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sábado, 3 de novembro de 2012

E se as sapatilhas não estivessem furadas, não terias atravessado o alcatrão só com as meias negras nos pés, não terias entrado na loja; e se tivesses encontrado um par que te servisse, não terias demorado cerca de 20 minutos, e eu não te teria telefonado, já entediada de tanto aguardar no
outro lado da avenida à beira-mar, teríamos seguido o nosso caminho e estaríamos a lanchar, algures, com os nossos amigos; e se te tivesse telefonado mais tarde, não terias saído naquela hora, ainda com as meias pretas nos pés, não terias calçado novamente as sapatilhas furadas e não teríamos naquele segundo continuado o nosso trajecto; e se não tivesses sacudido a areia das sapatilhas, teríamos ido ao encontro da nossa gente, três minutos mais cedo, e teríamos alcançado a tempo o bêbado ( que fazia 32 anos naquele dia - e, por isso, exagerou na bebida (dito por ele), embora se percebesse que era hábito diário...), e o homem não teria caído , desamparado, de uma altura de dois metros, e a bicicleta não lhe teria embatido, seguidamente, nas costas - nem teríamos chamado o INEM, nem o homem teria tido o auxílio das talas e das ligas, e da tua força, dentro das tuas sapatilhas rotas ( que abraçaram as dele, fora dos pés - o terceiro elemento a cair de dois metros de altura), para ajudar as duas doutoras magrinhas a encaixá-lo na ambulância. As tuas meias sujas esperam que as meias bêbadas e traumatizadas dele estejam bem.
 
 (Conceição Sousa)

Era noite

Era noite.
E a menina dos olhos agigantou-se.
Quem olhasse de fora via o que ela era: a imagem suada dele.
Beijou-o.
E guardou aquele ofegar: sentiu-o.
...
Os lábios trazem ainda a barba de dois dias.
Mas não quis vir embora sem lho dizer e sem o escutar:
- Gosto muito de si. -
A voz que a embala pela manhã e em cada deitar.
- Também gosto muito de si. -
Um breve (e)terno estar.
- Grata.

(Conceição Sousa)   *


Um amigo de verdade não te dá só sorrisos, diz-te coisas que não queres ouvir, e arregala-te os olhos quando sente que estás a passar a linha vermelha.
Um amigo de verdade escuta a tua fúria calado, mas, mesmo que continues a fazer asneira, mantém-se ali, triste e colado, à espera do momento em que, nos braços dele, chores todos os teus pecados.
E o amor por um amigo nunca se diz, é verdade. É sempre saudade.

(Conceição Sousa)

Bem ou mal?

Não me queiras bem, nem me queiras mal…
se te dá prazer e te faz sorrir, dá-me um bom dia;
se te causa desconforto e te faz chorar, deixa de me olhar
(e que triste que eu vou ficar).
Não me queiras bem, nem me queiras mal…
esta é a vida que escolho (ou será a vida a escolher-me?)
– ser entrega –,
não tem de ser a tua ( a que te escolhe?),
só tens de saber que estás na minha, se a tua quiser,
não ta nego;
e se não o quiser, a minha vida continua
(mas que triste que eu vou ficar).
Não me queiras bem, nem me queiras mal…
vive como te deixam, afinal:
vive, também na minha vida, a tua morte;
ou vai, na minha morte, à tua vida –
e continua a fazer-te nela despedida,
sem visitares este local
(mas que triste que eu vou ficar).
Não me queiras bem, nem me queiras mal…

(Conceição Sousa)   *
Não deite pessoas fora.
Diga-lhes, com um sorriso, que as admira, que lhe são queridas,
que só lhes deseja o melhor, que só lhes quer bem;
mas que no seu curto tempo de vida,
no escasso espaço que lhe é concedido,
não é possível, também a elas, uma atenção maior.
E não deite pessoas fora.
Diga-lhes que as vê, que as ouve, que as sente,
que o tocam, e que as sabe;
mas que no trajecto do seu instante de mundo
não as consegue, também a elas, acarinhar.
E não deite pessoas fora.
Elas são tudo o que de bom o mundo e a vida lhe podem dar.

(Conceição Sousa)

Hoje

hoje não quero morrer, como todos os dias, um pouco, morro;
hoje não quero viver, como todos os dias, um pouco, vivo;
hoje não quero deixar-te matar-me, como todos os dias, um pouco, me matas;
hoje não quero deixar-te aqui, neste lugar, onde nunca me vi;
hoje não quero que a lágrima me assalte, como tem feito, sempre que p'ra todo o lado olho e rezo p'ra que não me falte;
hoje não quero fingir ser a outra, só p’ra que me esqueça desta;
mas também não quero ser a de verdade:
o nada que em tudo me resta;
hoje quero, mais uma vez, gritar ao fundo da noite, que não me mostre as cores do dia… se é p’ra não as sentir, se é p’ra não me aquecerem, se é p’ra não me olharem e não me sorrirem, se é para as saber e logo a seguir as perder, que me cubra de
escuridão, pois essa sei que nunca me larga a mão, e sempre me traz toda a alegria.

(Conceição Sousa)   *


quarta-feira, 18 de julho de 2012


Estrebuchar: é a minha área.

Recebo os choques, constantemente, como todos os outros,

mas ainda consigo estrebuchar.

Não me aninho, nem fujo ( só de vez em quando…) –

também não há p’ra onde fugir –

nem me finjo de morta.

Estrebucho.

Faço questão de ordenar ao meu corpo

(já cansado, já massacrado – como o de todos os outros)

que estrebuche:

 - Vá, diz-lhes! Diz-lhes que estamos vivos.

-  Vá, mostra-lhes! Mostra-lhes que não gostas.

 Lança-lhes o teu olhar húmido de ódio,

 e mostra-lhes que tens o direito inalienável a viver condignamente.

 É teu.

Pode ser que um dia os choques se cansem e se aninhem

(de quando em vez…) –

e não tenham p’ra onde fugir,

e se finjam de mortos.

Pode ser que, finalmente,

percebam o seu dever.



(Conceição Sousa)