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terça-feira, 10 de junho de 2014

Acordo


Acordo sempre bem para o dia. As cores da manhã celebram-me partilha de um ser maior, natureza dentro e em redor, todo não parte. Oro ao âmago de mim, de nós, envolvência do instante puro, só pelo instante infinito: este pincel de aurora, este aroma a chilrear, esta brisa amena e um ímpeto de eriçar. Partilha. E o amor que amo nos olhos que me são calor de ventre, e o amor que amo nos braços dos homens que me protegem de mim, e a família de que não abdico e que me leva ao colo no embalo do que lhes sou. E a fé que me encontrou e me sossega as dores na certeza de que também a morte é partilha: o nascimento de um novo ciclo neste infinito que faz questão de me mostrar :
não há um que na vida ou na passagem a uma outra vida esteja só.
A dor é para que reconheças o amor. Nem uma nem outro se explicam, mas existem, transformam.
Por que não confias no tanto que não vês, em nós?
Amo-nos. Ama-nos.
Há. É. Sente.

domingo, 1 de junho de 2014

13* Adivinha o que me excita?


13* Adivinha o que me excita?

O que me encanta em ti é essa forma tão linda de ser, o sentimento que contamina tudo o que tocas, e até o que não tocas. Não é relevante a direção desse teu sentir, o que me cativa é como sentes quando sentes e sempre que sentes. Vejo que suas essa entrega inabalável; testemunho as rugas que carregas, cada vez mais fundas e agras, sem, no entanto, te queixares de um ínfimo cansaço – e só um cego não vê como te cansas.

Suo contigo, sabes?

Mas não me canso como tu te cansas… É tão cómodo estar deitada nesta cama a carpir a existência, a rebelar-me de ter nascido sem tampouco mover um polegar para garantir-me pessoa, quanto mais  abrir os braços para te abraçar pessoa?

És tão lindo, sabias? Ainda mais quando percebes o meu ócio ( Ó!, Cio!) e vens mesmo levantar os lençóis e meter-te na cama comigo. Não merecia que o fizesses, entendes? Tão desdobrado em acarinhar tudo e todos, em amparar meio mundo, e nunca te esqueces de vir buscar este calor, aqui, nesta cama gelada, sujeito a saíres empedernido e fatigado de sobremaneira. E sais mesmo, de todas as nossas urgentes vezes, empedernido e fatigado. E mais lindo ainda. Um gelo que se liquefaz pele sorvida. Um brilho no sorriso com que te apresentas – e que continua a celebrar o instante em que nos vimos. Não desenlaças esses cálices ao alto e um tilintar que sempre ecoa.

“Danças-me um século, diva?”, perguntas.

“ Danço-te um milénio, e talvez um pouco mais, génio”, respondo.

( Já te disse que sou viciada na tua resiliência? Já te segredei que é isso que me excita? A tua resiliência?)  

O meu ouvido pregado na tua lapela, a tactear nos pés o ritmo de te saber vivo, um coração maroto, esse teu, que me faz pisar-te porque pára por breves segundos e acelera como se quisesse fugir uma eternidade. E eu confesso-te:

 “ Assim não sei dançar, tudo o que faço é tropeçar em ti, traste!”

“ Não faz mal, pisa à vontade, sardinhas – o que carinhosamente me chamas, tenho muitas na cara, e que culpa me assiste? –, o meu queixo agradece essa dentada de coelhinha”, gracejas. A tua arte é gracejar, sabias. E és uma graça, a minha graça.

 “ Sardinhas ou coelhinha, qual preferes? Peixe ou carne?”, provoco, a isca, sei que gostas de um deslize ordinário.

“ Eu quero é comer, tanto me faz, tenho uma fome de ti!”, mordes, o teu segundo de brejeirice, e eu adoro quando és brejeiro. Um gelo que se liquefaz pele sorvida. Um brilho no sorriso com que te apresentas – e que continua a celebrar o instante em que nos vimos. Braços enlaçados e cálices bem lá no alto. Não há nada que quebre um celebrar assim.

“ Danças-me um milénio, então, velhinha?”, fazes beicinho, ai, como me enlouqueces quando fazes beicinho…

“Danço-te o que tu quiseres e aguentares. Mas tens de me levantar bem lá no alto, quero sentir-nos tocar no voo dos pássaros, consegues?”

E tu aceitas o desafio. Mordes o sorriso. E elevas-me só para nós.

Não te contei, mas fiz-me melhor que eu mesma, supra superei-me, só para que pudesses ficar mais um milénio encantado comigo, só p’ra que pudesses continuar a sentir-te seduzido, só p’ra que saibas que não há melhor do que eu. E, quando te sentir fugir de novo, aguarda-me, uma outra te surpreenderá, ainda melhor do que esta, duvidas?

“ Danças-me um milénio, então, velhinha?”, suplicas.

 Que rede é esta que te apanhou e da qual não queres sair? Vais ter mesmo de dançar um milénio e um pouco mais comigo. Essa tua resiliência endoidece-me. E tu vens sempre buscar, aqui, a este ócio debaixo dos lençóis, suado, pisado, tropeçado, morto, vens buscar a tua vida.

E eu dou-ta, meu amor, desde que me leves sempre nesse cálice de celebração, nesse brilho de sorriso campeão  com que te apresentas – e que continua a enlaçar o instante em que nos vimos.

“Danço-te um milénio, e talvez um pouco mais… Não, não leves ainda os teus lábios, preciso de senti-los um pouco mais.”

( Já te disse que sou viciada na tua resiliência? Já te segredei que é isso que me excita? A tua resiliência?)  

 

Conceição Sousa

sábado, 31 de maio de 2014

12* Insignificância


12* Insignificância

 

                Há objectos que existem para me lembrar da minha insignificância – é uma frase arrogante de tão egocêntrica e despudorada, mas é assim mesmo, o objecto só existe em função de mim, para que eu saiba o quão insignificante sou ( sou mesmo importante não?). Há objectos que faço questão de ter bem perto ( tipo terapia de choque, mordiscadela de acorda!, aferroada de “toma lá que é para não te atirares aos cães!”) só para que nunca me esqueça da minha soberba insignificância: sei.

                O que não te perdoo, e não te perdoo mesmo, é que, caso não seja assim, tão insignificante como queres que eu sinta que sou, caso seja exactamente o extremo oposto, sofras dessa maneira tão parva, tão jumenta, tão linear de quem não percebe nada do que anda cá a fazer, ó pessoa ida!

                Ora diz-me lá se há alguma lógica no que se segue:

·         Amas-me tão enervantemente que quando te enervas dizes que me odeias. ( Em que é que ficamos?)

·         Amas-me tão obsessivamente que quando me queres ( e tudo o que tu queres é só querer-me) fazes este mundo e o outro para que não te queira.

·         Amas-me tão intrinsecamente que no exterior tudo o que jogas é às escondidas: passas a vida a olhar-me, mas não convém que te veja, não vá eu bater no muro “ um, dois, três, vi-te!” e ser a minha vez de esconder. ( Tens medo de nunca mais me encontrar, é? Se não me encontro, não te encontro, certo?)

·         Amas-me tão levianamente que quando me “f****” é sempre a valer ( ai, e como vale!), é pena que te calhe  o reverso da palavra, o mais ingrato, o que me faz carpir o caminho do que se tem asco e perguntar “ Por que me queres tão mal? Por ti mesmo sei que nunca quererias, seria o exactamente oposto: o bem-bom da palavra, ora “f******”! ( fica-te! – que pensavas? –, fica-te e desiste desse pau, mau jeito de amar.)

·         Amas-me tão ingenuamente que na inocência de te ser doce perdes-te na confecção de uma geleia melosa e peganhenta, e o mais que resulta  é um lambuzar guloso que em nada cola o genuíno amor que pensas que me tens.

 

Sossega, tu, que nem estás a ler isto… ora não sou eu insignificante? Como dizia lá acima, há objectos ( e pessoas) que só trago comigo para que me lembrem do quão insignificante estou neste pedaço de carne, que me embala num berço a que chamam de tempo. E, garanto-te, o mais que me importa é o tom do abalo, sussurro doce e lento, a inclinar as pálpebras na direção do escuro, janela fechada para o mundo e aberta para os braços do que nos dá colo…

Quando se é insignificante assim, há toda uma significância da vida que nos irrompe pela alma adentro. Temos mesmo de fechar os olhos, induzir o sono, porque a vida, de tão bela e extraordinária , cega-nos a vista. E a senti-la é por um fiozinho de olhar, a experimentar meias-luas, porque é na neblina que a verdade acontece, é no fosco que a realidade se consuma,  é no mate, apanhado de duas malhas, sem brilho, que o lance irrompe e  se desvenda: sorriso e gratidão.

De ti só quero mesmo é que me lembres que sou insignificante.

Há objectos bem duros que não podem, de modo algum, despencar da nossa mão.

Catástrofe!

Conceição Sousa

11*

11*

“ Sou a toalha onde descansas os teus sonhos”,
o indicador a atravessar a fala,
“Envolve-me”,
os lábios à procura do lugar onde o orvalho consinta um breve fôlego. 
“ É o teu rosto nos sulcos deste pano”,
a encosta que escorre, devagar, em tom de procissão,
“ é o teu rosto que pregam e não sabem que só eu o trajo”,
linguajar na subida para onde as águas vertem,
“ linda mulher, que nunca quis ser minha e é tão dela”,
a neblina a avisar que o calor se aproxima e que é hora dos poros encharcarem,
“linda mulher, que nunca quis ser minha e é tão dela”
o grito cavernoso.
“ Faz de mim as rugas que te beijam o pé descalço”,
“ Faz de mim o arrepio que te devolve os olhos.”
E ela não faz.
E ele continua a trajá-la.
E os ombros querem que não se façam e que não se queiram.
Os ombros só querem que os deixem ser ombros. E que lhes permitam querer.
Vens?
Vou?

Conceição Sousa

quarta-feira, 28 de maio de 2014

10* Já não dói



10* Já não dói.

 

                Sei querer – e sei que, quando quero, quero muito. E quem não quer?

                Mas também sei sentir. Faço por isso: por saber sentir. E sei que me dói sem que te doa a ti. E sei que a mágoa é minha – tão só minha. E sei que é tolice exigir a alguém um sentimento que é só meu. Por que haveria esse alguém de sentir o meu sentimento, pensa?

                O desacerto das pessoas é quererem obrigar as outras pessoas a sentir o que tão somente é sentimento delas: unipessoal. É bonito? Parabéns! Usufrui, agarra-te com unhas e dentes a esse sentimento, pois só o que sentes e é teu é válido, genuíno –

mas não o imponhas ao outro,

mesmo que o objecto desse teu olhar tão límpido, tão brilhante, principalmente se o impulso desse teu estado de devaneio feliz.

Não o imponhas.

Ao trespassares o teu horizonte de encanto, invades a neblina de um outro mundo que não o teu, repara: invades,

e observas-te, no lado de lá, deserção de ti mesmo, no lado de cá, fenda irreparável, quebra de identidade, coisa feia e violenta.

E p’ra quê? P’ra que te apedrejem de volta? E com razão. Quem te deu licença de pisar em território ocupado? Ou para que vires o sangue do avesso e ele se verta inexistência condenável?

Há um sentir nublado, p’ra lá do enlevo da montanha, que não o teu. Despede-te. E despe-te da arrogância. Nada te é posse. Muito menos aquilo que ao outro pertence: o seu sentimento.

Sopra-lhe um beijo quando o vires, ao teu arrogar-se; testemunha-lhe o teu sorriso, aquele que ficou lá atrás, junto a uma espada empunhada contra o céu, o vosso troféu, e aguarda um reflexo – luminosidade, talvez…

Às vezes, acontece, um reflexo, um espelho de água, umas nano-vagas que ondulam a brisa do teu leve aceno. Vi-te, tocaste-me, levei-te no meu ombro para sermos felizes. Um segundo em que dois sorrisos se olharam e algo de extraordinário aconteceu: o teu sentimento confessou-se o meu.

Um segundo de invasão basta-me.

Um segundo de invasão de que não tenho remorsos. O que é um segundo de invasão quando comparado com quase um século corpóreo e mais de um milénio de vida? Comungada com milhões de tantas outras vidas; algumas ainda nem sabem que estão para nascer e para morrer. Digo-te já: mais de um milénio e outro tanto. E olha que tenho um dom.

As nuvens trazem cinzas carregadas de rebordos prateados e falam-me, a todo o instante, desses teus milénios. Um bem tão grande às pessoas, à humanidade. As nuvens sabem. Agora, também tu ficaste a saber.

Um anjo com asas de zinco segredou-me o teu caminho e sossegou-me. Pediu-me desculpa, sabes? Disse que não conseguia falar-te e precisou de me atirar nos teus braços para que pudesses tropeçar naquela imagem,

a que só a ti estava destinada.

Diz-me, agora mesmo, que está orgulhoso de ti. Que soubeste receber a ternura dos beijos que sopram os ares da humildade do instante, e que o tempo em ti deixou de contar: só o que tocares será sorriso e destino. Mas isso tu sabes.

Não me tocas. Não serei sorriso. Não serei destino.

Não fiques triste. Sei me alegrar, sem invadir mais do que um segundo.

O anjo com asas de zinco pede-me desculpa, conhece a minha dor. Diz que lhe falaram de mim como mensageira, e que nem foi descuido nem nada, precisamente por anteciparem o meu coração de chumbo. Tinham plena certeza de que o abriria, só mais uma vez, especialmente para ti (está explicada a minha surpresa!); que te deixaria entrar, te comunicaria o calor dos astros, e te expulsaria com eles.

Doeria o retorno ao claustro, avisaram. Não encontraram, contudo, mais ninguém que pudesse tocar-te e sobreviver de novo ao glaciar, com um segundo apenas de invasão.

Perdoei-lhes, sabes. A todos eles, os que congeminaram. A ti não há o que perdoar. Não foste tu que me atiraste nos teus braços, nem foste tu que me devolveste à clausura. E eles têm razão. Já não dói.

Há alinhamentos de curvas no céu, melancolias de berço, extremidades que atentam um colo que se pede.

Moro num vale assombrado de um musgo mistério e benzido por uma cordilheira de  auroras platinas. Nem sei quem toca em quem. Só sei que os sinto tocarem-se e tocarem-me. Vivo quotidianamente, enquanto vejo o mundo a passar, no extraordinário. São as nuvens que me calam as calamidades e me ditam que te abrace. E eu só quero dizer-te que este abraço é até que eu deixe de ser, como as nuvens.

Tenho sorte de morar no coração de Deus, e de o saber.

Conceição Sousa

 


9* Só porque tu

9*
Só porque tu
Acredito nesta vontade que passa de mim para ti e de ti para mim.
Acredito no silêncio quando a porta se tranca no limite da fúria indomável.
Acredito nas lágrimas que tecem o rebordo do que se quer enlaçar mas não encontra o ponto de amarra, apenas de elos que se encandeiam na direção da cabeceira extenuada.
Acredito na voz do que nos roga um caminho e nos dita reinícios atrás de reinícios, em cada ranger de madeira, em cada sussurro de “diz-me… diz-me…”, dedos a comprimir bocas extasiadas, incansavelmente a saliva “diz-me…”
Acredito nos teus braços quando me soltas o cabelo e seguras os olhos, à luz de velas, guardião do nosso templo, ao sabor do incenso indiscreto.
A vergonha fugiu quando lhe dissemos que há luzes a dar horas em despertadores que não se apagam. De duas em duas tacadas quiseram acordar-nos, ingénuos… Como se acorda a insónia dos amantes?
E foi às apalpadelas que os lençóis granulados nos embrulharam. A ternura é doce, sabias? Tivemos de sacudi-la. Há instantes que exigem ferocidade. E nós somos arrebunhar lento de roupas dispersas e rasgos calejados. Resgatámo-la em pleno voo e trouxemo-la para a nossa almofada, não sem antes lhe ensinarmos o depenicar dos pombos, desde o sacro até ao nunca, via lacrimal no despudor das nossas costas.

Acredito nos teus braços quando me soltas o cabelo, sabias?
E me seguras os olhos.
Há um beijo que me dedicas de cada vez que te cubro de nós, só porque tu, só porque tu…
E pergunto mil suspiros em que esplanada desertaste o orgulho.
“Leva já longas férias, velhinha…”, respondes de língua comprometida, a torcer o rubro de um mundial que ninguém esquece, embora todos ignorem. Abraças-me. E adormeces na minha nuca o sono dos felizes.
Respeito o nosso sorriso.
Acredito que todas as mágoas trabalham no indizível e servem o amor que cresce no silêncio das barbas grisalhas. Acredito que o que não se explica é a resiliência, nascente de um imparável rio.

Conceição Sousa

segunda-feira, 26 de maio de 2014

8* Um alien


8*

Um alien

Um kg de rojões com carne, com osso e com courata. Um kg de ameijoa. Duas gelatinas: uma de morango e uma de ananás. Uma mousse de chocolate. Duas doses de sorriso e cinco fatias de abraço. Prontinha p’ra chegar a casa, pôr o homem a cozinhar e espalhar doçura no rosto cintilante dos filhos. Todas as famílias felizes são um pouquinho gorduchinhas, só um pouquinho. Quem resiste a um mimo de chocolate? Só para procurar estrelas cintilantes em dentições convertidas à religião do hmmm! O Ioga perfeito.

“Ó mamã, és do outro mundo!”

Não soubera eu, acabava agorinha mesmo de ser informada. Como é possível que os nossos filhos, de todos, acertem o alvo no ponto exacto do conhecimento de nós mesmos? E começam lá longe, no reflexo de sucção.

“Só mais dois euros, vá… Ó mamã, és mesmo do outro mundo!”

“Como sabes? Vieste de lá, foi, patanisca?”

Gargalhada ao cubo quanto dá? Depende do ponto de partida. A primeira açoitadela de cabeça  vale por quantos? Nós três. Nós? Três nós?

“Tu é que dizes que te damos um nó na cabeça. Uma gargalhada deve valer por três. Se te damos um quando te zangas.”

 Não seremos cinco? Ok, consinto. Seja três perdigotos por cada açoitadela de gargalhada nos óculos que não usas, pá ( ou será que usas? Já não me lembro…)! Quanto dá então gargalhada ao cubo? Se for mágico dá… deixa lá ver… pelo menos nove faces coloridas, doze não será? – e um texto esquizofrénico.

 Gelatina! Gelatina! Gelado, queres tu dizer.

“Trouxeste, mamã, gelado?”

“Sou do outro mundo, mas não me perco, filhote: 27: 3x3=9x3=27 27: 3x3=9x3=27

Íamos no reflexo de sucção que vem de lá longe, da teta, e de tudo o resto, porque a sofreguidão conecta-se com tudo o que seja tocável, dê alimento ou não. Há ainda outro reflexo ante-comunicativo, a mãozinha que ergue para se proteger da dor, da fralda que cobre o rosto enquanto suga o leite (“ Deixa-me respirar, caraças! Está tudo às escuras!”), da fralda pronta a secar a saliva teimosa no canto da boca. E não gostas, eu sei que não gostas, pá, mas tem de ser. Tem de ser. Eu sei mais do que tu: precisas de te alimentar e de estar limpinho, senão gretas aí esse cantinho de lábio maroto. A mão que ergues para afastar o pano, para te proteger da dor, não protege de nada, só estorva. É a minha mão teimosa, com esse pano seguro, que te vai impedir de ferir – e de doer.

Choras? Competência básica. Comunicas. Um bebé sem sílabas chora para comunicar e ri para comunicar. Precisaremos nós de saber muito mais? Dói, não falas, choras. Eu ouço, e socorro-te. Ou não… Tens fome, não falas, choras. Eu ouço, e socorro-te. Ou não… Sentes-te só, no quarto ao lado, não falas, choras. Eu ouço, e socorro-te, mas dizem que não devo ir logo a correr para não te habituar mal, senão vais chorar toda a vida, eu vou desesperar de tanto ecoares o teu grito no meu ouvido e vamos acabar por não nos suportar um ao outro.

Ris em busca da tranquilidade. Ris nas primeiras horas de vida. “Está a sonhar, ‘tadinho.” Já vens do ventre a rir, que mistério é este, caramba? Imitas os sons, os gestos, o toque, os passos,  as palavras… Imitas o que vês, o que ouves, o que intuis. Imitas e aprendes. Imitas e  transformas-te – às vezes em miau!miau!, em au!au!, em mémé!...

É só ir lá atrás, à linguagem dos bebés, para percebermos a filosofia da vida. Toda a santa vida é este inferno celestial ou este céu infernal nos relacionamentos. Choras porque tens de chorar: é acto reflexo de origem. Sobrevivência.  Ris porque tens de rir: é acto reflexo de origem. Sobrevivência. Imitas porque tens de imitar: é acto reflexo de origem. Sobrevivência.  Sugas porque tens de sugar: é acto reflexo de origem. Sobrevivência.

Qual é a dúvida?

Já sei. Sou do outro mundo. E vim de lá a rir.

Conceição Sousa