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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Há que distinguir o coração


 
 
Há que distinguir o coração.
Músculo que nos segura à vida;
órgão que toca em mil orquestras o ritmo compassado, frenético, altercado, quase apagado até, do estágio em que nos somos tempo nosso e de todos;
a chama que arde no rio que nos corre, em tons revezados de rubro e de cinzento, que ninguém sabe donde vem e para onde vai, que ninguém distingue em qual das veias se dá à luz a foz ou em qual dos vasos desagua a nascente;
pulsor e embargador de afectos a vazante e a montante, a fluir tentáculos de corais, teias enredadas de caos em evolução, sempre a fluir, sempre em evolução;
motor onde cabem décadas de planaltos, montanhas e oceanos a escorrer lava e degelo de mil toques ocasionais.
Há que distinguir o coração.
Saber que não se pára, que não separa
o que é mutável, o que é inerente,
o que é indefensável e inerme.
Há que distinguir o coração
do medo de amar,
do pavor de ser amado,
do que não pertence à anatomia,
dos olhos dos outros.


(F)


 Conceição Sousa



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