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sábado, 24 de maio de 2014

7* Só o giro interessa



7*

Só o giro interessa

Sei que, logo ali, na despedida da infância, à porta da adolescência, fiquei condicionada, fui condicionada.  Sou curiosa de saber como teria sido se, normalmente, como outra criança qualquer, em qualquer parte tranquila do mundo, tivesse podido continuar a caminhar sem grandes sobressaltos nem parvas euforias ou medonhas agonias. Sim, como outra criança borbulhenta qualquer, como teria sido?... Intuo que nada do que me tornei hoje existiria.

Não consigo evitar de sentir todas as dores advindas como um  prémio. Sim, um prémio em direcção à optimização da inteligência emocional. Só para que entendam melhor, Malala Yousafzai, a menina a quem deram um tiro por defender a escolarização das meninas e teimar em ir à escola, ganhou um prémio muito antes de o ter ganho de facto, dores especiais que a brindaram com uma inteligência emocional extrassensorial – nem dá sequer para imaginar o estádio evolucional em que esta menina-deusa se encontra ( faço-lhe vénia!).

 Há quem demore séculos a estudar a fórmula perfeita do comprimido exacto ao impulso dessa optimização. Pois eu digo-vos: perfeita idiotice. Basta uma dorzinha qualquer e a sinapse desenrola-se, as células nervosas congeminam no caminho umas das outras e, pimba!, mais uma nuvem de massa cinzenta, mais uns centímetros sem que a ressonância magnética tenha de concretizar-se para percebermos que um cantinho de miolos massificou-se, num tom grisalho, sempre num tom grisalho, hum... Já pensaste por que raios o tom do amadurecimento é prateado? A melancolia é a cor física que comprova a evolução da inteligência emocional. Nada mais óbvio. A minha foi implantada muito antes da idade própria, daí que se perceba a extra-sensibilidade – pelo menos, eu percebo, e eu é que interesso, não?

A dor cai em nós como que um relâmpago, estatuificamos, em posição de meditação, cadeados que nos obrigam a pensar, a silenciar o ruído, a reflectir a intensidade da luminosidade para outro lado qualquer ( fez-se luz, mas é mais do que aquilo que um simples corpo consegue aguentar), a digerir o abalo, a equilibrar o sofrimento, e retemos… a bosta disto tudo é que a optimização da inteligência emocional optimiza tudo o resto, como por exemplo a memória, concede-nos uma memória de elefante, e recalcamos toda a vida aquela dor. Serviu para evoluirmos; acanhou-nos o discernimento. Levamos um choque elétrico e retivemos na nossa memória essa dor, essa tensão. Daí em diante, qualquer semelhança não é pura coincidência e a nossa inteligência emocional têm efeitos secundários muito adversos, reconhece todas as semelhanças e entra em choque: intimida-se, amedronta-se, sofre de ansiedade por antecipação, aterra no síndrome do pânico, e cega para a inteligência propriamente dita. Qual é? A de não haver consciência de que se o é: um ser inteligente.

Se há especialidade em que uma inteligência emocional é perita é em consumir-se. E toda a gente sabe ( basta observarmos um campeonato de xadrez, por exemplo) que se há especialidade em que o mestre é perito é em ficar cego para tudo o resto, daí que, não raras vezes, os principiantes suplantem os mestres. Pudera, também não vêem mais nada a não ser aquele pormenor em que se tornaram especialistas. Tolheram-se ao tamanho de uma ervilha, desocupando todo o restante espaço para quem vier.

Oxitocina: a hormona do amor, dizem. Nem sei se a tenho em abundância ou em relutância. Sei que me tornei especialista no amor e, a dada altura, deixei de ver tudo o resto – inclusive o amor.

 Nenhuma obsessão é boa. Esta não é diferente. Há que libertar as emoções para outros espaços, não familiares, tentar obter uma visão holística da coisa, conhecer e decifrar outros parâmetros de invasão. Há quem procure o elixir dessa captação, desse entendimento do outro sem a destituição da nossa própria identidade. Há quem observe e nomeie, é autista, só porque tem um mundo muito próprio, desprovido de filtros que os demais possuem, e jorre uma torrente de criatividade próxima do divino. P’ra que raio servem os filtros, pergunto? P’ra que raio servem os filtros? Há quem nos queira abocanhar com fármacos que ainda não foram inventados ( e ainda bem!), só para criar esses filtros que impeçam a criação ( antítese?), que permitam a uma dada inteligência impedir a criação porque a criação é o caminho – dizem – para incapacitar qualquer inteligência emocional de desabrochar e reconhecer outra inteligência emocional. Mas quem quer filtros? Dane-se os filtros. Os filtros são o arcabouço da humanidade.

A criação é mais intelectual, certo, é mais disciplinada, mais calculista… Sou capaz de concordar que a criação destitui a emoção, arrefece o sangue e banaliza o sensitivo. A criação  precisa do instintivo, do intuitivo,  do sensorial, no início, mas  consagra-se( metódica como só pode ser), acima de tudo, um acto especialista racional. E, como todos os actos especialistas racionais, arrefece, desumaniza-se humanizando, percebes? E contrai-se, porque só vê a sua especialidade. Tudo o resto deixa, como que por magia, de existir. E isso é muito mau. Péssimo, mesmo. Às vezes, um perfeito idiota, soluciona em segundos um problema que um especialista demora décadas a tentar. E porquê? Porque vê o bolo todo, enquanto que o especialista só está interessado na sua fatia. Ego?

É certo que uma inteligência emocional eficiente tenha limites. É o que se chama de dar um tiro no próprio pé – não que alguém tenha culpa de ter optimizado a sua inteligência emocional, calhou! –, porque se é mais eficiente para umas coisas, também o é para outras. E as memórias geneticamente e circunstancialmente melhoradas são-no para o bom e para o mau. Há que bloquear a nossa especialidade, a nossa obsessão, e canalizar energias para a libertação do ego na direção do novo, do não familiar. Criar novas formas de lidar com a informação: ser receptivo, ser sempre receptivo, mesmo que nos pareça uma perfeita idiotice.

Nenhuma especialidade, obsessão, é saudável. Há que domá-las, torneá-las, dançar os ritmos indígenas com elas, fechar  e abrir os olhos as vezes que forem necessárias até que um ínfimo ponto de diversidade surja – e mordê-lo com tudo, com dentes, com unhas, com garras, com tudo. E partir do novo, daquela estrela; deslizar nos seus feixes à amplitude do ângulo, o mais giro. Repara que até o que interessa na vida – deslumbramento, estou a falar de deslumbramento –, torneia-se num ângulo giro: abres a boca de espanto! ( é um ângulo giro!) O sorriso assume-se raso face a isto, mas 180º sempre é melhor do que a rectidão de  90º ou a insuficiência de  menos de 90º, certo? O acutângulo de um beijo sabe sempre a pouco, por isso queremos sempre mais. ( E nunca estamos satisfeitos, não é? Ao ponto de preferirmos, por vezes, o nulo!)

Repara que até o que interessa na vida perfaz os 360º, abre-se num círculo de infinitude. Daí que todos busquemos o giro que é do abraço e caiamos na amplitude exacta da lágrima. E tu és mesmo giro! Sou tão emotiva!

Conceição Sousa

 


6* Por amor?

6*
Por amor?
Toda a minha vida escutei esta pergunta:
– O que serias capaz de fazer por amor?
(Tudo?)
Questionava “Tudo?”, mas será que?... 
Uma réstia de dúvida, nada de muito significante, nada de muito significante.
Há pensamentos difíceis, sensações extremadas que não devem nunca ser soltos. Intuem-se, sabem-se, guardam-se e reza-se para que nunca aconteça aquela circunstância, aquela intersecção do acaso que accione a necessidade: tudo?
Um filho.
Um filho que nasce de nós. Um filho que, sôfrego, abocanha o mamilo e sossega. Um filho que dobra o choro e sente os dedos a acalmar as cólicas: silêncio. Um filho que baba a urticária da dentição e rói o queixo até à exaustão. Um filho que enrola as letras na busca do colo. Um filho que cambaleia pela casa e balança o equilíbrio por entre os nossos braços.
Um filho.
Um filho que procura pela cadela que já não está. “É hoje que volta do veterinário, mamã?”
Um filho que olha para o ninho e olha p’ra mim: não fala, olha, indaga, percebe.
Um filho que diz que dói o braço e tu ouves “ vou morrer como a cadela, mamã?”
Um filho que procura pela avó que não está. “ É hoje que volta do hospital, mamã?”
Um filho que olha para o avental e olha p’ra mim: não fala, olha, indaga, percebe.
Um filho que diz que dói a barriga e tu ouves “vou morrer como a avó, mamã?”
Um filho a quem tu tocas e perguntas “ Doeu? Iupiiii! Parabéns! Estás vivo!”

Quando um filho precisa, a hora é sempre a certa.

 – O que serias capaz de fazer por amor?

Quando um filho precisa, a hora é sempre a certa.

Quando um filho precisa, a hora é sempre a certa.

Conceição Sousa

5* Aflige-a a correria

5*
Aflige-a a correria
Talvez porque já tenha corrido muito, e durante uma eternidade, e continue a correr, aflige-a, de sobremaneira, a correria –
e trava-a.
Sim, devagar, com mais calma… e intervalos, porque não?
 
Dantes era porque era urgente acabar com a fome, destituir a miséria, abraçar todos os que ama num xaile de amparo cómodo, restituir a força a quem se esvaziou de sonhos pelo vagar dela.
E foram, assim, duas extenuadas décadas a consumir-se até às vísceras, numa redoma fabril, onde nenhuma pausa se impunha ao ritmo acelerado das linhas de montagem, em que uma só funcionária, uma só, engolia toda a matéria-prima e expelia toda a produção; em que uma só funcionária, uma só, produzia tanto mas tanto mas tanto que distribuía à exportação. E exportava: exportava: exportava.
A miséria em redor desacelerou. A fome quase que se extinguiu. Os xailes multiplicaram-se. A força tornou-se contágio. A funcionária quebrou segundos antes de subir de posto. Disfarçou e subiu na queda.
Depois era porque era urgente acabar com as desigualdades. Havia que diminuir o impacto do afastamento de quem ficou para trás. E mais uma década na correria. A promoção era boa, mas, sem companhia, de que lhe valia? Tinha de produzir mais, descer à linha de montagem, ajudar quem lá estava a engolir toda a matéria-prima e a expelir toda a produção. E exportava: exportava: exportava.
Mais um subiu de posto, segundos antes de quebrar; contudo a quebra deu-se por um motivo diferente… não era a extenuação a razão da quebra, era o “tens-a-mania-de-que-és-melhor-do-que-toda-a-gente”, subiu e disfarçou, não a queda, a distância a derramar-se.
Ela continuou a subir na queda, e a fazer-de-conta. Um beco sem saída impõe um faz-de-conta, certo? E se é para continuar a queda mais vale que se suba, não? Se calhar não. Mas que faço? Paro e deixo-me cair?
Se ao menos a máquina desacelerasse.
Estás enganado. A máquina está parada. Quem não desacelera é a funcionária, raios! Não sabe desacelerar. Não consegue. Faz intervalos, cada vez mais longos, vá lá…
Descobriu que tem mesmo de fazer intervalos, longos, se quer companhia. Percebeu que não vale a pena correr. Correu tudo na partida, nos primeiros metros, agora está só. Precisa de aprender a não correr mais, mas o peito puxa, o rosto avança, o embalo não quebra, e o vento que não é vento empurra, o passo estica… que há-de fazer? Toda ela pede, toda ela pede, não tem como não lhe dar o que toda ela pede, e continua. Não sabe a distância do horizonte, parece-lhe mesmo que quanto mais corre, mais distante ele se projecta. Deixou de o observar, ao horizonte. Apenas contempla os intervalos, cada vez mais longos, dessa corrida que não acaba. E espera que um dia alguém se aproxime para intervalar com ela.
Sim, devagar, com muita mais calma, sim?
Se é p'ra cair, tenho tempo.

Conceição Sousa

quinta-feira, 22 de maio de 2014

4* Ímpeto de ruptura


4*
Ímpeto de ruptura
Não é invulgar o avanço para a queda em mim, um ímpeto inabalável de ruptura na direção do vácuo: e algo há-de acontecer, nem que seja um termo a prazo certo ditado por mim ( eu mando, a ditadura sou eu: fim).
Isto de quererem que eu exista para satisfazer as necessidades de outros e oprimir as minhas é uma treta. Era criança, impreparada, e já o reivindicava. Porque será? como se explica? Memórias de genes grisalhos, longínquos, vidas cumpridas até às rugas, calejadas de mágoa e resiliência, que permaneceram no óvulo da minha mãe e no espermatozoide do meu pai? Embora não haja notícia de na história familiar haver assim alguém tão insubmisso aos tempos, se calhar até houve, lá nas linhagens de mouros e nórdicos. Já vos disse que reconheço-me feições mescladas, testa de moura, nariz de romana e cores de viking? Ao rubro, sempre ao rubro, cabelos de fogo e olhos de lince – coração de fera abatida, a rosnar um “ Não te atrevas, longe! Olha que mordo e tenho fome!”
Rompi com o padre que massacrava a missa e eu tão pequena: Fala baixo, homem, que desperdício de energia, eu ouço bem! E porque só tu, homem, e não uma mulher? Anos a fio, corpo anestesiado, a percorrer os mesmos carreiros, a sentir a dureza daqueles bancos, joelhos doridos, mãos atrofiadas, uma na outra, a impedir a explosão de dentro no encalço da testa, o eco do sino a consumir-me os badalos do que é imposto, uma foto em que me vestem de bege, terço a carpir os nós dos dedos e eu, tão pequena, de maxilares cerrados, nem um sorriso. Será que não sentiram que não celebrava?
Rompi com a cultura da época, o pai que concentra em si todos os poderes, a subserviência do feminino ao masculino: “Não, meu pai, por que tem a minha mãe de estar de pé e te servir? Não foi ela que cozinhou? Por que não senta a minha mãe e serves tu a ela, não merece esse descanso, esse carinho? Por que não lhe abres tu a cama e lhe colocas os chinelos à porta do que a espera: ternura? E eu? Por que não saio eu à rua como os meus irmãos homens? Não te beijei quando entrei? Não te dei o mesmo abraço que eles deram?” Anos a fio a contornar a voz do instinto, a abraçar um toque oco, a beijar de cadeados, e venci. Rumei, esgotada e triste, ao futuro de um passado que não se recupera porque não existe. Vencemos. Já não há subserviência do feminino, há crescimento, aprendizagem, um pai divino e uma mãe aragem, evolução: e avental no coração de um homem bom.
Isto de quererem que eu exista para satisfazer as necessidades de outros e oprimir as minhas é uma treta, escutas bem, Sr. Ministro? Temo fazer uma loucura, temo fazer uma loucura. Um instante de decisão. Mais um ímpeto de ruptura. Um insignificante instante de decisão – e já nada será como antes, nem p’ra mim, nem p’ra ti, irmão. E, na verdade, já nada há que eu tema e esse é o gigantesco temor: nada há já que eu tema, escutas bem, Sr. Ministro? Um instante de decisão. Aviso-te. Um instante de decisão. E já não existo. Qual é a complicação? Sou moura, viking e romana, irmão…
A que vem será melhor. Respirará a liberdade de ter agido em tempo útil a decisão de lhe aprovar a vida: a de verdade. Uma loucura pelo bem da sanidade. Uma loucura e o champagne do teu sorriso. Uma loucura e o alívio da humanidade.
Quem vem comigo?
Sim, ninguém, de início, já sei...

Conceição Sousa

3* A morte da inocência é o fim.

3*
A morte da inocência é o fim.
A morte da inocência é o fim. E o rastilho. Tudo o que vem a seguir é prolongamento – porque é mais do mesmo, porque mói e mói e mói, porque nem anda nem desanda, porque morreu e apodrece a morrer e escarafuncha no não haver, porque consome o que já rompeu de gasto e continua a ralar –, tudo o que vem a seguir, permitam-me a redundância, é o inferno.
“Olá! Pensavas que nunca até mim virias? Olá! Um abracinho só, vá, não te encolhas, deixa de ser tolhida, só um toquezinho…”
A morte da inocência é a catástrofe. Quando o alumiar da vela se extingue, o que sobra? Rebordos calcinados, curvas ásperas e o bafo quente do teu hálito na penumbra que se reveza penumbra e mais penumbra, a sufocar.
“Chega p’ra lá, apre! Deixa-me respirar. Dá-me espaço, dá-me espaço.”
A perna que não se atreve a estirar, o terror do toque, um sinal e ele vem, abocanhar-me toda, engolir-me, não, não… Um ínfimo ponto, a apartar o asco.
Sonha o retorno da inocência, o dedilhar ingénuo, o sorriso ao acaso. Suspira a infância nos passos simples, o contemplar deslumbrado das horas que não se contam, do regresso aos segundos eternos, à magia dos pássaros que se constroem com conchas do mar.
“E voa? A sério? Voa mesmo? Como pôde um mudo construir umas asas de anjo num pássaro de iodo?”
É isso, viver. Passar o ciclo das auroras e dos crepúsculos em torno das asas de um pássaro de iodo, impossibilitado de falar; apagar os ruídos devassos do mundo no interior de cada concha que se cimenta; deslocar a retina no embalo do reclinar de testa e espantar-se junto com as penas que voam do pássaro.
“Vou, vou mesmo, aguarda-me… já me vês? Vês como voo? Não? Ah, sim, só as penas…”
Restaura o toque da inocência no silêncio que circunda a imponência do pássaro de iodo. Entrelaça os dedos enquanto sentes que a derradeira concha não deve ser posta, enquanto o mundo desconhece essa voz que nunca ouviu só porque não quer ser ouvida e não vale as penas do pássaro que a ouçam.
É isso, viver. Não vá o pássaro de iodo com asas de anjo e escultor mudo querer sair por aí a voar, não vá a inocência nunca mais querer voltar.
Ao inferno impede a demora um olhar húmido e mudo de iodo, uma derradeira concha pousada no coração de um anjo sem asas e a veleidade de um gesto que se trava –
para que o pássaro não se sinta completo e voe na direção do infinito.
“Quem tomaria conta de nós se a inocência partisse? Aquela pena há-de faltar sempre ali. A concha? Guardo-a no meu peito.”

Conceição Sousa

2* Pinceladas de divino

2*
Pinceladas de divino
– Ó filha, assim assustas-me! – aterra-me o meu pai, um agnóstico ateu com um altar de santos no canto mais canto do quarto, com velas acesas e tudo, a ver-se-me-sai-o-euro-milhões-só-por-isso-e-ainda-os-deito-todos-abaixo-porque-tá-visto-que-assim-é-que-não-sai…
Eu reparo que ele não repara no meu sorriso de esquina, malandro e a consentir, talvez porque se catapulte dos miolos à velocidade da alma (dizem que bosões de vezes superior à da luz, fracções de fracções de fracções milimétricas de segundos), e se perca de massa ali um nadinha antes do nervo do lábio: fica-se pelo trejeito mordido.
– Olha pela janela, mas olha com atenção, não vês? As lombadas da montanha verde musgo, como que braços a aconchegar-nos; o azul aguarela de ante crepúsculo, a ser pincelado com o azul arroxeado daquele algodão ali, e está bem-humorado porque tingiu para a esquerda e naquelas nuvens logo a seguir gargalhou um violácea para a direita. Não vês? Como é possível, no mesmo instante e num tão exíguo espaço, o vento deslocar-se em direções opostas? Não vês que é Ele a brincar, a esborratar-nos de divino? – clamei, com o sorriso esquivo, gasto de matéria, estancado na ponta da língua.
O meu pai petrifica, incrédulo, estátua, de mão ao alto, boca entreaberta, sem um pestanejar, e quase só a ver-se o branco do olho. Pressinto que sente o que verbalizo, mas resiste, não quer crer. Zangou-se com o divino lá muito atrás na transição de peles e resumiu a sua existência a quando-me-sair-o-euromilhões-eu-creio. Num esforço vão, tento explicar-lhe que Deus não é assim e que é por isso que nunca vai sair-lhe o euromilhões, dinheiro, estamos a falar de dinheiro. Continuo, quase sem fôlego, como que a dizer-lhe “olha para mim, caramba!, não sou eu prova suficiente de que Deus está contigo, homem?”
– Ai, filha, para. Ainda me causas um ataque cardíaco. Falas com tanta certeza que me assustas. Não fales assim lá fora, olha que o mundo é cruel e as pessoas vão apreciar-te como se aprecia uma coisa rara, invulgar. Vais sentir-te numa jaula, uma aberração de circo, a ser apontada , ‘tadinha da doida!, o mundo é assim, não compreende quem é diferente. Mas por que raios havias tu de ver essas coisas do divino em tudo o que é natureza, ó meu Deus?
E o sorriso lá se projecta, de novo, em catadupas de terminações nervosas bem cimentadas de magnésio, mas perde-se em fulgor ali pelas quebras de músculos faciais, e a partícula partícula, aquela de Higgs, não se consubstancia a tempo de elevar um cantinho tonificado de lábio. Contudo está lá, o sorriso, bem amplo, bem entregue, sem que o receptor o perceba. Uma alma sorri a outra alma e o corpo não chega para que ambas se vejam, para que ambas comuniquem, mas o sorriso existe. Se o sorriso existe e não é visto, pensa, por que não há-de Deus existir, sorrir, e não ser visto. Talvez o sorriso de Deus se fique, ali, pelo entremeado boreal das nuvens, naquela monção de pinceladas caóticas, e não consiga consubstanciar-se em bosão, matéria.
– Pai, só mais uma, por favor, vê bem, estica o olhar, aquelas outras nuvens alongadas ali, um kebab nupcial, várias camadas de branco reluzente… donde virá tanta luz já que o sol se foi? Sabes o que pode ser? Talvez um ovni, extraterrestres numa nave silenciosa híper-evoluida, a perscrutar-nos; ou o divino, quase a conseguir mostrar o caminho para o abraço infinito… o tanto que sei que está e não se vê.
Temo que lhe tenha tolhido as ideias, ou talvez não; se calhar sente-se agora mais acompanhado, mais pacificado. São tantos os apelos simples da natureza a todos os nossos sentidos: a brisa entrecortada de fim de tarde, aragem a eucalipto; os pirilampos num lusco-fusco; as vozes de outros seres, dos grilos, dos cães, um som de fundo quase que silêncio mas ruidoso ( o silêncio ante crepúsculo, fala demais, não se cala); as cócegas da ramagem que sopra a neve das alergias, só para nos tocar, nos provocar, e causar uma resposta:
–Aaaaaaaatchim!
Não sei o que falei, mas tu entendeste que sim, que te respondi e que te toquei. P’ra que precisas de saber mais? Se nos tocamos, se interagimos, seja lá de que maneira for, é porque existimos, é porque comunicamos, e se comunicamos é porque nos estamos a amar, mesmo que disso nada saibamos.
Beijo-te ( e não sei).

Conceição Sousa

1* O Abraço dos Cadáveres




1*
O Abraço dos Cadáveres
Hoje, mais uma vez, sem contar, num sítio público, chorei. Confortavelmente instalada à mesa de um café, com ar condicionado, a meio do meu banquete, um pedaço de cacete torrado com manteiga e um galão a escaldar, rotina de fim-de-semana, folheio as páginas de um jornal diário e eis que me deparo com a foto de um casal (choque, arrepio pela espinal medula), já cadáver, abraçado, debaixo de água (íris a afogarem-se junto), cabeça baixa, tremor, descontrole, revolta, ternura, ternura, ternura, impotência. Como pode alguém aceitar que milhares… que um só, que um só, morra em busca da vida? Como pode alguém, um só, um só, testemunhar um abraço p’ra lá da morte, um abraço prova de que nos somos um, um do mesmo, mais do mesmo, só o mesmo, e p’ra lá do que se não vê, e continuar indiferente ao naufrágio da existência? Eu não consigo, não consigo. Lampedusa deveria envergonhar-nos a todos. Não há-de faltar muito para que as águas do Mediterrâneo se tornem sangue: já o são, um sangue erguido a altar. Flores, muitas coroas de flores, vénias, muitas vénias, perdão, perdão, perdão, perdão, meus irmãos e minhas irmãs, perdão…
Há um holocausto a acontecer entre placas tectónicas, e o Homem decidiu que eram duas, e baptizou uma de Europa e a outra de África, e embora o Homem perceba que encaixam na perfeição porque já foram uma, Pangeia, impede, aniquila, assassina a vida daqueles que buscam a origem, que transitam, super-heróis e super-heroínas, com as suas famílias, na fuga desesperada da morte, e que encontram não mais do que a morte, na sua busca infindável pela vida. E o abraço desmistifica. O abraço consente a existência de uma verdade maior: o que importa é o caminho; o que importa é a pacificação da alma, a plena certeza de que tudo, mesmo tudo ao nosso alcance, foi tentado; o que importa é este calor, esta partilha derradeira aos olhos daqui, com que nos ofertamos à vida. O abraço que não desenlaça, o abraço que segura, o abraço que protege, o abraço que compreende, o abraço que confia, o abraço que não dói, o abraço que crê, o abraço que sorri essa verdade tão exasperante de tão simples: amo-nos; quero-nos; somo-nos.
O abraço dos cadáveres tão próximo do Papa. O abraço dos cadáveres, a voz de Deus, a linguagem de Deus, a prova de que é o Amor a transição, a prova de que a vida não termina nos corpos, a prova de que há muito mais p’ra lá do que se não toca, p’ra lá da matéria, p’ra lá do que se não ouve, do que se não cheira, do que se não vê; a mensagem tão óbvia, tão forte, tão evidente… o abraço dos cadáveres ali tão próximo da fé. É o abraço dos cadáveres a fé. Algo tão simples: sem catedrais, sem cerimónias, sem focos. E a prova da existência de vida para além da morte está ali, nas profundezas de Lampedusa, naquele abraço, naquele instante de transição em cujos corpos perduraram para lá do último sopro, a força sobrenatural, a partilha: o Amor.
E continuam a contar tostões, a descontar tostões, formiguinhas e cigarras em desvario a calcular dividendos, a massacrar lucros, a lambuzar off-shores. E Lampedusa ali, tão evidente, tão linda, na ternura daquele abraço. Quantos destes estrategas da estatística assassina, algures no tempo, irão sentir inveja deste abraço tão abraço?
Não sei quem são, os que se abraçam nas profundezas de Lampedusa, ali com a bota a pontapear-lhes o destino, Itália, carrasco ao serviço da Europa (Como conseguem? Não se imaginam lá? Naquele abraço das profundezas?). Gostaria de lhes conhecer o nome, não só o casal, mas todos os outros que buscam pela vida e sucumbem para esta vida naquele altar mediterrânico. Gostaria de saber o nome de cada um deles, dos meus heróis e das minhas heroínas, para lhes elevar velas e incenso, para lhes entregar orações e dedicar a minha gratidão eterna. É graças a pessoas que continuo viva (os outros, os decisores, não são pessoas) e que cada vez mais fortaleço a visão de que o melhor está para acontecer: e é p’ra lá do corpo, no embalo daquele abraço. Ninguém se pergunta por que se atiram os homens e as mulheres ao abismo em busca de consumarem o que, por nascimento, o é, a vida? Por que os fazem nascer e depois lhes ditam que têm de estar mortos? Por que será que o sinto, àquele abraço?
Deus não nos pede sacrifícios, Deus desfragmenta-se-nos escolhas e pede-nos bondade, ímpeto de retorno ao uno. E nós buscamos, mesmo que não nos peça, nós lançamo-nos nessa vontade inabalável de nos consumarmos Vida. E a morte deixa de o ser, recebemo-la com um abraço: será porque é a Vida que estamos a abraçar? E é isso: a bondade da partilha, a felicidade genuína na bondade da partilha, a entrega incondicional, este calor húmido de dádiva a que chamamos: Amor.
Deus, a Origem, o Ciclo, o Percurso Infindável, o Caos dos Fragmentos a gravitarem na realocação uns dos outros, a Verdade no Abraço dos Cadáveres: a Vida a receber-nos de braços abertos, por fim.
Só o Amor nos salva do não retorno. Só o Amor nos abre os braços. Só a Vida nos faz querer abraçar no limiar da morte.
Obrigada por estares aqui.
Conceição Sousa