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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

fúria

Toda a minha fúria se esvai quando o meu amor se encontra na tua dor. E não descanso até que sejas amor - mesmo que eu continue a ser dor. E a fúria nunca fica quando se sabe o caminho de cor, quando há muitos caminhos e é urgente trazer muita gente de volta: ao caminho.

Porque cada vez menos sabemos quem somos - mas um caminho nunca nos é estranho, desde que insistamos em caminhar.


(F)


 Conceição Sousa

homem bom

Certo dia, pedi muito a Deus que um homem bom se atravessasse no meu caminho. Deus não me ouviu: atravessou-se no meu coração, um homem -
que creio ser o próprio Deus.


(F)


 Conceição Sousa

monopólio

Não gosto de monopólios, não quero monopólios, odeio monopólios.
Quero, sim, poder dizer que sou tua amiga -
porque o sinto, porque o sou, só não o digo. Sou expansiva, e?
Porque o sentes, porque o és, só não o dizes. És temerário, e?
Porque sinto que, se o disser, alguns dos outros não o irão entender
e tu sentir-te-ás monopolizado, aterrorizado e infeliz.
Porque não me mereces, sabes?
Porque os melhores dos amigos não se desistem
e porque Deus assim quis.
Mas, acredita, é isso que somos: os melhores dos amigos, os que abdicam.
Tu, por cobardia. Eu, p'ra te dar força e te sentir ainda mais feliz.
Os melhores dos amigos, lembra-te, os melhores dos amigos.
Com a graça da literatura e da maturidade da vida - a minha, claro.
E os melhores dos amigos comungam sempre de uma paixão:
seduzem-se, beijam-se e concluem que só fazem disparates,
que o sentir não é aquele,
que há música, sim, dançada a dois, no âmago do tempo,
e perdoam-se quando percebem que é de irmãos o desalento.
E nunca se desprendem da mão.
Lembra-te, os melhores dos amigos,
são os que sorriem no coração. 


(F)


Conceição Sousa


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

dor funda

Quando se quer adormecer
assim
uma dor tão funda -
adormecer, sim,
uma dor
que se sabe sem fuga.
Quando se tem de adormecer
assim
uma dor tão funda,
nasce um génio....
Há um génio,
mais génio ainda,
quando a dor é da infância,
quando se tem de matar
a dor
com ininterrupto trabalho,
com invenção cor-de-rosa
e urgência criativa
de lá,
do berço.
Quando se adormece
assim
uma dor tão funda,
o génio não dorme,
o génio cala as noites
ao maquiá-las de dia,
o génio é indomesticável.
Percebes agora
por que nunca me derrotarás?
Há uma dor
bem funda
a ser embalada no meu colo.

Conceição Sousa

aguarda...

Ele espera e, se ela decide ir embora, dá meia-volta, resignado, e vai à vida dele. No dia seguinte, regressa ao local, à mesma hora, e aguarda... Ela ajoelha-se e faz-lhe uma festa, ele morde-lhe as mãos, ele lambe-lhe as mãos e segue-a, rasteiro, p'ra todo o lado. Quando ela chama, salta-lhe para o colo e procura lá o conforto de um destino encontrado: dorme.
Não pede, não exige, não ordena, aguarda... aguarda que o amor chegue e descansa quando encontra.
Às vezes recebe muito, às vezes recebe pouco, outras vezes nada recebe, mas está sempre lá, naquele local, àquela hora, na entrega incondicional de todo o seu ser, de toda a sua vontade. É o que é - e não disfarça: tudo o que faz na vida é ansiar pelo amor dela e descansar no seu colo.

(F)

  Conceição Sousa


Eu disse-te...

Eu disse-te que não era fácil
dizer que te amo,
não sabes?,
no brilho que de meus olhos se soltou,
não viste?,
e sorriste.

Eu disse-te que não era fácil
escrever assim o teu nome,
não leste?,...
nas letras que somei e apaguei,
contaste?,
o sangue que escorreu de tinta,
e sentiste.

Eu disse-te que o meu amor é grande,
tu sabes,
e que não há um no tempo,
tu sentes,
que se entregue assim ao que existe,
não queres?

Eu disse-te...


(F)


 Conceição Sousa


36* estou farta; não baixo os braços.

Eu, que li tanto, mas tanto, mas tanto, autores portugueses e estrangeiros. Eu, que os estudei, com tanto vigor, culturas diversas, ancestrais e contemporâneos, de outros mundos e conterrâneos. Eu, que abdiquei da infância, da adolescência, da juventude, bisbilhotei bibliotecas, confrontei-os amiúde, escrevi teses e ensaios, esgotei de tanto amor e até desmaios. Eu, que me rebelei e queimei tudo, confronto-te agora, meu carrasco do tempo, o ditador de circunstância:
- Mas quem tu pensas que és p’ra me condenar à demência?
Se há voz que aprendi a escutar foi a minha em cada lugar, em cada destino de busca, em cada registo de época, em cada alma poeirenta e tísica mas firme, porque de estada definitiva na folha de café esborratada.
- Mas quem tu pensas que és p’ra me condenar à demência?
E se há voz que encontrei em Pessoa, Torga, Espanca, Saramago, Nietzsche, Kafka, Brecht, Schiller, Shakespeare, More, Shelley, Yeats, Poe foi a da verdade que é nossa, do íntimo, ainda que nos cause devassa.
Irrompo, sim, por ti adentro, hipócrita “Scrooge” do tempo. Não. Não me amedrontas com as tuas palavras supérfluas e banais, sem voz de honra nem respeito pela humanidade dos demais. Sou a “Mutter Courage und ihre Kinder” ( mãe coragem e as suas crianças), o “Wilhelm Tell” da maçã certeira, o Frankenstein sem eira nem beira que acredita no criador e na faúlha da vida, a Juliet à espera do Romeo, a Pecadora que se Confessa, o Caos de tantos eus dentro, a placeba Melancólica e dorida de quem escuta a minha voz, o inevitável “Se” que não se quer, a toda a hora e instante, a Utopia tão perto e tão longe, o Relógio que não da torre mas do coração, a Terceira Idade sentida na experiência do chão e o confronto de infância com a Morte: em vida, não: nunca!
Podeis vir, com esses discursos falaciosos, essa arte de bem falantes, esses espíritos injuriosos. A mim não enganais, só a vós, tristes arraiais.
Vivemos um tempo em que as gentes de bem são torturadas na sua existência. Há um grande capital prenhe de ganância e uma democracia no precipício da falência. Há um parlamento podre nas teias com que se cose; corredores de interesses menores e testemunhos abafados num contágio de rabos presos; elites ameaçadas por inteligências informadas, educadas, um 25 de Abril, lá longe, que acena a derrocada.
- Mas quem tu pensas que és p’ra me condenar à demência?
Se alguém esbanjou o que não devia não foi a classe de trabalhadores: foi sim a elite de corruptos condutores. Quereis agora duplicar o vosso crime e condenar o inocente?
Sabei que a literatura não mente: desperta para a vida e não consente.
Estou farta; não baixo os braços. Há, em mim, todos os Gandhis, Mandelas e Martin Luther Kings. Deixai de ser hipócritas e assistir a funerais quando provocais mais moribundos nos demais.
Exijo condutores de genuíno coração, e que todos os outros condenados sejam por crimes contra a humanidade. O parlamento existe para representar o cidadão e não para servir a divindade.
Tira a meia da cabeça, que mais não é do que uma arrogante gravata, e devolve o “Robin Hood” à história, uma bem contada e não alterada para fins de acta.
Devolve a vida ao trabalhador porque sem ele não há capital. Escravos não seremos e combateremos com palavras e actos tudo quanto nos queiram fazer de mal.
- Mas quem tu pensas que és p’ra me condenar à demência?
Mais do que eu não és com certeza, pois se Deus te deu o dom da vida, a mim deu o dom da clareza. Tiremos ambos as vestes e vejamos onde reside a beleza.
Pelo direito à vida e à dignidade.
Com a força e a fé de Deus, havemos de vencer. Ámen.
Porque, acredita, não estamos sós.
Conceição Sousa