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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

estava destinado

É simples. Estava destinado dares um passeio pela vila, como há anos desde há décadas fazes, tactear as linhas da tua mão. Estava destinado conheceres as mesmas alegrias de sempre, as que se sentam naquela esquina de sempre, e receberes as mesmas tragédias de sempre, as que te fazem tropeçar naquele quelho de sempre. Estava destinado...
É simples. Queres que seja diferente? Hoje, agora, decide. Entra num comboio e ruma até uma praia, uma outra cidade, uma aldeia no interior. Quando lá chegares - e até na viagem -, sorri a quem está, mesmo que não conheças, mete conversa e abraça o mundo. Vais ver que, porque quiseste que tivesse sido diferente, o teu dia resultará mais rico, ao tacteares assim a mão e o espaço do outro.
Boa descoberta!

(F)

(Conceição Sousa)


verdete

Todos caímos - alguns tropeçam, outros são pregados na cruz com rasteiras. Todos caímos - uns aldrabam a queda, camuflam as feridas, e fingem uma erecção permanente; outros sorriem o elevar de rosto - é isso que as quedas fazem, quebram-nos nas pernas mas erguem-nos no olhar ( chamo-lhes despertar, ter um vislumbre de céu); outros choram o que caiu e, enquanto se afundam naquele bolor - verdete de ser que parece não conseguir se libertar do acto de escorregar -, esquecem que já estão no chão, e que se estão na lama mais vale besuntarem-se nela, esfregarem-na na cara de todos, e só aí romperem as lágrimas para que lavem a subida na sujidade impregnada no coração dos hipócritas. Há uma pele luzidia em ti a soerguer-te essa demanda.
E, lembra-te, todos caímos.
 

(F)
 ( Conceição Sousa)

utopia

No reino da utopia, não há posse nos relacionamentos e, de parte a parte, cada qual celebra, no imediato instante, o que o outro lhe entrega e oferece. O contrato é cumprido e saldado ali, sem direito a garantias, juros de mora, ou indemnizações - isso é treta de quem se destina um amanhã que, todos sabemos, pode até nem existir. Uma linguagem futurista que, qualquer mente sensata e sã, recusa no seu idioma. Como pode alguém prever e apropriar-se do nada?

(F)


 (Conceição Sousa)

neblina

Às vezes, sinto, que não me pertenço. Às vezes, uma neblina cobre-me a mente: o olhar dispersa, todo o som ecoa cada vez mais longínquo, e mesmo o tacto se esquece do toque - já nem se lembra. Alguém me mordisca a pele, alguém suga o meu pescoço; o tónus desertou o meu corpo, congeminou com o intumescimento e, numa nómada travessia, encavalitaram-se num espírito que deixou de me habitar. O arrepio partiu no voo de um único, inerme, não cumprido, gemido.
Como chamamos ao tempo inconsciente, ao instante que já não nos traz no ventre?
Será vida parassimpática?


(F)


(Conceição Sousa)

larvas

Se sabes que o teu corpo vai servir para alimentar larvas, mais vale que comeces já e não te incomodes que a tua alma também o sirva. Quem sabe esses outros corpos não carreguem com eles, e com as larvas que os terão por alimento, a doçura que faz falta ao mundo?
 

(F)
  Conceição Sousa

bebedouro


Quando as manhãs abraçam assim
o manjar do tempo,
as noites deitam-se
no ofegar do nosso leito
e a vida sulca todas as margens -
um rio só, imparável bebedouro,
fontanário de colheitas doces e maduras.
(F)

Conceição Sousa

p'ra baixo

Queres pôr-me p'ra baixo,
queres manter-me ali, espezinhada, ó vida!, ó desgraçada!
Esqueces-te...esqueces-te que em ti busco essa imunidade,
esqueces-te...e encontro, ó vida!, ó desvairada!, encontro sempre.
Se bem que me segures nesse patamar dos que se martirizam,
esqueces-te que em ti inspiro, espreguiço-me fundo, e abraço tudo
o que preciso, tudo o que me satisfaz neste mundo: as estações.
Queres pôr-me p'ra baixo, ó desgraçada!,
e não vês que é em ti, ó vida!, na tua existência, que me sinto
a mais amada.
Vem, vem, sacaninha!, dá-me com tudo!
Enquanto me deres, bom ou mau,
já terá valido a pena: ainda abro os olhos, ainda vejo luz e escuridão, ainda estou.
A rir? Claro que sim. Escuro é que não.
(F)
Conceição Sousa