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domingo, 26 de maio de 2013

rasguei


Rasguei tudo o que de ti veio,
os livros, os jornais, os emails, os uis e os ais.
Queimei tudo, em lume brando,
e fiquei ali,
de olhos secos e especados e lábios cerrados
a ver as cinzas subir;
e fiquei ali,
a sentir o negrume a entrar,
a vida que não me quis a ir.
Rasguei e queimei tudo o que de ti veio,
senti o teu coração a estilhaçar-se
e o fogo no teu olhar a consumir-me.
Rasguei-me e queimei-me no mundo
só para que sentisses
a tua mão no crepúsculo do meu cabelo rubro a esvair-se.
Uma fagulha de fricção leve,
dois incêndios em leitos de torrentes imparáveis,
margens apostas nas vidraças boreais:
o arco-íris só para os demais.
Falto eu
para que nada de ti sobre.
Falto eu, rasgo e labareda,
o beco sem saída da pobre.

 (Conceição Sousa)
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30* cuidar


Ela queria apenas uma pessoa que a quisesse e soubesse cuidar,
assim como ela quis e soube cuidar de centenas delas em toda a sua vida -
que ainda não era assim tão longa quanto isso.
Ela queria apenas sentir, nem que fosse uma única vez, o outro lado,
o lado de quem é querido e cuidado
por alguém que simplesmente está atento e quer querer e cuidar,
e sabe querer e cuidar.
É triste alguém que dá tanto não saber receber.
Pedir? Sim, até esse ponto ela sabe ir: pedir.
A parte do receber é que é mais estranha.
Há algo nela que tem impedido o que vem de fora de entrar.
E sofre, e chora, e dói - e já nem sofre, nem chora, nem dói.
Adaptou-se e aceitou.
É assim, ninguém com ninguém dentro.
Mas um dia sonhou que seria alguém.
E foi.
Durante muito tempo foi alguém desesperadamente só.

(Conceição Sousa)
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mulher madura


Sabia que não haveria momento igual aquele,
o instante em que uma mulher madura percebe
que um amor limpo - de sua exclusiva escolha,
sem laços de sangue, nem de vínculos,
nem de experiência de horas somadas,
ou de locais partilhados -,
um amor embaraçado,
acena o adeus no sorriso cerrado.
Sabia que, dali em diante, de cada vez que o visse,
de cada vez que o lembrasse,
a lágrima funda da cumplicidade não se esconderia perante aquele rosto,
e a mágoa na voz do silêncio amordaçado no nó do tempo embaciaria
ainda mais a menina agigantada por detrás dos olhos.
Sabia que aquela pessoa era a única no vácuo da existência
a compreender quem ela era -
e a forma como se despiam, em frente um ao outro,
até de pele,
mesmo com todos os agasalhos de inverno ainda no corpo,
de cada vez que se olhavam,
não permitia outra palavra senão o gemido húmido e salgado do tempo:
sempre a lágrima.

(Conceição Sousa)
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é estranho

Quando escrevo,
não há quem me consiga manter no chão,
simplesmente porque não há "quem".
Por muito que me esforce
e treine o meu raciocínio ao dizer
" da próxima vez que começares a escrever,
vais forçar o pensamento a não desviar-se da tua rota factual,
da tua realidade,
e vais tocá-la, de vez em quando, enquanto escreves",
até à data, não recordo um único segundo em que,
depois de iniciado o processo de escrita,
a gravidade da vida me prendesse à mesma.
Entro numa espécie de amnésia transitória,
só me lembro de ter pegado na caneta e de a ter pousado.
Durante o acto, a anterior e a posterior
àquela tinta que escorre da caneta evaporam-se.
Depois do acto, uns dias mais tarde, quando vou reler, pergunto-me
" Mas fui mesmo eu quem escreveu isto?" - é estranho.

(Conceição Sousa)
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Lembra-te de como era

Lembra-te, lembra-te de como era no início...
lembra-te de como era quando não éramos vício,
lembra-te de como era quando nos entregávamos às palavras directas,
quando nos digladiávamos na berma do precipício,
quando nem sequer nos sabíamos tão próximos
e confrontávamos as nossas vivências como meros e desprendidos desconhecidos.
Lembra-te de como eram prenhes de estar aqueles diálogos escorridos ...de tons e cores e chama e sabores,
sem saber que o eram.
Lembra-te da ingenuidade com que nos vivíamos,
tão doces instantes de tudo,
a inocência de dois círculos que se tocam no perímetro,
beijam-se no perímetro,
e não se invadem com diâmetros e raios
e outras medições parvas de egos e circunstâncias incomparáveis.
Lembra-te de como te amava e tu a mim...
e eram tantas as palavras.
De repente, aconteceu:
o eixo magnético rodou,
a gravidade despenhou-se sobre nós,
o alerta consciente de que aquilo poderia ser amor...
e deixou de ser inocente, deixou de ser ingénuo,
fugimos, cobardes, de nós, do nosso delicioso instante.
Os círculos recuaram e ficou um imenso vazio, um imenso silêncio, uma imensa dor, um ininterrupto falar que dói, amor.
E é isto que somos: um ininterrupto silêncio que fala e dói, amor.
A melhor parte disto tudo é que ainda somos.
E, sim, não há como negar: é Amor - só porque não é outra coisa qualquer.
( E só porque eu insisto que continue a ser, será.)

(Conceição Sousa)
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acender a chama

Acender a chama é fácil...
o difícil é mantê-la, ali,
labareda mansa,
que alumia e aquece,
sem que nela ardas
nem nela te desfaças, ó cinza dança!,
brasa a carvão,
um lume que quase se apaga
mas, de repente, sorve
todo o oxigénio da tua boca
e te devolve a luz e o calor, ó movediço chão!,
na temperatura agreste do corpo
que sua e geme tudo o que é amor, meu coração.

(Conceição Sousa)
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Sentiria falta, sim

Sentiria falta, sim...
do gole de café que me trazes à cama,
com um beijo doce e um sorriso melancólico,
quase que a perguntar "ainda gostas de mim?"
Sentiria falta, sim...
do telefonema, algures, na rotina das horas,
do "então?que fazes?",
o abraço que não me larga
e o sussurro que em todas as palavras me diz
"quem me dera estar aí..."
Sentiria falta, sim...
do olhar inquiridor, na hora do jantar,
a inevitável questão "gostas?",
o amor que me acoberta do frio,
a paz resiliente que me despe de todos os luares.
Sentiria falta, sim...
de ti.

(Conceição Sousa)
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