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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

nós,mulheres

De vez em quando, nós, mulheres,
apreciamos entregar os nossos corações,
bem vermelhinhos, bem esponjosos, bem carregadinhos de sangue,
em cima de uma bandeja, e dá-los a saborear a eles,
aos que nos cegaram os olhos ( sem que o soubéssemos, claro!),
aos que nos sussurraram meias-verdades nos ouvidos habituados à surdez
(estou a ouvir? ui!, estou mesmo a ouvir? que bom, ouço! pensei que nunca mais pudesse ouvir!).
De vez em quando, nós, mulheres,
saímos dos nossos corpos e colocámo-nos, à distância de uma esquina,
a observar o suor que escorre, a saliva do deleite que parece querer esticar-se até nós,
até ao sorriso do canto que observa aquilo tudo,
que anui ao gemido a leveza do eco e permite à pele a cinza do arrepio.
De vez em quando, nós, mulheres,
deitamo-nos no canapé lânguido do tempo só para adoçar o bico à inteligência
e calcular o trajecto a que o outro se dispõe ir.
Mas pensas mesmo que ao orgasmo basta o toque do corpo?
Estás plenamente convencido de que as águas e o grito te dizem que és bom?
É que, à distância do canto de um sorriso, há uma inteligência de um calculismo calado
que te sabe aprimorado na tua esquina, a dar ordens aos fluídos e hirtos do teu estar sólido,
para que a tua matemática não te falhe e anote no papel todos os ângulos imaginados.

( Conceição Sousa )


*

ervilha

Tenho por hábito reter apenas o que de bom as pessoas são.
O mau?
Não me perguntem porquê,
mas há um mecanismo qualquer no meu cérebro
que o mirra até ao tamanho de uma ervilha.

(Conceição Sousa)
Tudo está exactamente onde deveria estar. E é por isso que não estás.

(Conceição Sousa)

tu vens

Tu vens e dás-me uma má palavra,
o outro vem e, simplesmente, ignora-me,
a seguir vem mais um que esboça um sorriso amarelo,
e o que se esperava do próximo nem sequer aconteceu -
porque esse não veio.
E eu choro. Choro?
Não, não choro.
Bato o pé.
A tua má palavra é tua , não é minha: fica com ela.
A tua indiferença é tua, não me pertence: fica com ela.
O teu esboço amarelo é teu, não está em mim: fica com ela.
E quem não veio mesmo? Eu? Não, nem conheço: fica com ela.
Bato o pé. E esse, sim: é meu.
Anda cá,meu querido, que eu faço-te uma massagem...
o que é meu eu trato bem.

(Conceição Sousa)

escolho

Sou um ser humano. E como qualquer um de nós, seres humanos, tenho a possibilidade de fazer as minhas escolhas ao segundo. Escolho ser feliz, escolho viver, escolho ser quem sou, escolho escrever, escolho partilhar, escolho os afectos, escolho as boas pessoas, escolho não temer, escolho abraçar-te, escolho beijar-te, escolho amar-te. Isto é o que escolho sentir que sou. Se o acreditas ou não, é problema teu: não meu. Tento viver em paz, faço por isso e, na maioria do meu tempo, vivo mesmo: em paz. Nos bocadinhos de mundo em que me deixo atormentar, sofro, mas logo passa, porque ( e fixa bem isto !) quem manda no meu tempo de sangue e carne e dor sou eu - e eu escolho ser boa para mim e para ti. Não te iludas, não é contigo que comunico, mas sim comigo.

(Conceição Sousa)

tecto

São as melhores, as que não têm tecto,
pois se não há tecto que as cubra,
também não há chão que as prenda.
E respiram a liberdade, bem fundo, sem emenda.
Não forçam o irmão à prisão
nem a companhia de nada,
e respeitam o imperfeito,
o singular,
a porta de saída.
É sem favor.

( Conceição Sousa )


*
Há um rio que corre de Céu
de cada vez que te ofereço o meu olhar.
É o teu amor a me chamar,
(h)ouve.

( Conceição Sousa )


*