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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ama-me

Ama-me.
Ama-me como o que te traz até mim
ou o que me leva até ti.
Ama-me com força.
Ama-me devagar.
Ama-me com tudo.
Ama-me com nada.
Ama-me com o pensamento desperto
ou apagado.
Ama-me. ...
Ama-me sem lugar nem tempo.
Ama-me como sabes, como podes, como queres, como sentes, como vives,
como morres.
Ama-me como acordas, como comes, como bebes, como dormes.
Ama-me como és.
Ama-me como sou.
Ama o nosso estar.
Ama-me
sem que eu perceba
quando acabar.


(F)


(Conceição Sousa)


percurso

Sempre que olhas p'ra alguém, compreende: cada pessoa carrega consigo uma vastíssima história de ganhos e perdas, de dores e alegrias, de luta e desistência, que tem de ser respeitada. É certo que não a vês, é certo que essa pessoa conta a si mesma, a cada segundo, a sua própria história ( como tu te contas a tua ), é certo que não te vê - as histórias são sem paralelo e não se tocam, cada qual única e intransmissível -, mas podes sempre apertar-lhe a mão e dizer, nem que seja com os olhos: compreendo que há um percurso e nisso somos iguais, respeito.

(F)


( Conceição Sousa)

e se eu quisesse que me amasses?

- E se eu quisesse que tu me amasses, como teria de fazer?
- Simples. Terias apenas de mo dizer.
- Dizer, apenas?
- Sim, dizer apenas. Se te agradecesse o sentimento, saberias que o não terias, ao meu amor, da forma que tu gostarias.
- Não?
- Não.
- E então como saberia que me irias amar da forma que eu gostaria?
- Assim que mo tentasses dizer, os meus lábios calariam os teus.
Mas como nun...ca vai acontecer, estamos a ter esta conversa.
- Pois...
- O amor não é de conversas. Se é de conversas, um dos dois não está.

(Conceição Sousa)

escrever o vazio

- E o que é uma mulher que se abstrai do tempo, do espaço, de tudo e de todos e escreve, de forma apaixonada, sobre o íntimo de tudo e de todos, o seu íntimo pois?
-Alguém que de paixão não tem nada, que busca incessantemente não desistir do seu tempo ( vazio, atrás de vazio e mais vazio...) e ocupa-o com a criação obsessiva de paixões umas atrás das outras, corre na direcção da paixão perfeita, ...e enquanto arquitecta os alicerces da casa, do jardim, do céu e da cascata, esquece que o vazio acontece.
- Só isso?
- Sim, só isso. Apenas a maior das contadoras de histórias a si própria. Achas mesmo que se estivesse a viver uma grande paixão - e olha bem para a palavra que apliquei: viver -, estaria a escrevê-la? As paixões ou se vivem ou se desistem, não se escrevem. O que se escreve é a ocupação do tempo vazio.


(F)


 (Conceição Sousa)


convite

Um dia pensei em convidar-te para um café,
e não teria qualquer problema em telefonar-te e dizer:
"Olá, como estás? Correu bem o dia? Que tal tomarmos um café?
Vá, não aceito um não como resposta. Tem de ser. Há instantes que têm de ser cumpridos. E tu precisas de duas palavrinhas e de um abraço meu. No final, decides se te despedes com um beijo. No teu lugar, fecharia os olhos p'ra toda a vida... e relembraria incessantemente esse fim de tarde em que nos encontrámos e ao nosso tempo."
Como disse, pensei em fazê-lo e, por uma questão de horas, não o fiz. Foi só o tempo de ter percebido que a mesa já tinha dois lugares ocupados. Mas um deles pode sempre vagar. É preciso é que um de nós o saiba.
Há ainda um abraço que é teu e um beijo que é meu.
Com o destino que cada um sente não se brinca.


(F)


 (Conceição Sousa)


Se fosses cego, o teu ouvido dir-to-ia sem hesitação: amo-te.
Se fosses surdo, os teus olhos inundar-se-iam com o nome mais à mão: amo-te.
Se estivesses anestesiado, a minha sombra deitar-se-ia sobre a tua aura e fariam o que não abdicam de fazer: amor.
Mas como me escutas , vês e sentes, amas-me pelo paladar: o trago de vinho vintage, quanto mais enterrado na solidão e humidade das catacumbas, me...lhor o sabor do que nunca se vai provar.
Mas eu digo, sem grande pena nossa,
é hora, névoas em êxtase de nós,
de se findarem e nos devolverem ao toque,
o nosso trono,
do corpo o lugar:
amo-te.
Ainda respiras,amor?


(F)


( Conceição Sousa)


Tala

Quando a realidade é incomportável, Deus abre todas as portas, e a mente alcança o inexplicável. O humano toca as extremidades do divino, defesa à dor, cascata de espanto, portal que nos transporta para uma sintonia de tudo, um equilíbrio sóbrio, um deslumbramento difícil de aceitar porque não cabe na rotina dos homens. Mas a linguagem do acaso e das coincidências adensa-se e, num período habitualmente curto, a comunicação com o outro lado acontece. Todo o simbolismo da natu...reza, de repente, transforma-se em respostas e passamos a ver algo mais na simplicidade do habitual: numa melodia, numa fotografia, num número, num encadeamento de palavras, num acenar de folhas, num assobio de ventania, numa forma que se desenha quando soltamos uma pedra no lago, num aroma familiar, num padrão, numa textura, num nome que foi atribuido a alguém e , de repente, consubstancia-se em mensagem de poder. "Tala", o ritmo dos deuses, é testemunho dessa realidade incomportável e da abertura fugaz desse elo de comunicação com o inexplicável. E o que é a criação, afinal? Será realidade ou não? Gosto de pensar, ou melhor, prefiro pensar ( porque penso que o senti- e não terei sido caso único ) que o divino está bem aqui, bem próximo do humano, bem dentro do humano.
(Conceição Sousa)