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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

morreste-me

Quando me morreste, não soube de imediato o que isso era "me morreres".
No dia seguinte, o amanhecer retornou, como todos os outros amanheceres de todos os outros dias seguintes e dos dias anteriores; a noite caiu, como todas as noites de aí em diante e antes dessa caem; a brisa orvalhou-me a face como já o havia orvalhado antes e com certeza haveria um depois; as folhas restolharam-me os pés descalços como já era hábito no antes e o seria no após; o cheiro a terra arada entranhou-se-me na pele, como acontece sempre que um homem ou uma mulher ou um animal revolvem a terra.
Foi quando afaguei a minha pele surrada que percebi: não mais um olhar teu a cativar o meu silêncio. A memória? Pânico. A memória? Não conseguia isolar no tempo o espaço cativo do teu último olhar. Pânico. As tuas feições? Não as lembrava. Como? Sabia que não mais o teu sorriso, não mais o teu choro, não mais o teu beijo, o teu abraço e nem sequer um vislumbre do que era o teu rosto conseguia. Pânico.
Não é morrerres-me que me dói. É ter percebido que levaste contigo a minha memória. Essa é a dor maior. Não me teres deixado um canto para te lembrar ( uma esquininha que fosse), para que possa continuar a saber o que é amar-te. E até as fotografias me soam estranhas.

Conceição Sousa

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

trapos



Quando era criança, lembro-me bem, não sabia o que era o tempo, mas já sabia o que era o tédio: costurava as próprias bonecas com os trapos que a mamã trazia da fábrica ( e que feliz que eu ficava quando ela, a altas horas da noite, chegava, derreada e carcomida das linhas de montagem, coração pesado, e me oferecia a melhor prenda que tive na vida, as sobras de um amor infinito na minha memória, as sobras de mil cores, padrões e texturas da obra, do tempo com a minha mãe que me foi roubado pela fábrica); enchia os tachos e as panelas miniatura, que a mamã suava nas feiras, com o arroz, a massa e o feijão, e contava, indefinidamente, os grãos de açúcar, até me fartar de contar ( acreditava mesmo que conseguiria chegar ao último grão – ainda hoje acredito…); tricotava o pano para a mesinha de cabeceira, a duas cores ( sempre a duas cores), e arrematava as imperfeições – sempre gostei de observar as minhas imperfeições e de lhes dar um fim , eram minhas ; lia, exaustivamente, as novas enciclopédias do Reader’s Digest que o meu pai tinha por vício encomendar e, assim, enfeitar todos os cantos da casa e da minha alma; devorava os discos de Vinil, promoções associadas às encomendas, o Elvis, os Queen, o melhor dos 60, 70, 80, e anotava, sem descanso, as letras num papel ( passava dias inteiros a decifrar a última palavra, aquela que não conseguia percepcionar para completar a letra da música). Às vezes, inventava. Inventar não é desistir. É só ceder um pouco, fazer uma batota pequenina. Às vezes, é preciso inventar para conseguirmos avançar – de um pulo só, avançar. E os livros e os discos eram o tempo que a segurança nacional roubou o meu pai de mim.
Quando era criança, sei-o bem. Ainda hoje, desconheço o tempo a passar quando faço da minha luta um ataque cerrado ao tédio e um abraço presente a todas as ausências. Ama-se quem nos tem na alma e no espírito, mesmo que o corpo não consiga – ou seja impedido de –
estar. E eu fui muito amada.

(F)

  (Conceição Sousa)



rupestre

O acaso nunca é fortuito. É
 sempre ao alvorecer.
E é um acaso eu te gostar,
assim, rupestre,
com aroma a casebre
e no aconchego de um café felino
a uivar o saibo
do nosso cerco.

(F)


Conceição Sousa

bicar de rolas

Eles caminhavam, de mão dada;
calavam as fendas daquelas lajes;
entrelaçavam os dedos no voo das rolas
que bicavam,
num vai-e-vem,
as cascatas dos fontanários;
sorriam um ao outro
os seus silêncios,
as suas tagarelices,
as suas teimosias,
as suas anuências,
a sua montra...
retiniam
naquela gota que escorria
a compreensão daquele estar
tão singular,
com corpos de outros,
à distância de duas cidades,
num laço de ombros e vozes.

(F)


Conceição Sousa

alcatrão orvalhado

É quando a intermitência de nós
se espalha no alcatrão orvalhado de lua
que, no vislumbre desta cortina de melancolias cruzadas,
recosto a cabeça -
sem acordar
o sono p'ra lá do vidro baço de desejo,
o aspirar entrecortado pelo vagão da recolha de lixo,
a ode maior que se eleva das horas
em que as ruas descansam dos ponteiros hirtos,
da tinta permanente em que se declaram todas as guerras -
que mais não são do que a prova sufocada de um amor maior.
E o gemido assusta os animais vadios,
esses que passam a sentir-se acompanhados
e se aproximam da insónia das casas -
e elas começam a arder.


(F)


(Conceição Sousa)


sentir-te, ó minha cidade

Sentir-te, ó minha cidade, nos pés descalços
que correm um rio de suor inocente,
monte deslizante em folhas vencidas pelo tempo
e galhos quebrados pelos sonhos íngremes das intermináveis horas.
Sentir-te, ó minha cidade, nos pés fustigados,
encosta de rochas transpiradas pela água da vida
e poços verdoengos onde chapinham girinos à sua sorte
e larvas de homens que desconhecem ainda o seu gigante.
Sentir-te, ó minha cidade, nos pés gretados,
por debaixo dos saltos altos e das lajes da modernidade,
o pó de cada estio ao crepúsculo a ser desenhado na macaca,
a lama de cada monção de censura a ser surrada no tricolé.
Sentir-te, ó minha cidade, nos pés calejados,
a busca das serpentes enroladas nas bermas do carreiro,
o estalar de língua no rubro dos sinos em flor,
as badaladas exatas de cada chegada e partida de estação -
sempre acocorada nos braços estremunhados de uma alva avó.

(F)
 (Conceição Sousa)

remorso

Há que tentar para que o remorso não nos abafe a alma. Pelo menos saberemos que aquele trilho já percorremos e que as vergastadas nas pernas e braços valeram as arrítmias. Debalde deixamos de o temer e de o considerar. Sem fôlego, o olhar sorri à escuridão daquele outro carreiro, mais atrás ou mais adiante - este amanheceu de repente, enterneceu a curiosidade, quebraram-se temor e encanto. Mais um palmo de mundo no mapa da minha busca. A sensação é a mesma de sempre: saciedade e insatisfação: só isto?

(F)


  (Conceição Sousa)