Número total de visualizações de páginas

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Teci


 
Teci todos os meus amores
num fim de tarde alado -
com sabor a morangos
e cansaço a espiga de milho no lume.
A manta em que nos deitei
cegou qualquer réstia de orgulho,
curvou qualquer coluna hirta,
calejou a dobra de todo o indicador teimoso;
mas é ainda no mesmo tom pérola
que continuo, assim, diminuída e reumática,...
a rematar todas as pontas soltas.
O tacto do anelar torto diz-me
que aquela rugosidade fina sobra naquele canto estreito,
e tudo o que está a mais tem de ser resgatado
num ínfimo nó, crente da voz que é nossa.
Eu já deixei de estar,
mas a manta ainda te cobre.
Se fechares bem os olhos
talvez consigas sentir todas as lágrimas
e todos os sorrisos de nós,
talvez te aqueça nas noites frias,
talvez te afaste das sombras que amedrontam,
em cada fim de tarde,
talvez escutes o cântico dos grilos
que fazem companhia ao meu tom doce,
crochet de vida.

(F)

 (Conceição Sousa)




Em Busca da Flor de Mil Cores 1 - Bugalhudo e Caracolitas no Bocejo do Vulcão


1º livro (de seis) da obra infanto-juvenil " Em Busca da Flor de Mil Cores" de Conceição Sousa. Ilustração : Daria Dzyuba


 Em cada um dos livros, Bugalhudo e Caracolitas, auxiliados pelo Mago Agosto e pela Mosca Verruga (Zzzzz!), embarcam numa aventura diferente no Reino de Encanta o Espanto ou Espanta o Encanto, dominado pelo astuto Príncipe Deslumbrate, que encontra como adversário o irmão, o Príncipe Atua - ambos apaixonados pela Pastora Serena. Bugalhudo e Caracolitas conhecem, nesse trajeto, paisagens fascinantes e assombrosas, e inacreditáveis criaturas do fantástico, ora adjuvantes ora oponentes. São geocachers e buscam, em cada livro, uma cache singular, que lhes permitirá no final da obra encontrar ( supõe-se...) a Flor de Mil Cores. É uma flor com poderes especiais que irá salvar a sua família de uma terrível tragédia. Embora se encaixe no encadeamento da totalidade da obra, cada volume é perfeitamente autónomo e independente dos restantes.
É uma obra que pretende ser interativa, dinâmica e conduzir à reflexão sobre questões importantes na infância e na adolescência. Há uma teia de desafios que coloca nas mãos dos leitores a responsabilidade da resolução dos problemas. Privilegia-se o caminho da descoberta, o conhecimento indutivo. Fomenta a pesquisa e o recurso às novas tecnologias.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Em Busca da Flor de Mil Cores 1 - Bugalhudo e Caracolitas no Bocejo do Vulcão ( Novembro, 2013)



"Tentem imaginar o retrato: um grupo de crianças boquiabertas em redor de um objeto, ora agachadas ora levemente reclinadas. Todas em silêncio, a aguardar a novidade da próxima sensação a explorar. Seria um aroma? Seria uma cor? Seria uma melodia? Seria um sabor? Seria um toque? Um toque, pois. Até o toque era algo diferente, meio gelatinoso, meio asqueroso, como se quisesse repelir quem o estava a mexer. E nunca era o mesmo toque. Sempre diferente, de todas as vezes que os dedos o percorriam. Soltava um odor perfumado, muito agradável, um aroma que magnetizava e fazia com que aproximássemos os nossos rostos daquela espécie de trevo de quatro folhas."

(p.58 de " Em Busca da Flor de Mil Cores 1 - Bugalhudo e Caracolitas no Bocejo do Vulcão", 1º livro (de seis) do conto infanto-juvenil de Conceição Sousa.

Em Busca da Flor de Mil Cores 1 - Bugalhudo e Caracolitas no Bocejo do Vulcão ( Novembro, 2013)



Entrada 2: As palavras.

Para que o portal se abra, tens de ouvir a música, ceder ao que ela mostra e dizer as palavras.
E as palavras descobrem-se sempre por acaso.
Segue o rasto do som, do odor, e pensa na rotina.
 
- Só isto? Que música? – reclamou o André.

 - É, assim está difícil. “As palavras certas descobrem-se sempre por acaso…” – refletiu a Juliana.

 - “Segue o rasto do som, do odor, e pensa na rotina.” – murmurou o André, abespinhado.

p. 86 de "Em Busca da Flor de Mil Cores 1 - Bugalhudo e Caracolitas no Bocejo do Vulcão.", 1º livro ( de seis) da obra infanto-juvenil de Conceição Sousa.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Em Busca da Flor de Mil Cores 1 - Bugalhudo e Caracolitas no Bocejo do Vulcão ( Novembro, 2013)



- Impressionante como o Céu existe mesmo, mano!

- E porque não haveria de existir, Ju?

- Não é isso. Há quem diga que não existe, mas é só olhar de baixo para cima. Olha ele, lá. E, aqui, se apontares, ele aproxima-se, e toca-te mesmo. Ora experimenta. Aponta o dedo para o Céu e fixa aí o olhar. Não tens a sensação de que o estás a tocar? Maravilhoso! É tão quentinho. E é tão simples. É só olhares de baixo para cima.

- Claro! – respondeu o Mago – No vosso mundo poucos o tocam porque têm a mania de olhar de cima para baixo, sempre de cima para baixo. E é tão óbvio. Se insistires em olhar de cima para baixo, a única coisa que vês, que consegues tocar, e que te toca, é o chão. Se tens o Céu por detrás da cabeça, e não a levantas para olhar para lá, como é que queres que o Céu exista?

- Certo, Agosto. – anuiu o rapaz – Quem se acha superior, olha sempre de cima para baixo; quem se sente diminuído, olha sempre de cima para baixo. Há mais de meio mundo que não se lembra, não quer, ou não sabe olhar de baixo para cima. E é tão simples: ser humilde e saber levantar a cabeça. Olha o Céu, lá. Tão lindo! Existe mesmo.

(Conceição Sousa in " Em Busca da Flor de Mil Cores", conto infanto-juvenil)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013


Quando as manhãs abraçam assim
o manjar do tempo,
as noites deitam-se
no ofegar do nosso leito
e a vida sulca todas as margens -
um rio só, imparável bebedouro,...
fontanário de colheitas doces e maduras.


(F)

 


Conceição Sousa


Procuro a leveza das coisas que existem, das pedras;
descanso na constelação exata dos astros;
adormeço na rotina das vagas e das correntes;
e anseio a devolução ao criador deste rio
a que chamam pensamento,
deste oceano que me acorrenta: o sentimento.
Procuro a leveza das coisas que estão, dos penhascos.
E se pensamento não fora nem sentimento houvera
não saberia agora a profundidade da mentira que procuro:
Sei lá eu o que é sentir-me pedra ou ser penhasco?
Quererá a pedra ou o penhasco sentir-se ou saber-se eu?


(F)

Conceição Sousa