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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Não sei explicar...quando escrevo, há uma plenitude inabalável. Quer quebre de tristeza, quer expluda de alegria, quer me acobertes na tua rotina, quer me negues a tua porta... só porque respiro, escrevo e, quando escrevo, há este embriagamento pleno: felicidade. As palavras vão desenhando nos seus contornos o deleite da existência: atentar na realidade, sentir os outros, pensar as coisas, criar laços connosco, contar a nossa história. Dormir do que dói. Expandir o que extasia. Celebrar a vida e tornar essa degustação eterna. Arte: o alimento da alma.

Não partilho e escrevo, não publico e escrevo, ninguém lê e escrevo, ninguém vê e o livro vai se avolumando, os livros vão se mutiplicando; as ilustrações embelezam as destinos, os capítulos encarreiram os desalinhamentos, os temores esvanecem-se e os pontos de luz infiltram-se a cada brecha: Ah, é aí que estás!
A alegria permanece. E é só o que importa na vida: que a alegria permaneça.

Conceição Sousa

domingo, 16 de fevereiro de 2014

as cores

 
se há momento a que não resisto
são as cores do céu,
ai, as cores deste abençoado e chuvoso céu,
que me apanham sempre na derrocada
do que não interessa mesmo nada,
me prendem o rosto entre monções...
e sopram todos os beijos do infinito
na tez do que quer que seja que eu tenha
acreditado ser triste.
e é aí que eu ouço
"triste é não perceberes que estás"
e é aí que as lágrimas queimam,
a língua abraça o sal,
e tudo me sente um gigantesco lampião sorriso
" sim, percebo, estou, meu agasalho lindo!grata por
mais uma vez, mais uma vez a querer e a aprender a amar."

sábado, 15 de fevereiro de 2014

medos

Não podemos viver de medos
quando a vida se estende sob nós
num rubro decorrente de silêncio, de voz
" a estrela és tu e cintilas faúlhas benzidas
no percurso da vez anímica e singular que é a tua!"
Não podemos viver mortificados de medos,
antecipar a ferocidade do fim
em auroras repletas de inícios.
Deixa que o medo te ocupe apenas na hora do medo,
na hora fatídica do grande medo,...
o medo resignado do que se sabe que acabou.
E mantém segura a lembrança do medo que está por vir
para que vivas com coragem e plenitude
a vida que te merece sorrir.
Cintila as tuas faúlhas rubras e benzidas
na estrela que te fizeste de terra,
de gravidade no chão.
Ama e pede perdão,
ama e pede perdão,
ama e estende a mão.

ousara

Ela não ousara intrometer-se no seu caminho porque acreditava que Deus eram os homens e as mulheres que o faziam, Deus era o livre arbítrio de deixar solta a liberdade de escolha - e, quer ele a escolhesse quer não a escolhesse, ela sentir-se-ia gratificada e feliz porque ( eu ia dizer "concedeu-lhe", mas ela não era Deus) não o obstruiu, não o impediu de prosseguir no seu livre arbítrio, manteve-se fiel ao seu âmago: o de acreditar que Deus é uma construção à medida de cada homem e de cada mulher, a construção que se vai erguendo, tomando forma, tijolo após tijolo, e deixando a folga da liberdade de escolha entre si. E ele escolheu deixar uma folga ainda maior. A terra tremeu e Deus caiu. Essa foi a escolha de ambos. Pelo menos, ela sabe disso: e sorriu.

tarefas rotineiras

 
E há aquelas pessoas que ninguém vê, mas que, na verdade, são elas quem segura isto tudo. Sempre com o seu trabalho, sempre com o seu suor, sempre com o seu silêncio, sempre com o que tem de ser feito. Abraçam as tarefas rotineiras com aquela visão maior que só os grandes génios têm. Entendem que antes de qualquer acto de mundo há que preservar tarefas simples, manter ciclos de regressos a certas horas do dia e da noite, conceder vislumbres de lares; há que, subtilmente, disciplinar essências, fazê-las encontrar-se no caos o percurso de grãos a reinícios, ao entranharem os vestígios das estações.
São essas pessoas que nos guardam, vigilantes, com as mãos calejadas e os pés gretados, a pacificação dos nossos espíritos. São elas os verdadeiros deuses, a quem presto as minhas vénias e rogo as minhas orações, porque sei que nunca param, não conseguem, está-lhes no sangue, serão sempre incansáveis pelo bem da humanidade.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

52*


52*

Hoje, na caminhada de sempre pelos lugares de sempre com os pés de sempre e os horizontes de sempre, decidi fechar os olhos. Ouvi
" Bem-vinda! Finalmente, chegaste."
E, de repente, a pele o calor da ventania a escancarar a porta d...a pele. A volta de chave na fechadura, cerrar os olhos, a pele, a porta que sempre ali esteve sem que a visse, abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, cerrar os olhos, nova volta de chave na fechadura, a pele, e o empurrão do vento a lançar-me num salto dentro
" Isso, adiante, é p'ra frente! Vamos juntos, como sempre, eu levo-te."
Abrir os olhos, fechou-se, sumiu-se, não há, cerrar os olhos, mais uma volta de chave, a porta, a pele, o conforto dos teus ombros fortes nas minhas omoplatas, cercas-me as pálpebras com o afago do esvoaçar do meu próprio cabelo, as tuas mãos a conduzir, a cobrir os meus olhos, o teu beijo ao de leve na minha boca (um ligeiro formigueiro em redor dos meus lábios), o teu sopro na minha nuca, e o suspiro sibilante no meu ouvido esquerdo, uivas
"Amo-te. Já me vês, agora?"
Sim.
Abro os olhos, não estás. Fecho os olhos, nunca deixaste de estar. A chave. A porta. A pele.
Aos olhos foi incumbida a tarefa da distração. Ver é outra coisa.

Conceição Sousa

53*

E há aquelas pessoas que ninguém vê, mas que, na verdade, são elas quem segura isto tudo. Sempre com o seu trabalho, sempre com o seu suor, sempre com o seu silêncio, sempre com o que tem de ser feito. Abraçam as tarefas rotineiras com aquela visão maior que só os grandes génios têm. Entendem que antes de qualquer acto de mundo há que preservar tarefas simples, manter ciclos de regressos a certas horas do dia e da noite, conceder vislumbres de lares; há que, subtilmente, disciplinar essências, fazê-las encontrar-se no caos o percurso de grãos a reinícios, ao entranharem os vestígios das estações.
São essas pessoas que nos guardam, vigilantes, com as mãos calejadas e os pés gretados, a pacificação dos nossos espíritos. São elas os verdadeiros deuses, a quem presto as minhas vénias e rogo as minhas orações, porque sei que nunca param, não conseguem, está-lhes no sangue, serão sempre incansáveis pelo bem da humanidade.

Conceição Sousa