, nada corre de feição. Na certeza de que é esta a hora marcamos a dita posição. E voltamos a marcar, incansavelmente, até que nos digam não. E mesmo o "não" sabendo, repetimos o acto : querendo - mesmo muito crendo. Novamente, bem na cara - resignada-, o nada. Danada vida esta : vida feita de sonhos e de nadas. Nadas que vão nas ruas lentamente (ou apressadamente) abraçados a nadas. Nadas beijando nadas : sobem escadas - jazem caladas - na certeza de que levam a nadas. Maldito vazio em redor - mágoas sentidas no momento do calor. Imensas, inúmeras, mágoas sempre ao dispor. Só dor. Que horror! É um holocausto de nadas. Onde fica nisto tudo - nesta enchente de nadas ( neste vazio de contos de fadas)- o amor? Procura-se e, sem se procurar, encontra-se. Encontra-se e, sem se (de facto) encontrar, perde-se. Perde-se e, sem nada perder, busca-se. Busca-se e, ao tudo buscar, mata-se. Mata-se e, ao se matar, nasce -se. Renasce-se num novo lugar, olhando em redor, sem nada reconhecer nem nada encontrar a não ser o próprio amor. Esse que, na verdade, nunca saiu do lugar. Apenas estava no fundo do poço - vazio de água e de luz- a nadar. Aguardava a hora da dita posição marcar - essa que, por muito que se faça, nos continuam a negar. Danada de vida esta: sem par. Chora o que tiveres de chorar, mas mesmo sentindo-te nada -sendo nada-, não deixes nunca de te amar. E, já agora, boa caminhada.

(Conceição Sousa)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Curto/Longo ensaio sobre o tempo

Tempo? O que é esta coisa do tempo? Ponteiros - que já não são ponteiros (mas meros sinais gráficos que ciclicamente alternam entre si :ciclicamente) - em movimento ascendente e descendente , e outra vez, o ascender e o descender : na roda, no círculo, na curva fechada. Tempo? Aonde que não o vejo - não o sinto. No deslizar do veículo a motor - nesse que acelera e trava. O que é isto? Acelerei e já lá estou. Abrandei e nunca mais chego. Travei e paro. E se acelerar estou lá. Se abrandar ainda vou. Se travar fiquei. O que é isto? Tempo? Será meu? Ou do veículo? É do motor. Não. É do petróleo. É do homem que extrai o petróleo. Não. É do dinheiro que paga ao homem e que compra o petróleo. Não. É meu se não quiser comprar nem o homem, nem o dinheiro, nem o petróleo. É meu se não quiser entrar no veículo. É meu se não quiser olhar para o relógio - nem sequer tenho relógio ; mas tenho o tempo. Tenho? Não serei eu o tempo? Ou será o tempo eu? Mas que coisa é esta do tempo? Se falta a saúde - venha o veículo mais rápido que vier, ou o petróleo mais potente que houver, ou o dinheiro mais caro que existir -, se falta a saúde : falta o tempo. E mesmo com saúde ou na falta dela, com mais tempo ou menos tempo, se o tempo quiser acaba-se o tempo: morre ali. Mas morre para quem? Para ti? Para mim? Para o tempo? Morre para todos (e para tudo) os que entenderem que já não vale a pena perder ou ganhar tempo. Mesmo que haja tempo há quem decida que se acabou o tempo. E de quem é ( ou do que é) o tempo afinal? Dos que não querem perder tempo? Dos que querem ganhar tempo? Ou dos que se estão simplesmente marimbando para o tempo? Corre : se queres chegar a tempo. Pára: se isso é pura perda de tempo. Abranda: se ainda não te decidiste a tempo. Que coisa complicada esta: a do tempo. Se conseguiste chegar a tempo de ler o ínicio deste texto e levaste o teu tempo para chegar a tempo do fim : parabéns! Estás dentro do teu e do meu tempo :este /esse que já foi tempo. O que é agora, não sei.

(de Conceição Sousa)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Quero dizer-te.../ I wish to tell you...

Quero dizer-te:  a simples visão de ti  

e do jeito com que tua ausência me olha

molha minhas carícias em lágrimas -

correm contidas na alma que nem mágoas,

pendem gotas de orvalho na machucada folha.



Quero dizer-te:  todas as manhãs me levanto

contigo em meu pensamento; segredas-me ternura,

manhas de sobrevivência próprias de quem ama tanto.

Desfaço minhas dores; sonho-nos em doce aventura -

deslizar de lava fixamo-nos cristais em nosso pranto.



Quero dizer-te:  à luz polar do meu existir

dei teu nome soprado ao vento: um que não se diz.

E que me guia nos atalhos da folhagem densa;

um que trago incansavelmente -  bússola -  a meu lado

repito-o a mim mesma (inúmeras vezes) sussurrado.



Quero dizer-te:  em tempos aguardei esta hora

 cúmplice de nós dois - aqui - , neste lugar, neste segundo;

suavemente te beijo na aura minha alma cora.

Revelo meu desejo desperto dou-te o mundo

ainda hoje a guardo (n)esse momento, sem demora.




Quero dizer-te:  o ânimo que segura meus dias;

essa tua voz imponente, minha essência escuta

esse timbre calado, em meu espírito mora.

Embalas-me no berço da ilusão de que me querias

fosses tu eco, na montanha longínqua a vibrar,

não estaria neste vale profundo, a chorar.



Quero dizer-te como quem diz a quem está.

Quero dizer-te como quem ama a quem é.

Quero dizer-te como quem respira e só.

Quero dizer-te como quem crê e tem fé.

Quero dizer-te tudo mas nada te digo.

(Conceição Sousa)


I wish to tell you…the simple vision of you

and the way your absence looks at me

waters my caress in tears –

which flow chained in the soul as if soreness,

dangle dew drops in the hurt leaf.



I wish to tell you...each morning I get up

beholding you in my thought; whispering tenderness in my ears,

survival  quirks of those who love so much.

I undo my pains; dream us in sweet adventure-

lava slithering we settle crystal in our weeping.



I wish to tell you..to the polar light of my existence

I have given your name whispered to the wind; one that one cannot tell.

And that guides me in the footpaths of the dense foliage;

one that I convey restlessly - compass- beside me

I repeat it to myself (endlessly) secretly.



I wish to tell you...once I’ve abided for this hour

accomplice of us two - here-, in this place, in this second;

smoothly I kiss you in the aura and my soul blushes.

I reveal my awoken desire, I give you the world

and still today I wait for that moment, without delay.



I wish to tell you... the breath that holds up my days –

that imposing voice, listening to my essence

that silent tone, living in my spirit.

You wrap me in the illusion cradle that you also wished me –

were you echo in the far away mountain vibrating,

I wouldn’t be in this deep valley crying.



I wish to tell you as if one tells to someone who is here.

I wish to tell you as if one loves someone who is.

I wish to tell you as if one breathes and that’s it.

I wish to tell you as if one has faith and believes.

I wish to tell you all but nothing I speak.
(by Conceição Sousa)


sexta-feira, 15 de julho de 2011

É a vida, amor.

É a vida que nos olha, percebe e suplica.
É a vida que nos molha, concebe e agita.
E o nós que não se quer: ser molhado - sequer olhado.
E o nós em tormento do outro lado -
a vela acesa e do sopro momento: aguardo.
A chama em calor abrasa a gota
que desce, lentamente, o estar.
E na ravina do ocaso segura
a lágrima. Encontra o branco absorta.
Despe-se do tórrido, abraça a ternura,
caminha na luz soltando a loucura.
Leve, desliza no vale sem cor -
pedra de cera cristaliza-se amor.
É a vida em todo o seu esplendor.
É a vida, amor. É a vida sem dor.
O nós que sei - a sós. É o após
tranquilo - o serenar da voz.
É a vida, amor. É do estar: pleno sabor.
(Conceição Sousa)