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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Em Busca da Flor de Mil Cores


- Impressionante como o Céu existe mesmo, mano!

         - E porque não haveria de existir, Ju?

         - Não é isso. Há quem diga que não existe, mas é só olhar de baixo para cima. Olha ele, lá. E, aqui, se apontares, ele aproxima-se, e toca-te mesmo. Ora experimenta. Aponta o dedo para o Céu e fixa aí o olhar. Não tens a sensação de que o estás a tocar? Maravilhoso! É tão quentinho. E é tão simples. É só olhares de baixo para cima.

         - Claro! – respondeu o Mago – No vosso mundo poucos o tocam porque têm a mania de olhar de cima para baixo, sempre de cima para baixo. E é tão óbvio. Se insistires em olhar de cima para baixo, a única coisa que vês, que consegues tocar, e que te toca, é o chão. Se tens o Céu por detrás da cabeça, e não a levantas para olhar para lá, como é que queres que o Céu exista?

         - Certo, Agosto. – anuiu o rapaz – Quem se acha superior, olha sempre de cima para baixo; quem se sente diminuído, olha sempre de cima para baixo. Há mais de meio mundo que não se lembra, não quer, ou não sabe olhar de baixo para cima. E é tão simples: ser humilde e saber levantar a cabeça. Olha o Céu, lá. Tão lindo! Existe mesmo.
(Conceição Sousa in " Em Busca da Flor de Mil Cores", conto infanto-juvenil)

Geme-o

Acredita, algures na tua vida vai te ser difícil digerires esta recusa ( se é que já não está a ser). Mas o meu amor por ti é tão grande - e fixa bem isto - que te digo: o tédio não é o pior, o pior é saberes que ao escolheres não tens remédio: tédio. Isto assim é poucochinho. Melhor que nada, sim; mas poucochinho. E a dependência emocional ao nada, inevitavelmente acaba em nada: nada dura para sempre: tédio em estado antecipado: o vazio. Será possível um amor pleno, um amor cósmico, um amor cúmplice no vazio?
Sim: à posteriori.
Não: se é à posteriori não traz proveito aos agentes.
Não é amor. É passatempo. É vazio. É amor?
Eu penso-o.
A outra geme-o.
Tu pensas-me.
A outra geme-o.
Ela não o tem.
Eu sou-o.
Mas ela geme-o.
Se não precisas da minha carne,
se não escutas o meu gemido
( o de verdade),
não é amor.
Mas ela geme-o,
em ti,
o que te sou.

(Conceição Sousa)

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Multibanco

Dirigia-se ao multibanco, precisava de levantar algum dinheiro para as compras do dia. A filha já havia entrado na loja, há uma semana que falava em comprar aquela brincadeira a um euro. "Sou muito mázinha", pensou, "Já a podia ter trazido mais cedo." Uma senhora de meia-idade, os seus 65 anos, aguardava com a cara prostrada naquela mensagem a laranja no visor do multibanco: "Movimento não autorizado. O montante máximo da sua conta foi ultrapassado." A voz feminina entoou: " Retire o seu cartão". "A pensar nos surdos, só pode", palavras que escreveu na sua cabeça, e encolheu os ombros. A alma ficou uns segundos a contemplar o rosto de quem estava imediatamente ao alcance, os olhos pediam muito, mas a boca não. A senhora, meia perdida, entrou na loja. " Vá, dá-me lá o meu dinheiro, caramba!", discutiu mentalmente com a estúpida da máquina. Correu na direcção do padeiro: "Não me destroca esta nota de 10 em duas de 5, por favor?", sempre a vigiar o caminho que a dona daquelas mãos calejadas percorria, estava em frente aos ovos.
- Ó filha, vamos jogar ao esconde. Vai por ali, a ver se te encontro.
Dirigiu-se rapidamente à senhora, tinha uns 30 segundos no máximo.
- Desculpe, não me leve a mal o que vou fazer, mas penso que isto lhe fará jeito.
E colocou-lhe a nota na mão.
-Oh!, muito obrigada! - a senhora não queria largar a mão. - Posso dar-lhe um abraço?
"Vendi os meus 5 euros por um Abraço.", pensou.
-Ó mamã, eu vi e ouvi. És mesmo uma boa pessoa.

(Conceição Sousa)

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Não te amo, confesso.


Eu tinha frio, amor. Entrei na cama, gelada. E tu estavas lá. Fervias. Devagarinho, coloquei as costas do meu pé no teu pé.Devagarinho, para que não sentisses o choque térmico, mas tu logo me embrulhaste entre o calor dos teus braços e das tuas pernas. Escaldavas - e eu tão gelada. Doeu-me a tortura a que te submetias, pois sei que o contrário não aconteceria. Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria. Estava gelada, pois; e tu ofereceste-me, naquele instante, a melhor parte de ti, enquanto a trocava pela pior parte de mim. Não te importaste, e até o quiseste, desde que me sintas gelada e, lentamente, a deixar de tremer, respiras o meu precisar-te - disseste - e isso sabe-te a viver. Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria. É tanta a dádiva que me concedes, sem que eu o retribua, que, agora, assim à distância de uns anos, te digo: Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria. És um carinho ameno que foi, devagar, entrando e, sem que me apercebesse, lentamente me ocupando. Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria.
As minhas entranhas não suportariam ver sofrer quem depositou nelas o meu ser.
Não te amo, confesso, tal como não amo a minha pele, os meus ossos, o meu sangue, o meu respirar, porque nem sempre os vejo, nem sempre me lembro deles, nem sempre os penso, mas a verdade é que sem eles seria impossível estar.
O que quero dizer-te é: vivo e sou quem sou porque o amor maior está no que está sempre e por estar sempre olvida-se.
És da minha natureza, amor.

(Conceição Sousa)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

É. Amor.

Em todos os sítios por onde passámos
ainda estamos,
vejo-nos lá,
com outros gestos,
com outras cores,
com outras palavras
e outros silêncios
e outros odores.
Olha-os, lá.
Amam-se.
Amam-se
como senão houvera amanhã -
e não há.
Olha-os, lá.
Beijam-se.
Beijam-se
como se a saliva secasse -
e seca.
Olha-os, lá.
Abraçam-se.
Abraçam-se
como se os braços caíssem -
e caem.
Olha-os, lá.
Caminham de mão dada,
como se as mãos murchassem -
e murcham;
como se o trilho ficasse por fazer -
e fica.
Olha-os, lá.
Encostam o rosto
como se a pele escolhesse -
e escolhe.
Olha-os, lá.
Aprendem a cor dos olhos
um do outro,
um sem o outro,
como se a vida cobrasse -
e cobra.
Olha-os, lá.
Sorriem os dias intermináveis
como se os dentes apodrecessem -
e apodrecem.
Olha-os, lá.
Confiam-se palavras e silêncios,
esgares, amuos, deslumbramento,
como se só a cumplicidade os compreendesse -
e compreende;
como se só o que são fora eterno -
e é.
Olha-os, lá.
Em todos os sítios por onde passámos
ainda estamos,
não vês, meu amor.
Só falta, cumpri-los:
aos sítios, ao tempo,
a eles
e a nós.
Fazes-me muita falta.
É. Amor.
E mais qualquer coisa que não sei definir.

(Conceição Sousa)   *

Existo?

Há um homem aí fora que me diz
que não existo,
vejam só!
Há um homem aí fora que receia tocar-me
porque diz saber
que não existo -
mordam-me!
Há um homem aí fora que teme o meu abraço porque,
que nem um menino,
chora se eu não existir.
(Ainda agora chora por recear tocar-me -
em que ficamos?)
Há um homem aí fora que prefere
não me beijar
porque sabe que, nesse momento,
deixará de existir
aí fora
para existir
cá dentro.
Mordo-te?

(Conceição Sousa)   *

domingo, 18 de novembro de 2012

uma forma

Arranja-se sempre uma forma,
só tens de nos dar um pouco mais de tempo,
porque arranja-se sempre uma forma.
Deixa- os p'ra lá,
aos abusadores, aos plagiadores, aos gatunos,
aos desencontrados disto que é a vida.
Deixa-os p'ra lá.
Barra-lhes a entrada no teu pensamento.
Olha p'ra nós,
pensa em nós,
dedica-te a nós:
ao nosso sorrir,
ao nosso abraçar,
ao nosso confiar,
ao nosso beijo,
ao nosso afago,...
ao nosso compromisso de sangue
( mesmo não o sendo ),
ao nosso doce estar atento,
ao nosso amor.
Enquanto tivermos pernas para andar,
pele para colar,
suor para escorrer,
dor para sentir,
lágrimas para verter,
braços para apertar,
coração para sangrar,
boca para beijar
e língua para as feridas lamber,
arranja-se sempre uma forma
para nos darmos, meu amor.

( Conceição Sousa)   *