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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

dias p'ra tudo

Tenho dias p'ra tudo.
Tenho dias p'ra estar fechada, contida, resguardada,
pegar numa boa leitura e desfiar a vida que me sabe a nada.

Tenho dias p'ra tudo.
Tenho dias p'ra carregar ininterruptamente no interruptor,
calar a boca no trombone
e massacrar os teus ouvidos com a minha dor.

Tenho dias p'ra tudo....
Tenho dias p'ra me esconder,
morrer aos poucos na escrita do desesperançado
e chorar a infinita solidão ao teu lado.

Tenho dias p'ra tudo.
Tenho dias p'ra me soltar,
abraçar os sete ventos e tudo em ti apertar.

Tenho dias p'ra tudo.
Tenho dias sempre meus,
não estorvo quando amuo,
não faleço no que sou eu.
Dou-te a vida que me faz
e o mundo que me tem,
agradeço a tua paz
e só peço ao tempo: vem.

ânimo

Não precisamos de nos tocar.
Só por nos sabermos
Sentimo-nos vida incontida
E fazemos felizes todos
Os que assim se deixam amar.
No nosso sermos...
Há ânimo -
O botão que insufla
De vida verdadeira a vida de um morto nascido de corpo.

Ouviste, e eu estou grata.
Leste, e eu estou grata.
Deixaste que ocupasse o vazar do teu coração,
e transbordaste o meu.
 

nunca peço

Sei que não to vou pedir. Eu nunca peço.
Faço. Faço sempre.
Faço até p'ra lá do limite. Até p'ra lá da exaustão.
E continuo a fazer.
Porque é assim que sou: fazer.
Mas também é assim que sou: não conseguir pedir.
Não sei. A voz não sai. A boca nem sequer entreabre.
A voz nunca sai. A boca nunca se entreabre.
Não sou pedir. Não sou pedir.
Sou fazer ou não fazer....
Não sou pedir.
E o que sou nunca peço.
E se sabes o que sou é porque teclo. Dedos, não boca.
Mãos, não língua. Movimento, não voz.
Eu nunca falo. Nunca falo.
É pela ponta dos dedos o que sabes.
É pela ponta dos dedos o que peço.
Escrevo.

Conceição Sousa

guardo-vos

Meus queridos, nos meus braços cabem todas as dores do mundo. Sufoco, e guardo-vos.
Há um olhar ternurento a alumiar cada luz que se apaga.
Há um paladar doce a cada lágrima amarga.
Meus amores, no meu colo embalam-se todas as desesperanças do mundo.
Sufoco, e guardo-vos.
Há uma mão aberta a procurar a desistência do teu toque.
Há um sorriso franco a estender a humanidade que nos cobre.
Meus divinos, na minha essência desnudam-se todas as hipocrisias do mundo. Não há cadeados. Não há puros nem há condenados.
Há trajectos, há percursos, há caminhos.
Sufoco, e guardo-vos.

Conceição Sousa

enganar

Passo pela vida a enganar a vida,
essa que escolhe p'ra mim o que não me quer.
É aí que eu escolho enganá-la.
Passo a vida a enganar a vida.
E é ao enganá-la,
em vez de matá-la,
que vivo sem quer
e sem o saber
a verdadeira vida.
E é nesse engano que sem querer...
e sem o saber
acabo por ser feliz.
Passo a vida
a distrair-me
da vida.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ora...apetece-me contar uma outra versão da história: a de que tanto os políticos portugueses como os europeus percebem que a guilhotina se aproxima a passo de meteoro - ainda não o consciencializaram, a grosso modo, mas percebem ( veja-se que já nomeiam carrascos...) -, e como há demasiados gatos e gatas com o rabo preso, começam agora a senti-lo entre as pernas. Alguns, afinal, não são gatos, mas sim ratos - veja-se quantos numa semana saltaram borda fora ( há peste, negra, tchiu!) - e batem com as cabeças nas paredes de tão desorientados. Há um odor fétido a urina. Como são gatos pretos, não se augura nada de bom. A história ensina-nos que, mais tarde ou mais cedo, rolam sempre cabeças. E passos dados, em (cada)falso, já eram. Aprendeste? Eu também não.

(F)


 Conceição Sousa in "Folhetim do Português Sem Sopa, Mas Ainda Com Boca"