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sábado, 16 de fevereiro de 2013

apelo

Tenho a dizer-vos que todos os dias recebo uma notícia triste, uma notícia directamente relacionada com a política criminosa do nosso governo: alguém próximo que perdeu o emprego, alguém próximo que teve de emigrar, alguém próximo que ( por conta dos sucessivos cortes no salário ou reforma) não consegue pagar os seus compromissos, alguém próximo que está a passar fome, alguém próximo que não consegue pagar a conta da luz, da água, do gás, alguém próximo que perdeu a casa, alguém próximo que não conseguiu tratar o seu problema de saúde e, por isso, faleceu.
Digo-vos, de coração, a minha luta é visível, é diária ( como a de todos, suponho eu), e, por vezes, faltam-me as forças. Felizmente, ainda consigo buscar algum ânimo na escrita e espero que a escrita nunca me falhe.
Digo-vos, de coração, pois quando se tem um ( de verdade) o mundo abate-se sobre nós, resisto e luto o mais que posso, estou aqui p'ra mim e p'ra vós, espero que alguém desse lado, que se saiba mover entre eles, os políticos, os retire rapidamente do governo de Portugal, pois isto de nação já não tem é nada. E é este o meu apelo: tirem-nos imediatamente e urgentemente do destino de todos nós. Eu, por mim, faço o que sei: escrevo.

(Conceição Sousa)

Lembra-te

Lembra-te, lembra-te de como era no início...
lembra-te de como era quando não éramos vício,
lembra-te de como era quando nos entregávamos às palavras directas,
quando nos digladiávamos na berma do precipício,
quando nem sequer nos sabíamos tão próximos
e confrontávamos as nossas vivências como meros e desprendidos desconhecidos.
Lembra-te de como eram prenhes de estar aqueles diálogos escorridos de tons e cores e chama e sabores,
sem saber que o eram.
Lembra-te da ingenuidade com que nos vivíamos,
tão doces instantes de tudo,
a inocência de dois círculos que se tocam no perímetro,
beijam-se no perímetro,
e não se invadem com diâmetros e raios
e outras medições parvas de egos e circunstâncias incomparáveis.
Lembra-te de como te amava e tu a mim...
e eram tantas as palavras.
De repente, aconteceu:
o eixo magnético rodou,
a gravidade despenhou-se sobre nós,
o alerta consciente de que aquilo poderia ser amor...
e deixou de ser inocente, deixou de ser ingénuo,
fugimos, cobardes, de nós, do nosso delicioso instante.
Os círculos recuaram e ficou um imenso vazio, um imenso silêncio, uma imensa dor, um ininterrupto falar que dói, amor.
E é isto que somos: um ininterrupto silêncio que fala e dói, amor.
A melhor parte disto tudo é que ainda somos.
E, sim, não há como negar: é Amor - só porque não é outra coisa qualquer.
( E só porque eu insisto que continue a ser, será.)

(Conceição Sousa)

conquistar o coração

É tão difícil conquistar o coração das pessoas...
mesmo que destiles um rio de candura
e abras todas as tuas portas e janelas,
elas, as pessoas, não entram.
Cobre-as uma película vítrea de resignação e,
em torno do coração, há cristais de gelo,
experiências mal resolvidas,
que ofuscam o calor doce de fora com a espada de fel de dentro.
Uma espécie de aviso:
- Não entres. Deixei de acreditar. Estou bem. Não entres que me podes magoar.
É tão difícil conquistar o coração das pessoas

quando deixaram de acreditar.

(Conceição Sousa)

Quando escrevo

Quando escrevo, não há quem me consiga manter no chão, simplesmente porque não há "quem". Por muito que me esforce e treine o meu raciocínio ao dizer " da próxima vez que começares a escrever, vais forçar o pensamento a não desviar-se da tua rota factual, da tua realidade, e vais tocá-la, de vez em quando, enquanto escreves", até à data, não recordo um único segundo em que, depois de iniciado o processo de escrita, a gravidade da vida me prendesse à mesma. Entro numa espécie de amnésia transitória, só me lembro de ter pegado na caneta e de a ter pousado. Durante o acto, a anterior e a posterior àquela tinta que escorre da caneta evaporam-se. Depois do acto, uns dias mais tarde, quando vou reler, pergunto-me " Mas fui mesmo eu quem escreveu isto?" - é estranho.

(Conceição Sousa)

Perdoem-me

Perdoem-me se não lhes sei dizer por quanto tempo mais ficarei -
e toda a incoerência que me notam.
Afinal, sou apenas mais uma no mundo,
uns dias bem, outros mal, uns dias sem, outros vendaval.
Se, de repente, desapareço,
apenas te peço que me escolhas como bom momento (estado e sido),
e não me condenes por te ter dado tanto e depois me ter ido.

(Conceição Sousa)

persistência

Admiro a persistência dos persistentes.
Eu não sou assim para as coisas triviais -
apenas para o que, por certo, já chega
e para o que, por errado, é demais.

(Conceição Sousa)

Gostas de mim?

Preciso de quem goste verdadeiramente de mim.
Preciso de alguém que não me coloque no fim da lista, mas sim num dos lugares de topo.
Preciso de quem me tenha na lista - e em lugar cimeiro.
Preciso de quem sinta e saiba que, mesmo depois de me ganhar, pode, num instante, me perder.
Preciso de alguém que tema esse momento,
alguém que me conheça como as palmas do coração,
que não veja nas sucessivas cedências e oportunidades
a garantia do eterno ( mas sim o sossegar da consciência
de que tudo, mesmo tudo, foi tentado)
e que não duvide que quem tudo dá e entrega,
na hora da desilusão,
tudo tira e nega.
Preciso de alguém que me saiba conquistar todos os dias,
se é todos os dias que comigo quer ficar.
Na iminência de te deixar, querido,
no sempre e para sempre.

(Conceição Sousa)