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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

verme

Mais uma vez, pensei que eras tu
aquela pessoa linda que trazia cá dentro.
Mais uma vez, me enganei.
Mais uma vez, à distância de um relógio de água,
há algo cá dentro que amarga:
como pude de um verme gostar?
Nunca amaste o verme, querida.
O que amaste foi essa pessoa aí dentro: tu.
O que amas é essa pessoa aí dentro: tu.
És feliz, e nem o sabes.
Ao verme? Esquece-o.
Nem todos no mundo conseguem te acompanhar.

(Conceição Sousa)
Porque não se deve domar um único impulso de luz na vida -
e garanto-vos que algures, em vós, as minhas palavras terão o poder de um reencontro.
Sejam muito bem-vindos!
 

zeros à direita

Interesses perversos, almas descaracterizadas, mentes manipuladoras convertidas à ganância pela doença do século - o olho agigantado face ao capital -, contagiam tudo em redor com tentáculos de chantagem, corrupção e temor. É preciso que saibam que nos querem conformados e subservientes, nós, os escravos, nós, os metecas pagadores de impostos, e, com jeitinho, nós, as mulheres, fadas do lar. Voltámos ao conceito de cidadania da Grécia antiga? Cuidado! O que será que os governos da actualidade entendem como cidadão? Os velhos? Não. Convém que morram. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre. Os doentes? Não. Convém que morram. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre. O Português? Não. Convém que emigre - e, já agora, que mande para cá o pastel. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre. Venham os velhos e doentes capitalistas estrangeiros. Esses já têm o terreno devidamente desocupado para entrarem e se instalarem neste pedaço de chão benzido por sol, terra e mar - um paraíso fiscal ( quem diria?). Nós, os números, deixámos de ser sangue que ferve e corpo que abraça. E eles, as pessoas, passaram a ser venerados, sendo que a maior invenção árabe foi o zero. Muitos à direita. Mais entra no bolso do rico que rouba ao pobre.

(Conceição Sousa in " Folhetim do Português Sem Sopa, Mas Ainda Com Boca")

chinelos


Se um dia acordares e sentires que a vida não gosta de ti,
respira fundo,
senta primeiro na cama,
dirige-te ao chuveiro
( nem precisas de calçar os chinelos. Sentes o gelo no chão? És tu no chão. Levanta-te! ),
deixa que a água te benza,
passa a toalha bem devagar
( vês como te sabe mimar? É quentinho , não é ? ),
olha para a porta sem medo,
está na hora de a abrires.
Olha como é linda a vida,
e há um sol que todos os dias te convida:
vem,
vem comigo,
eu sei como te amar.

( Conceição Sousa )

*

fósseis


Qual deles, universos paralelos, escolho?
Qual delas, vidas cintilantes, percorro?
Nem sempre o estrato debaixo de é dispensável...
há fósseis e rochas radioactivas a comprovarem-nos o chão daquela era,
extinta em espécie e massa,
sabe-se lá por qual cataclismo.
E as fendas recortam estratos,
as falhas golpeiam o trabalhar do tempo,
mostram-nos
que é sempre bom ajudar os filhos a estudar,
pois, de repente, lá sai um poema a deslizar à deriva,
uma espécie de pangeia fragmentada
a mover-se no magnetismo das placas tectónicas
que encaixam e desencaixam, também icebergs,
sempre ao som de um sermão, amor.
Corais? O eterno vestígio da tua passada. De todas as cores o rubro ainda é a mais amada.
Ai de ti se não passas mais esta prova com excelência! Dói-me a garganta. Raios partam mais esta fenda. Tão belo este caminho. É só uma a porta, como vês.

( Conceição Sousa)

*
Não tenho cor política, tenho cor de gente.

(Conceição Sousa)

às vezes

Às vezes sentimo-nos sós,
às vezes o cansaço cobre-nos de cobertor,
às vezes quem deveria estar não está,
às vezes o tempo estica,
às vezes o tédio anestesia,
às vezes ouvimos um sussurro,
a cada dia mais próximo do nosso ouvido, e pensamos
" é p'ra mim? estás a dizer-me que sou bonita?",
às vezes sorrimos a quem passou a estar e não estava,
às vezes choramos porque quem estava deixou de estar
e o sussurro afinal não era ao nosso ouvido,
às vezes voltámos à apatia,
às vezes dormimos sem saber porquê
e acordamos sem saber ao quê,
às vezes quem tinha ido volta,
às vezes o tempo voa,
às vezes o sussurro sopra numa voz diferente,
às vezes a vida ensina:
o sol nasce e põe-se todos os dias;
a primavera, o verão, o inverno e o outono revezam-se a cada ano;
a chuva molha sempre;
a lágrima sabe o caminho de cor e o sorriso está lá na meta.
Às vezes, assumimos a vida, tal como ela nos é -
mas, mesmo que não a assumamos, ela é na mesma.

(Conceição Sousa)


*