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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Em Busca da Flor de Mil Cores


- Impressionante como o Céu existe mesmo, mano!

         - E porque não haveria de existir, Ju?

         - Não é isso. Há quem diga que não existe, mas é só olhar de baixo para cima. Olha ele, lá. E, aqui, se apontares, ele aproxima-se, e toca-te mesmo. Ora experimenta. Aponta o dedo para o Céu e fixa aí o olhar. Não tens a sensação de que o estás a tocar? Maravilhoso! É tão quentinho. E é tão simples. É só olhares de baixo para cima.

         - Claro! – respondeu o Mago – No vosso mundo poucos o tocam porque têm a mania de olhar de cima para baixo, sempre de cima para baixo. E é tão óbvio. Se insistires em olhar de cima para baixo, a única coisa que vês, que consegues tocar, e que te toca, é o chão. Se tens o Céu por detrás da cabeça, e não a levantas para olhar para lá, como é que queres que o Céu exista?

         - Certo, Agosto. – anuiu o rapaz – Quem se acha superior, olha sempre de cima para baixo; quem se sente diminuído, olha sempre de cima para baixo. Há mais de meio mundo que não se lembra, não quer, ou não sabe olhar de baixo para cima. E é tão simples: ser humilde e saber levantar a cabeça. Olha o Céu, lá. Tão lindo! Existe mesmo.
(Conceição Sousa in " Em Busca da Flor de Mil Cores", conto infanto-juvenil)

Geme-o

Acredita, algures na tua vida vai te ser difícil digerires esta recusa ( se é que já não está a ser). Mas o meu amor por ti é tão grande - e fixa bem isto - que te digo: o tédio não é o pior, o pior é saberes que ao escolheres não tens remédio: tédio. Isto assim é poucochinho. Melhor que nada, sim; mas poucochinho. E a dependência emocional ao nada, inevitavelmente acaba em nada: nada dura para sempre: tédio em estado antecipado: o vazio. Será possível um amor pleno, um amor cósmico, um amor cúmplice no vazio?
Sim: à posteriori.
Não: se é à posteriori não traz proveito aos agentes.
Não é amor. É passatempo. É vazio. É amor?
Eu penso-o.
A outra geme-o.
Tu pensas-me.
A outra geme-o.
Ela não o tem.
Eu sou-o.
Mas ela geme-o.
Se não precisas da minha carne,
se não escutas o meu gemido
( o de verdade),
não é amor.
Mas ela geme-o,
em ti,
o que te sou.

(Conceição Sousa)

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Multibanco

Dirigia-se ao multibanco, precisava de levantar algum dinheiro para as compras do dia. A filha já havia entrado na loja, há uma semana que falava em comprar aquela brincadeira a um euro. "Sou muito mázinha", pensou, "Já a podia ter trazido mais cedo." Uma senhora de meia-idade, os seus 65 anos, aguardava com a cara prostrada naquela mensagem a laranja no visor do multibanco: "Movimento não autorizado. O montante máximo da sua conta foi ultrapassado." A voz feminina entoou: " Retire o seu cartão". "A pensar nos surdos, só pode", palavras que escreveu na sua cabeça, e encolheu os ombros. A alma ficou uns segundos a contemplar o rosto de quem estava imediatamente ao alcance, os olhos pediam muito, mas a boca não. A senhora, meia perdida, entrou na loja. " Vá, dá-me lá o meu dinheiro, caramba!", discutiu mentalmente com a estúpida da máquina. Correu na direcção do padeiro: "Não me destroca esta nota de 10 em duas de 5, por favor?", sempre a vigiar o caminho que a dona daquelas mãos calejadas percorria, estava em frente aos ovos.
- Ó filha, vamos jogar ao esconde. Vai por ali, a ver se te encontro.
Dirigiu-se rapidamente à senhora, tinha uns 30 segundos no máximo.
- Desculpe, não me leve a mal o que vou fazer, mas penso que isto lhe fará jeito.
E colocou-lhe a nota na mão.
-Oh!, muito obrigada! - a senhora não queria largar a mão. - Posso dar-lhe um abraço?
"Vendi os meus 5 euros por um Abraço.", pensou.
-Ó mamã, eu vi e ouvi. És mesmo uma boa pessoa.

(Conceição Sousa)

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Não te amo, confesso.


Eu tinha frio, amor. Entrei na cama, gelada. E tu estavas lá. Fervias. Devagarinho, coloquei as costas do meu pé no teu pé.Devagarinho, para que não sentisses o choque térmico, mas tu logo me embrulhaste entre o calor dos teus braços e das tuas pernas. Escaldavas - e eu tão gelada. Doeu-me a tortura a que te submetias, pois sei que o contrário não aconteceria. Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria. Estava gelada, pois; e tu ofereceste-me, naquele instante, a melhor parte de ti, enquanto a trocava pela pior parte de mim. Não te importaste, e até o quiseste, desde que me sintas gelada e, lentamente, a deixar de tremer, respiras o meu precisar-te - disseste - e isso sabe-te a viver. Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria. É tanta a dádiva que me concedes, sem que eu o retribua, que, agora, assim à distância de uns anos, te digo: Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria. És um carinho ameno que foi, devagar, entrando e, sem que me apercebesse, lentamente me ocupando. Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria.
As minhas entranhas não suportariam ver sofrer quem depositou nelas o meu ser.
Não te amo, confesso, tal como não amo a minha pele, os meus ossos, o meu sangue, o meu respirar, porque nem sempre os vejo, nem sempre me lembro deles, nem sempre os penso, mas a verdade é que sem eles seria impossível estar.
O que quero dizer-te é: vivo e sou quem sou porque o amor maior está no que está sempre e por estar sempre olvida-se.
És da minha natureza, amor.

(Conceição Sousa)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

É. Amor.

Em todos os sítios por onde passámos
ainda estamos,
vejo-nos lá,
com outros gestos,
com outras cores,
com outras palavras
e outros silêncios
e outros odores.
Olha-os, lá.
Amam-se.
Amam-se
como senão houvera amanhã -
e não há.
Olha-os, lá.
Beijam-se.
Beijam-se
como se a saliva secasse -
e seca.
Olha-os, lá.
Abraçam-se.
Abraçam-se
como se os braços caíssem -
e caem.
Olha-os, lá.
Caminham de mão dada,
como se as mãos murchassem -
e murcham;
como se o trilho ficasse por fazer -
e fica.
Olha-os, lá.
Encostam o rosto
como se a pele escolhesse -
e escolhe.
Olha-os, lá.
Aprendem a cor dos olhos
um do outro,
um sem o outro,
como se a vida cobrasse -
e cobra.
Olha-os, lá.
Sorriem os dias intermináveis
como se os dentes apodrecessem -
e apodrecem.
Olha-os, lá.
Confiam-se palavras e silêncios,
esgares, amuos, deslumbramento,
como se só a cumplicidade os compreendesse -
e compreende;
como se só o que são fora eterno -
e é.
Olha-os, lá.
Em todos os sítios por onde passámos
ainda estamos,
não vês, meu amor.
Só falta, cumpri-los:
aos sítios, ao tempo,
a eles
e a nós.
Fazes-me muita falta.
É. Amor.
E mais qualquer coisa que não sei definir.

(Conceição Sousa)   *

Existo?

Há um homem aí fora que me diz
que não existo,
vejam só!
Há um homem aí fora que receia tocar-me
porque diz saber
que não existo -
mordam-me!
Há um homem aí fora que teme o meu abraço porque,
que nem um menino,
chora se eu não existir.
(Ainda agora chora por recear tocar-me -
em que ficamos?)
Há um homem aí fora que prefere
não me beijar
porque sabe que, nesse momento,
deixará de existir
aí fora
para existir
cá dentro.
Mordo-te?

(Conceição Sousa)   *

domingo, 18 de novembro de 2012

uma forma

Arranja-se sempre uma forma,
só tens de nos dar um pouco mais de tempo,
porque arranja-se sempre uma forma.
Deixa- os p'ra lá,
aos abusadores, aos plagiadores, aos gatunos,
aos desencontrados disto que é a vida.
Deixa-os p'ra lá.
Barra-lhes a entrada no teu pensamento.
Olha p'ra nós,
pensa em nós,
dedica-te a nós:
ao nosso sorrir,
ao nosso abraçar,
ao nosso confiar,
ao nosso beijo,
ao nosso afago,...
ao nosso compromisso de sangue
( mesmo não o sendo ),
ao nosso doce estar atento,
ao nosso amor.
Enquanto tivermos pernas para andar,
pele para colar,
suor para escorrer,
dor para sentir,
lágrimas para verter,
braços para apertar,
coração para sangrar,
boca para beijar
e língua para as feridas lamber,
arranja-se sempre uma forma
para nos darmos, meu amor.

( Conceição Sousa)   *

DOAR


Nem sei bem ao que nasci,

nem sei bem ao que vim e morri,

nem sei bem ao que estou, fui e fiquei,

mas sei de ti e de mim,

sei sempre de nós;

sei que, no momento em que te olho

(verdadeiramente olho),

doo-me, doo-me sempre:

dói cá dentro a dor daí

- que é a daqui -,

e sai daqui este vento,

que já daí vem.

Estendo-te a mão,

sempre a mão,

para que entregues nela o teu sofrimento;

e te levantes sorriso fundo,

sorriso nosso,

sem dor, meu irmão.

Porque doar é sempre de nós,

em nós e por nós,

é sempre do nosso ar.

Respira, meu amor.

(Conceição Sousa)   *

Quem sou eu p'ra ti?

Encostas a tua fonte à minha fonte,
enrolas os meus cachos nos dedos meigos
que deslizam o arrepio da nuca que se entrega,
seguras a humidade do teu olhar negro no meu verde boreal -
e feres o lábio embriagado,
o que te bebe o verter do sussurro que queima no ouvido
e sucumbe ao nome que nos ferve.
Morde-me a ousadia,
lambe-me as cicatrizes,
grunhe-me o atrevimento,
geme-nos o acontece,
chora-nos as cãibras que te invadem na fuga,
grita-nos os beijos lentos a que o corpo se dá e pede -
sós rimos.
O amor não se diz nem se teme: consegue.
Vá: faz tudo o que te apetece:
é agora.
Quero ouvir.
Quem sou eu p'ra ti?

(Conceição Sousa)   *

Vais para um sítio bom.

- Descansa, vais para um sítio muito bom.

De repente, em redor daquela mesa, instalou-se um silêncio estranho. Todos os olhares estáticos e todas as bocas semi-abertas conduziram o movimento de rotação do pescoço na direcção daquela voz.

- O que foi? Disse alguma asneira? Foi com a minha voz habitual que ouviram as minhas palavras habituais, não?

- Não é isso. Foi estranha a forma como disseste o que disseste no timing em que o disseste - alguém se pronunciou.

- Dizer " Descansa, vais para um sítio muito bom" é estranho?

- Sei lá. Senti um arrepio. Acho que sentimos todos quando, assim do nada, te debruçaste sobre a tia, puseste-lhe a mão no ombro, olhaste-a fixamente nos olhos, e o disseste.

- Esta gente está louca! Então não é fácil de ver. Alguém que passa uma vida inteira a dedicar-se ao bem-estar dos outros, e se sente feliz assim, só pode ir para um sítio muito bom. Não tem nada que saber. Aliás, já lá está, tem estado lá, desde sempre, apenas ainda não o sabe.

- E eu? Também vou para um sítio muito bom? - questiona alguém do outro lado da mesa.

- Sei lá eu? Mal te conheço, como é que vou saber se vais para um sítio muito bom. Tu lá sabes o que tens feito a vida toda.

Novamente um silêncio estranho, como se aquela voz tivesse ditado uma sentença de morte má a quem se atreveu fazer a pergunta.

- Olhem! Desisto. Já ninguém pode abrir a boca hoje em dia. Cruzes!

(Conceição Sousa)

os meus actos

Entende-o, aos meus actos, como um presente para ti.
Embora te seja difícil acreditar-me,
não passa disso mesmo,
e é sempre isso mesmo:
o melhor dos melhores dos meus presentes para ti.
O passado interessa, mas deixou de estar no Agora;
o futuro interessa, mas até pode nem chegar,
e até pode nem ser suficiente;
mas o presente, ai!, o presente...
esse entende-o sempre como a melhor das minhas melhores ofertas para ti.
E se o melhor dos meus melhores estares do Agora não te chega,
aí também...
então não me queiras mal, nem que queiras bem,
continua no teu caminho porque o meu faço-o por outros "sem".
Silêncio, escuta: o que te diz o teu coração sobre mim?
És tu.

(Conceição Sousa)   *

estore

Não te percas em ódios, rancores ou sentimentos mesquinhos.
A vida é tão fugaz que não contempla quem dela cobra.
Aproveita o instante como se não o soubesses de sobra mais adiante,
porque, acredita, sempre que sentires que não és feliz,
basta subires o estore pela manhã:
feriu o teu olhar?
Celebra.
Essa claridade um dia vai acabar.
Agora dorme sossegado e sorri caso voltes a acordar.

(Conceição Sousa)   *

É um amor a inventar-nos

E quem disse que o nosso amor tem de ser vivido tal e qual todos os outros?
Tal e qual todas as formas de amor conhecidas, desconhecidas, existentes ou por existir,
concebidas ou ainda por conceber? Quem disse?
Lanço-te um desafio, cariño mio...
Está bom assim, eu em ti, e tu em mim (sempre!),
mas há que viver o que só o tempo e o alcance deste nosso patamar (de)mente sente como sentir.
Tu aí, eu aqui. Nós.
Começámos do topo, sem o saber, sem o fingir, sem o esconder, sem o querer;
castrámos o continuar ao o conhecermos - e, mesmo assim, continuámos, no topo: como é possível?
Agora é mais calmo, é mais sereno, é não ainda de nos lambuzarmos - há-de chegar lá -,
mas sabe-nos bem, vai nos sabendo bem.
É um amor a inventar-nos,
daí a surpresa, daí o espanto, daí o encanto, daí o desdém.
Não há como fugir ao que nos cria,
ao que sente prazer nesse amassar de líbidos,
ao que nem sequer no tédio tropeça,
ao que sorri em êxtase no clímax da brincadeira.
É um amor a inventar-nos.
E sabe-nos, vai nos sabendo (conhece-nos, vai nos conhecendo) a cada jogada, bem.
Não ouves as gargalhadas mordidas nos lábios?
É um amor a inventar-nos: é este o nosso desafio.
Alguma vez tinha de ser tentado, não?

(Conceição Sousa)   *

ajoelhar

E, quando te sinto próximo,
é uma dor que rasga o íntimo sem corpo
e fere a luz incognoscível de dentro.
Uma parte de mim sabe que já não vive sem,
mas a outra suplica à tua incandescência
que pare de me chamuscar.
Então o nó do gemido afina as águas -
que, num rompante, se erigem
a escudar todo o meu ser,
e permitem que te torne a ajoelhar.
Fica - e nada comigo.

(Conceição Sousa)   *

Dóis-me

Dóis-me.
E é por isso que não posso ter-te demasiado perto.
E tens razão (tens sempre razão): não consigo separar águas.
E, de todas as vezes, perco.
Nem sei o que seria melhor:
se o abandono do antes ( de quando não éramos),
ou se o transtorno do agora ( do que ainda não somos).
Dóis-me:
pelo que, mais à frente, não fomos.
Dóis-me -


porque já não acreditava...

(Conceição Sousa)   *

o antes

Não receies pôr termo a um antes.
Não te acomodes ao que te habituaram, ao que te habituaste.
Se te faz sofrer, se te dói, se te faz chorar,
se te sentes constantemente a amargar,
se te impingem um continuo e decadente estar,
sem direito ao mais ínfimo sorriso nem horizonte mais adiante,
sê implacável: decapita-o, dá-lhe o teu fim.
Respira fundo.
Começa um agora diferente,
mesmo que desconhecido,
mesmo que imprevisível, não será de todo o antes doente.
Arregaça as mangas,
mergulha na queda do caos ( saída?),
aos poucos orienta-te, e sorri: és, finalmente, dono de ti.
Vive o que não sabes,
pois o que te dão a saber é sabor de morte, é morrer.
Vive sem olhar à farsa da construção oca que te querem fazer acreditar,
vive o pouco ou muito que te resta sem temer as tuas escolhas.
Pensa bem?
Quanto tempo da tua vida entregaste nas mãos deles?
E para quê?
Quanto tempo precisas mais para perceber que se lambuzam com a tua vida?
Não será já hora de a reaveres?
Ou quererás entregar o resto do teu tempo sem de verdade te conheceres?
A questão é: morres agora para morrer ou morres agora para viver?

(Conceição Sousa)   *

chamuscada

Compreendo que,
por um motivo de cobardia maior (salvo seja),
não consigas me dizer que, afinal,

sou eu quem habita a fundição da tua cabeça.
Mas se insistes em me mostrar essa porta fechada,
como posso eu adivinhar a que te mora dentro?
Deixa que a veja , ao menos,
espreitar por trás da cortina,
aquela em tom de pérola amachucada,
ali naquela janela próxima da chaminé:
será que é por lá que eu vou entrar?
É que tenho a cara surrada, sabes?

Chamuscada, de tanto me queimar.
E só p'ra te ver sorrir, vá...
Só um sinalzinho pequeninho de fumo.
É que tenho frio, sabes?


 (Conceição Sousa)   *

o tédio?

És-te no corpo,
mas o homem é meu.
Não podes desconhecer uma verdade
que te conhece.
Já nem te recordas do antes.
O que é o tédio mesmo?
Isso: quando não estou lá
(agora uma impossibilidade).

(Conceição Sousa)   *
E ainda é aquela criança,
aquela,
a de olhos gigantes, muito abertos,
recostada no parapeito da montra do autocarro,
ou boquiaberta no vidro enregelado da sala de aula,
ou até estática na luminosidade do seu quarto de lua,
ou a que encostou a bicicleta (na qual nunca se senta)
só para levar à boca aquela água a sair directamente do
"abre-te Sésamo!".
É ainda aquela criança que
- vá-se lá saber porquê ( e se calhar até todo o ser humano é assim) -,
consome a maior parte do seu tempo de olhos bem esbugalhados
a viver o mundo de lá,
o que se desenrola -
história após história,
personagem após personagem,
cenário após cenário,
época após época,
diálogo após diálogo,
silêncio após silêncio -
no olhar em busca de horizonte,
o que desperta sempre violentamente com alguém,
lá longe,
a ecoar o seu nome :
"Oh!, já acabou!..."

(Conceição Sousa)


*

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Aqui jazem

Sinto falta do teu calor, meu pedaço de carne viva.
Sinto falta daquele fogo que me mordisca a pele
e me diz que sou aqui, que sou agora,
que sou sangue que ferve e se demora no interior das veias...
sem rupturas, sem fugas de líquido a jorrar de quente,
a esvaziar o denso da temperatura que o sustém.
É a febre no bafo a gotejar ausência de palavras,
no rubro do tom cálido da tua voz agra,
que me diz o sorver gemido em me quereres,
em nos saberes do tempo dos fluídos que se derramam
(ainda mornos),
do tempo dos ossos que se estilhaçam
(ainda quebram)
nas frágeis cascatas do lume que avisa -
sintoma da chaga que não fecha o limite pungente da morte que vem,
que não quer sorrir ao tempo dos corpos que fluem e se molham nas termas , nos termos, do que ainda se é, do que ainda se tem.
Vem, meu pedaço de carne húmida, quente e rubra.
Vem, meu pedaço de gente não hirta, não pálida, não morta.
Vem, meu pedaço de ar inspirado,
e suga-nos até que nos coloquem numa mesa, rijos, enegrecidos e velados.
Aqui jazem...
(é pena, enquanto puderam nem sequer se consumiram em consumirem-se.

Agora é tarde.
Agora? Não há agora.)

(Conceição Sousa)    *

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Vejam, enquanto podem.


"Um dia, meus belos e luminosos olhos já nada segurarão.

Um dia, já não verei as nuvens apressadas,

lá no alto,

escaparem, por entre os dedos de Deus,

e beijarem o azul quente de todos os Céus.

Um dia, já não contemplarei a doce brisa

a abraçar as rabugentas folhas,

que se amam na ramagem densa multicolor,

e se perdem e encontram quebradas no banco dos réus.

Um dia, as minhas íris, em vermelho possessas e ramificadas,

já não vislumbrarão os açoites da chuva que queimam na pele;

nem conseguirão perdoar ao ríspido vento,

o que empurra o corpo cansado,

e o obriga a avançar no gelo soprado –

sabor que escorrega de vida neste papel que me foi destinado.

Um dia, já não terei a visão de ti no meu pensamento,

pois, por muito que tente,

meus olhos já nada serão senão pó do tempo.

Um dia, já não serás luz cá dentro;

toda e qualquer escuridão que possa daí, agora, advir –

perto da que está por vir (supõe-se)-,

nada mais será do que fugaz e belíssima recordação do já morto momento.

Por isso, meus olhos de agora - os que conheço e estão -,

enquanto podem, 

captem, e intensamente,

 

todo e qualquer movimento (bom ou mau) a ocorrer –

na paisagem que vos sente, entende e dá prazer.

Vejam!

Sejam!

Chorem!

Sorriam!

Demorem-se...

Pisquem!

Abram!

Fechem!

Estagnem!

Rebolem! –

soltem a meiguice do que vos habita dentro!

Libertem o ser que vos faz sentir,

a cada segundo, o presente.

Amem: até que, por fim, vos tapem

de tudo o que vos sente."

 

(Conceição Sousa)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

não crescer

Não quero crescer.
Está bom assim.
Gosto deste espaço pequenino,
de ter tempo para aproveitar a minha e esta família.
De ter espaço para saborear cada um dos que nos querem bem,
dos que sentem esta vontade de inspirar a vida
e libertar as palavras num abraço à lareira do contemporâneo,
dos que se beijam na solidão do incompreendido
e se aconchegam num xaile de época,
tecido na malha da saudade e do desdém.
Estou no lado dos carentes e dos que necessitam,
em cada sopro de areia a abandonar as mãos,
do amparo ameno das lágrimas,
do conforto da companhia cúmplice
que nos escuta e encosta a tez na nudez da terra.
Serei feliz se puder não crescer
e sentir-me amada ao amarrar-me, mesmo no fim,
ao odor do solo húmido,
à lama que me cobrirá de chão.

(Conceição Sousa)  *

à lupa

Procura à lupa, vá.
Não tens mais fragilidades p'ra me encontrar?
E em ti? Quantas descobriste?
Deixa-me apontar-te uma, pelo menos uma:

o que fazes aqui?

( Conceição Sousa)    *

creio-te

Acredita: creio-te tanto quanto tu me queres a mim.

(Conceição Sousa)

eclipse

E para que sinta,
nem que por um último eclipse de estar,
o teu abraço a sorrir-me

e o teu toque a me chamar.

So that that I can feel,
even if for a last eclipse of being,
your arms smiling around me
and your touch calling me.

(Conceição Sousa)   *

separar águas

O problema de algumas pessoas que ocupam cargos públicos, e de poder, é não saberem (e não quererem!) separar as águas...podem até ver, a toda a hora e momento, trabalho de excelência mesmo em frente aos seus olhos, pode até lhes ser relembrado, a toda a hora e momento, por uma comunidade inteira que se trata de trabalho de excelência, mas como a pessoa a ocupar o cargo não diferencia a sua própria pessoa da pessoa ao serviço público - e como o trabalho de excelência é imparcial na forma como constrói a sua crítica ao que é-, esse trabalho de excelência é pura e simplesmente "apagado" da agenda desse serviço (público?).

(Conceição Sousa)

senses

Senses is she in the valley of shadows
Touching her bones and mighty deep scars
Aching the pains of the dead in the meadows
Sewing the thread of life up till Mars
Ashes in forests she finds all alone
Home is a concept completely awaken...
Endeavours the spirit of a heart loan
Light and magic are spread and mistaken
Enchantment arises in a full Moon
Neverending stories are coming soon
Characters mischievous enlighten the power
Hosts are considered, in hotels remain
Respectful leaders speak up in the tower
Inflicting confidence the love they sustain
So now she believes, and frightens her pain.

( by Conceição Sousa)

caves of wisdom


In the caves of wisdom
many empty their screams,
in the hollows of passion
some swallow their dreams,
in the deep dumps of sadness
all of them submerge as reborn gods or goddesses,
and none of the witted
sustain unproudly
the scars of the darkened phantoms.
Then the first winds of times
whisper
their glowing miracle,
the mist of the approaching glory
embraces us as the true sign.
And the snow enchants our sin,
sparkles our breasts
in a blanket of white -
right in front of our ravished eyes.
The odor of the chorals
spreads into all our pours,
and the idiom of light,
the print of life,
opens before us
all the meaningful doors.

(by Conceição Sousa)

new earth

In this piece of land impotence and impunity reign.
The dreams that once the child erased
colapse before the hard-working seeds every day.
And the child knows the kingdom is taken,
the lords and the ladies are wrong and mistaken,
they frighten the rain and dry the sowed land,
and worship the greedy gods who lie the dust and the sand.
The hurt child leaves the heart inspirited birth ground,
and runs through the fields and mountains not found.
Wisdom ensures the unknown path ahead,
new ways submerge and fight the spectrum of death.
It's time to step into the heavenly abyss;
in fact you are there and the tread is a pace to the fair:
believe in a new earth and in the end of despair.

(Conceição Sousa)


*

touch

Your touch...oh your touch...
I'll die: if I don't burn at your touch
Beethoven's touch sounding in the night
Carving the skin with the being symphony
Soiling the soul ether loving drop.
 Your touch...oh your touch...

 I'll die: if I don't bring your touch inside
Ice touch in the gaze gulps
Tattoos letters in the flesh (ours)
Deprives animals from the savage staunch
Chained in the moment flow - tasting us
Touch, accomplice caress touch : absorb.
Acknowledging us proof, delicious proof, torn in time.

All I want is from that touch a flaming call
And touch you, touch you Beethoven the infinite in abundance
In the (non) existence fold - on iron - brand
Through blood, fire, light, perspiration our work.

(by Conceição Sousa)

as lágrimas

as lágrimas, que insistem em abraçar os olhos,
embaciam a dura realidade – neblina
de protecção à dor da verdade.
as lágrimas que queimam nos cantos da carência,
e ardem nos sem ar: bustos da ausência.
as lágrimas, com vida própria,
que caem soltas gemendo o rosto,
que nem cicatrizes de água,
afundam: permanente mágoa: desgosto.
as lágrimas que me acariciam
no âmago de a ti chegar,
que me lavam as preces
carpidas em cada dormir,
em cada por ti acordar.
as lágrimas que, em água e sal,
na alma se fazem,
algures, por dentro da carne –
e, no corpo, lá, onde não se vê,
em água e sal consubstanciam o sentimento,
a dor de existir no quase por vir.
as lágrimas que, de Deus escorrem,
deidade chuva,
em cada idade aligeiram
o pesado estar de todos quantos morrem.
as lágrimas, que me beijam a toda a hora,
são cansaço de amar, resignada demora,
amantes de mim e de ti,
lacrimejar de tudo e de nada,
vivência adiada, sonho que chora.
as lágrimas que, gota a gota, contadas,
desilusões, tristezas , alegrias,
e vida
somam, pela vida fora.


(Conceição Sousa in "ai.como dói.esta dor.")

forte abraço

no abraço forte que me dás e aqui não chega
sinto nossa história crescer – e esmorecer.
uma que a vida nos oferta e que, pasma, me apanhou de saída.
sem sequer ter saído, fiquei;
entrei no teu abraço, que não chega, de mansinho,
sem me saber aí, aí chorei.
e quando me soube, omisso, negaste o meu no teu caminho.
no forte abraço que me entregas, e que não chega,
sonho-nos o estar enlaçado em que me negas.
só pode ser meu. não vês, amor?
é um trajecto sem retorno nem despudor;
no instante em que o encetei,
e sem dar conta do quanto me dói,
repliquei o dar o nó, sem qualquer transtorno.
e esse forte abraço que da morte me esconde
também a ela me mostra:
escancara-me no onde – é ferida aberta em conforto de crosta.
abraça-me forte, amor,
e chega-te, aqui, chega-te o suficiente
para, sem mossa, cobrires minha dor,
do meu corpo enlaçado na tua alma,
meu doce cobertor.

(Conceição Sousa in "ai.como dói.esta dor.")

Ela

Ela não se sabe o assombro da minha voz,
Ela desconhece-se cascata deste sal de inverno,
Ela enregela-se no lume que me prende o peito,
Ela emudece-se na foz estremecida das cãibras lidas:
o meu suor contido, o meu orgásmico defeito.
Ela: o nome que se geme e morde no meu ouvido.

(Conceição Sousa)   *

essência

Sempre de braço dado.
Caminhemos, então.
Continuemos a escorrer sentimentos puros -
os que se derramam no nó das palavras que não saem.
E isto é real: a coragem das letras que se desistem
para que não se desista do amor.

( Conceição Sousa)   *

Chaminé

Compreendo que, por um motivo de cobardia maior (salvo seja),
não consigas me dizer que, afinal, sou eu quem habita a fundição da tua cabeça.

Mas se insistes em me mostrar essa porta fechada,
como posso eu adivinhar a que te mora dentro?
Deixa que a veja , ao menos, espreitar por trás da cortina,
aquela em tom de pérola amachucada,
ali naquela janela próxima da chaminé:
será que é por lá que eu vou entrar?
É que tenho a cara surrada, sabes?

Chamuscada, de tanto me queimar.
E só p'ra te ver sorrir, vá...
Só um sinalzinho pequeninho de fumo.
É que tenho frio, sabes?


 (Conceição Sousa)   *

sábado, 10 de novembro de 2012

Ficaste?

Há dois tipos de morte,
aos nossos olhos:
o corpo que se perdeu dos movimentos,
e os movimentos que se perderam do corpo.
Vejo-te dançar, aqui, diante do meu olhar:
que ninguém me diga que não estás.
Ficaste?

(Conceição Sousa)   *

quantas voltas?

Não me confundas.
Não se trata disso: "Isso" és tu.
Passar a língua pelo contorno dos teus lábios, e sorver-te: pessoas.
Soprar-te ao ouvido, e deixar-te ir: pessoas.
Soprar-te bem alto, e deixar-te ir, rola.
Quantas (...) voltas?

(Conceição Sousa)   *

aceitar...

Até te podem deixar entrar,
mas o deles nunca será o teu -
pela simples razão de que nunca te saberão aceitar.

(Conceição Sousa)   *

recuso amar-te


Todos, a quem eu amo,
se lhes mostro isto que sou,
penam, aprisionados em dor,
na armadilha de mim.
Recuso-te o meu amor.
Recuso amar-te.
Acredita: não te amo mais.

(Conceição Sousa)   *

Ele e Ele

Ele: - Que me importa o que os outros pensem ou falem? Que me importa? Eu sei o que sinto por ti, amor. Eu sei como é bom. Eu sei como é bom quando estou contigo, no escuro, só contigo, sem nada nem ninguém em redor. Só eu e tu, amor. Que me importa os outros?

Ele: - Sim…tens razão. Tens sempre razão. É bom…é mesmo bom. E sabe bem, sabe muito bem. E, se é bom e se sabe bem, se ambos o sentimos, não pode ser errado. É nosso: só eu e tu. Deixa os outros p’ra lá. São estranhos. São morte.

(Olham-se, em silêncio, num silêncio sempre igual, um silêncio de mil palavras que se despenham de um céu acabado de amanhecer. Aquecem-se. Sorriem, ao de leve, e douram-se nos rostos que se deitam nas palmas daquelas mãos tão abertas, tão de um só. Um chilrear de beijos nas linhas húmidas que se escorrem de vida. As mãos que se lêem e os traços que mudaram o impossível de posição: o divino.)

Ele: - É o amor o que nos define, meu querido.

Ele:- Sim. É a inevitabilidade de amar o que nos define, meu amor.

  (Conceição Sousa)

é, não é


Se és quem eu penso,
se me queres bem,
se nutres por mim sentimentos de afecto e ternura,
se me desejas tudo de bom e candura,
então sim; então, isto que sinto por ti, É.
Se és quem eu não penso,
se mentes,
se manipulas e me queres mal,
se nutres por mim sentimentos de desdém e ódio,
se me desejas o pior na vida (no pódio),
então não; então, isto que sinto por ti, Não É.
Como vês...és tu, sempre tu, quem decide.
E, desde já, te digo: o que tu sentes por mim, É.
Apenas, e só apenas, se o que sinto por ti, for. É?
 
(Conceição Sousa)   *

A chuva


A chuva, de todas as vezes, amor...
de todas as vezes, a chuva, amor...
traz-te, de braço dado com ela,
para que me apertes entre os teus ombros,
e me sorvas as lágrimas que, com ela, correm no rosto.
Pingantes nas costas que queimam,
suados no choro vítreo do violino,
fundidos na pele lambida de desgosto.
A chuva, amor, traz-te...
de todas as vezes, só e p'ra mim.
E é assim que nos vimos.

(Conceição Sousa)   *

guarda

Guarda,
e não deites fora
o que deitas fora
e não é de deitar fora.
Guarda,
um dia
vais querer de volta
o que deitaste fora
e que não era de deitar fora.
Guarda,
um dia vais deitar-te comigo,
um dia vais dormir comigo o sono eterno –
ou pensas que eu ando a dormir?
(Zzzzzzzzzzzzzzzz…)

(Conceição Sousa)   *

ah!, pois é...

Como agradar a uma mulher?

Não adianta chegar ao pé dela,

dia após dia,
com um beijo de soslaio no lábio,
tratar da vidinha
(ver o jogo imperdível na TV,
ou abraçar o amigo no café mais próximo,
ou resolver aquele assunto inadiável no PC ),
não dizer uma palavra ao ouvido,
não perguntar como foi o dia,
não agradecer a refeição ou a camisa engomada,
sair de casa sem um beijo
(nem mesmo de soslaio)
ou sem um "até logo, querida!";
e depois, por entre os lençóis, amuar...
porque o toque quente que se quer é uma refeição pré-congelada.
Ah!, pois é...

(Conceição Sousa)   *

tangível acaso


Foi no intervalo do tangível acaso,
abalo de partitura,
que te encontrei, raro vão…
amei-te, exíguo engenho, no halo,
e suguei-te todo o génio, meu sopro, perdão !
Foi no escasso espectro de ti, ponto de luz, meu ocaso,
que me deleitei de minha graça;
sem graça, corri no teu singular termo,
e sorri, ao ermo, coisa incognoscível!
Soube-me, ânimo do ente que me habita –
agora, inevitavelmente, do êxtase desânimo pungente.
Sou: da ocasião proscrita; a diminuta lágrima;
o hermético intuído fantasma, que de mim brota,
e a mim retorna; imensidão restrita –
sonhada, vivida, chorada, escrita.

(Conceição Sousa)   *

falha!

Na minha terra, desde a infância que, por todo o lado, ouço as palavras "burnir" e "anzoneiro".
Por volta dos 17, descobri que não era "burnir", mas sim "brunir", mas p'ra não me enganar ( nem me apontarem o dedo) passei a dizer "passar a ferro".
Entretanto, por volta dos 35, descobri que "anzoneiro" também se diz "onzeneiro" (estranho!), apesar de, infelizmente, estar habituada a lidar com eles diariamente.
E as coisas que ainda me faltam descobrir...
O mais importante não é a consumição com que os outros, ao detalhe da lupa, tentam encontrar em ti ( pensam eles...) a mais ínfima falha - e fazer dela uma gigantesca montanha de lodo.
O mais importante é saberes que mais perfeito do que tu, na tua constante busca de conhecimento, mediante as circunstâncias que a vida te apresenta, dificilmente existe.
É saberes que ao fazer constantemente, ao fazer mais (dentro do que a vida te permite), é normal que também falhes mais. Mas o falhar mais só acontece porque te fazes, porque te vives. Falha, caramba! E arruma p'ra um canto os que, mediante as circunstâncias específicas da vida deles ( bem diferentes, por sinal, da tua), te dizem que não és (aquilo que sentes que és!).
Aponta-me as falhas de hoje, querido! Amanhã já não terás as mesmas para me apontar, terás outras com certeza. E, entretanto, enquanto tu me vives, eu também me vivo. Mais do que uma pessoa a viver a minha vida é um verdadeiro fenómeno!

(Conceição Sousa)

no limite



Estás no limite do que (não) tem fim.
Sentes-te lá (cá), próximo,
naquele (neste) ponto,
onde te dizem que tudo acaba.
Pensas, aliviado: "- Cheguei. É esta a hora: o fim, por fim."
Sorris à que te ainda é vida;
e acenas, na lágrima de saudade que desliza,
um adeus a tudo o que te é amado.
No teu sorriso, abraças todos os teus sentires;
e agradeces, à que te ainda é vida,
os cheiros, os toques, os sons, os sabores, os amores -
até mesmo os apagados.
No teu sorriso molhado,
despedes-te do mundo,
e adormeces, sereno, no silêncio do estar do outro lado,
embalado pelo último balbuciar,
já escuro, de teus lábios:
amo-te, amor.
 
(Conceição Sousa)   *

não te vais desfazer


Não te vais desfazer porque eu não deixo.
Podes não encontrar carinho em lado nenhum, amigo:
aqui encontras.
Dizes-me : “ - São só palavras.”
Respondo-te: “- Não, não são só palavras. São as palavras…
as palavras que embalam lábios e braços para te tocar,
para te acordar no berço do adormecer e te fazer sonhar.”
Não te vais desfazer, amigo, porque eu não deixo.
Podes não encontrar carinho em lado nenhum:
aqui encontras –
aqui não te sentes desamparado, nem sequer perdido,
muito menos abandonado.
E deixa que as palavras te enlacem
e te tragam ao colo também para este lado.
Aqui encontras calor, palavras de amor:
regista-as em duplicado.
Caso aqui venhas, e não as encontres
(às mesmas palavras),
saberás onde buscá-las, p’ra te sentires amado.
E sente todas as palavras como o amigo
(que pensas não ter) que te estende a mão –
e te conduz p’ra bem longe desse mau bocado,
p’ra bem perto do que mereces: estar contigo.

(Conceição Sousa)   *

Mágoa

Sei que,

muitas vezes (demasiadas vezes...),

te magoo...

Sei que não sou meiga

nem sequer sou doce;

mas entrego-me inteira

por um sonhar que fosse,

por um amar que seja,

por um estar que braveja.

E, acredita,

o teu coração,

o que se diz ferido,

é-me,

muitas vezes (demasiadas vezes...),

querido.

(Conceição Sousa)   *

mereço

Mereço que me fales ao ouvido,
e que me afagues o olhar;
mereço que me dispas com a ternura
de um traço a começar...
Mereço que teus lábios dancem
o tom exacto da minha pele,
e que a tua língua percorra
toda a distância do papel: o nosso.
Mereço o gemido solto do rubro da rosa ahhhhhh!,
o êxtase fundo do crivo na prosa.
Mereço o poema onde escrevo a nossa eternidade,
a ausência de fôlego no extenuar do arrepio,
o suor que não corre nem tapa o frio,
a unha romana de felino: mio.
Mereço a total entrega
sem frete nem asco,
o amor que se não nega na golada do frasco.
Mereço o rompante que não trava
e o uivo que erege auuuuuuu!,
o caminho que não nos pede nem perde -
o que rasga e crava a letra que se escreve.
Mereço não precisar de pensar nem de sentir
a palavra mereço.
E é tão somente isso: (a)pagar.

(Conceição Sousa)

*

a tua pouca verdade

no olhar que me lançaste,
encontrei-te crente da voz que é minha;
juraste perder-te em doces palavras
nas íris possessas com que me domavas;
despiste-me desta pele que não sinto
em tragos bebidos de língua;
vestiste-te, infiel, em mim,
coberto de todos os nãos
num suposto (a)deus à míngua.
no olhar que me furtaste,
ausentei-me de mim
e de todas as que conhecia;
jurei-te fidelidade, ao teu amor,
no arremessar de pedras que me cabia;
lancei todos os meus eus
num abismo insano de vontades loucas;
e todas as fantasias sentidas
só não deixaram de o ser
porque as tuas verdades se fizeram poucas.

(Conceição Sousa)
 

marca-me

Dança-me na tua pele
e marca-me,
impressão digital,
do firmamento a espiral:
um firme sinal (chamamento!) -
agora, no limiar de nos ter levado o vento.
Passado.

(Conceição Sousa)

inominável

No momento em que sentimos e inaugurámos o inominável
(de tão inebriante, raro, e inexpiável) -
e, ainda assim, entendemos chamar-lhe: poesia.

(Conceição Sousa)

o poeta

Ao poeta que se sente poeta
o mundo não consegue matar -
só mesmo o sentir de um outro poeta
que se sinta poeta.

(Conceição Sousa)

obrigada

Se não houver distância, há desistência;
logo: não há proximidade.
Para que possa voltar
é preciso que, de vez em quando, me deixes ir.
Até posso ficar -
mas esse é um ir sem nunca voltar.
Obrigada por seres tu a me guardar.

(Conceição Sousa)

é preciso

Porque é preciso que nos conheçam:
aos que não temem errar -
ou até temem,
mas não se inibem de avançar...e choram.
Choram porque erram,
choram porque avançam,
choram porque acreditam,
e choram porque sabem
que o verdadeiro milagre é ainda acreditar;
e choram porque sabem
que o verdadeiro milagre é ainda chorar.
Estamos vivos.

(Conceição Sousa)

é assim

E é assim que eles se amam –
mais do que todos os outros? Não. Diferente de todos os outros.
Porque é assim que a vida ( e o que é a vida?) lhes fala ao ouvido.
Porque é assim que o sussurro (o sopro) bombeia o sangue.
Porque é assim que o líquido sobeja (por) todos os poros do corpo.
Porque é assim que a essência segura o ar na berma do precipício.
Porque é assim que a alma só beija, sobeja, se excede –
sempre sem chão, e no chão.
E é assim que eles só vivem,
pés nus,
corpos sem mundo: ar –
simplesmente ar…
a chorar-(se?),
a sorrir- (se?),
a beijar- (se?),
a abraçar- (se?),
a continuar- (se?),
no espaço sublime e indecifrável em que ficaram (pensam…):
o pungente vazio a esvaziar,
o entediante de sempre a esmorecer,
a fenda do despenhar- (se?) a suster.
Encontraram-se
e suicidaram-se, na cara da morte, do morrer.
És a minha vida, neste instante que não quer passar.
Quanto ao resto?
É mesmo isso: resto.
E disso nem quero saber.

(Conceição Sousa)

A inveja

A inveja tem um sorriso muito próprio - pelo menos, aos meus olhos, inimitável.

(Conceição Sousa)

fazer a cama

Ai!, ai!, não!, não!, não faças isso, querida! Olha que eles fazem-te a cama! Olha que eles fazem-na bem esticadinha p'ra te deitarem nela!
- Olha a minha sorte! Então que a façam! Mais dia menos dia, não vamos todos ser deitados numa cama?
- Cala-te, muito caladinha. Tudo quer ver-te levar a bandeira, a tocha olímpica, mas na hora H não penses que te dão alguma medalha! E quem se lixa és tu!
- Oh!, Céus! Mas se vim ao mundo para não poder ser quem sou, p'ra que raios vim eu ao mundo? P'ra fazer de conta? P'ra fingir?
- Vive a vidinha normalmente, como todos os outros a vivem: assim, normalmente.
- Mas assim é que eu estou a viver a vida normalmente, droga! P'ra viver como todos dizem que a devo viver, tenho de me sedar. Não, muito obrigada! Também...não te incomodes! Mais ano, menos ano, e esta vida (normal ou anormal) acabou-se. Por isso, até que chegue a hora, Exmos Senhores e Exmas Senhoras o espectáculo vai continuar: nada de baixar o pano! E...palmas, muitas! Palmadas? Também pode ser, muitas!
- Oh!, valham-me os demónios! Desisto, é mesmo doida!
- Desperta, se faz favor!

(Conceição Sousa)
- Vieste casada??? Oh!, enganei-me: cansada???

(Conceição Sousa)

parede

A sensação de estar a falar com uma parede
faz-me muita impressão.
E é inacreditável
que se continue a falar com uma parede.
É como deitar a tua essência ao lixo: um desperdício
(uma via de sentido único
que te leva ao lado nenhum de nenhum lado).
Não fales com uma parede!
Ou a deitas abaixo ou viras em sentido contrário
ou escavas mais fundo ou passas por cima,
mas não fales com uma parede: ali, especado,
a não seguir para nenhum lado. Que horror!
Como vês, nada de bom conseguirás de uma parede,
a não ser dar-te a saber a força que tens
para a avançar, sulcar, demolir ou contornar.
Anda, despacha-te! Faz o que a parede te pede!

(Conceição Sousa)

senses

Senses is she in the valley of shadows
Touching her bones and mighty deep scars
Aching the pains of the dead in the meadows
Sewing the thread of life up till Mars
Ashes in forests she finds all alone
Home is a concept completely awaken
Endeavours the spirit of a heart loan
Light and magic are spread and mistaken
Enchantment arises in a full Moon
Neverending stories are coming soon
Characters mischievous enlighten the power
Hosts are considered, in hotels remain
Respectful leaders speak up in the tower
Inflicting confidence the love they sustain
So now she believes, and frightens her pain.

( by Conceição Sousa)

cálice

sorrimos o cálice da porta entreaberta;
provámos o arrepio da noite que foge à janela que brada;
deslizámos na labareda do precipício rubro,
num abraço de asfalto a tocar a nudez da cascata;
sentimos – na partícula do que se passou a ser,
no átomo do que se soube a saber, na faísca do que se rebentou a conhecer –
o embargo das vozes paridas e chamuscadas;
corremos por entre um emaranhado de fustigadas carnívoras,
de fisgadas traições sedentas de palco, de contidos bocejos no pasmo do onde…
e silenciámos o medo ao converter o espanto num beijo cavernoso:
ainda é escuro, sim; ainda é fresco, sim; ainda é húmido, sim –
e as feras mansas aguardam lá fora. escutam o nosso rugir…
assombram-se , e não entram. hmmmmm!

(Conceição Sousa )

respeito

O respeito por quem sempre nos tratou bem
(e actos são o espelho da alma - até mais do que palavras)
deveria ser algo, verdadeiramente, intocável.
Mas todos sabemos que não o é.
Pelo menos, havendo infiltrações duras e nefastas,
deveríamos saber parar,
voltar atrás no tempo, l
embrar com muito amor e carinho,
e cuidar do refogar dessas almas em quase fim de cozedura,
como elas sempre cuidaram do nosso início de fervura.
Acarinhemos os nossos anciãos.
E palavras como
internar,
abandonar,
isolar,
dispensar,
descartar,
deveriam ser abolidas do tempo dos homens,
já que nunca o serão do tempo do tempo.

(Conceição Sousa)

continua

- Sabes que sim, sabes que somos: o resto de tudo o que já é fim. Vem a mim.
- Continua? ( Contigo, nua?)
- Sempre. A que é tua é assim.

(Conceição Sousa)
O que falta à sociedade são pensadores.
Não é passadores (passa as dores!),
é pensadores: pensa as dores!

(Conceição Sousa)
Quando a essência corre em busca das suas particulas é o quê mesmo? Vazio-repelente.

(Conceição Sousa)

horizonte

Sabemos que o limite não é o horizonte...
esse, a cada passo que damos,
avança mais p'ra lá.
Qual será o limite?

(Conceição Sousa)

eu e ela

De vez em quando ela volta,
mas eu enxoto-a.
E se lhe dessem trela até que ficava por muito tempo.
Nesse caso, talvez fosse ela a enxotar-me, a mim.
Confesso que gostaria de a ver fazê-lo:
sairíamos ambas com um sorriso rasgado nos lábios.
Ela, porque, finalmente, viveria;
eu, porque, finalmente, descansava.

(Conceição Sousa)
Inevitavelmente,
a vida acontece que nem um relâmpago:
ilumina por onde passa,
e, onde cai,
mata de espanto.

(Conceição Sousa)

vida

"O que é a vida
senão doces momentos,
simples momentos,
intensos momentos,
desenhados e escritos pela nossa mão?
Os outros,
escritos e desenhados pela mão de outros,
são vida apenas se sim."

(Conceição Sousa)

Tala, enquanto cura e nasce.

"Há toda uma panóplia de infinitésimas opções que se estendem perante ti. Dói escolher? Claro que sim. Faz parte. Dói mais ficar apático, inerte, não optar por optar. Opta, as vezes que te apetecer. Deixa doer as entranhas, as vezes que tiver de doer. Só assim te sentirás vivo, de verdade: a viver. Mexe, salta, pula, corre, abranda, acelera, faz o pino, a espargata, mas nunca, nunca pares para morrer. Nunca te deixes definhar dentro de um quarto, dentro de ti mesmo. Ousa amar-te como a Deus, como ao criador, como a quem te concedeu a bênção de viver. Exige uma vida plena, uma vida recheada, uma vida de loucura todos os dias da tua vida. Dói? É um facto: dói. Mas dói de qualquer maneira. Se nada fizeres, dói muito mais: a dor do constrangimento, da cobardia, da inacção, da morte em vida. Exige-te o que é teu por direito: o alcance da felicidade, todos os dias da tua vida.
Dizes-me: é fácil falar, não basta querer. Consinto. Mas se nada quiseres, se nada fizeres, continuarás nesse marasmo de sempre, nessa escuridão aí dentro, nessa solidão, nessa autoflagelação. Mais grave do que isso: chegarás ao fim do teu ciclo de vida com a plena certeza de que poderias ter feito muito mais e, se morreste em vida, foi única e exclusivamente culpa tua. Não te dão outra hipótese de nascer; mas dão-te, diariamente, inúmeras hipóteses de renascer: viver conforme te convier e aprouver. Aquela acção não resulta em felicidade? Paciência, pelo menos tentaste. Há mil outras atitudes que podes experimentar. Sabes que por ali não é. Resolvido o assunto, sem perdas de tempo. Aquela pessoa foi desagradável: ignorou-te, desprezou-te, tratou-te mal? Paciência. Há mil outras pessoas diferentes a aguardar uma realidade nova. Quem sabe não serás tu essa realidade? Sabes que aquela outra pessoa, a que te rejeitou, não te valoriza, logo não serve para ti. Assunto arrumado. Coração aberto para os biliões de outros seres humanos existentes no mundo. Se no teu país não encontras quem procuras ou o que procuras, viaja atrás do algo que te preenche: a superfície terrestre é enorme. Quem sabe a tua felicidade não estará na outra ponta do planeta. Também podes aproveitar situações como esta, de encontros internacionais. Quando o mundo descer à tua cidade, sai do quarto e vai recebê-lo, vai conhecê-lo."

(Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar." - romance.)

As lágrimas ainda não escrevem palavras

As lágrimas não escrevem palavras,
o encolher de ombros também não.
E eu, por muito que tente,
não te adivinho o sentimento,
aí dentro,
meu doce amigo.
Olhas-me, perdido...
e sabes que te encontrei, meu querido.
Apenas, ainda não sei como te chegar,
a esse teu lado ferido, dorido...a
o teu - e só teu - estar.
Olhas-me, contido.
As lágrimas ainda não escrevem palavras,

e o encolher de ombros também não...

(Conceição Sousa)

levo-te

És uma pessoa
que foi colocada no meu caminho
na hora certa.
Aproveito o que de melhor tens,
e só o melhor fica,
só o melhor me interessa.
E levo-te comigo
p'ra toda a parte
sem que to peça -
junto com o melhor de outras pessoas,
e com o melhor de mim,
que me ajudam a deslindar
este labirinto que sou , sem fim,
e a encaixar-me no puzzle da vida,
peça a peça.
Começa, vá...

(Conceição Sousa)

donos

Não há donos de pensamentos,
não há donos de sentimentos,
não há donos de palavras.
No dia em que o monopólio alcançar as nossas razões,
os nossos afectos e a nossa escrita,
acaba-se o trajecto.
Esvazia-se a vida,
como tudo o que tem um só tecto.

(Conceição Sousa)

veneno

Não precisas de amargar nesse veneno
que te injectam a toda a hora.
Deixa que o fel escorra nas tuas veias,
deixa que teus olhos fundos se enegreçam em redor,
deixa que teu corpo moribundo se mostre ao sol da manhã,
e, serenamente, aguarda...
a vida, mais tarde ou mais cedo, decide.
Entretanto, deixa que o sangue ferva no sonho do ontem,
que o alcance da tua visão se ilumine na luz do que és,
e que o teu corpo sucumba na caminhada ofegante,
afagada pela brisa fresca que anuncia o cume da montanha.
Aprecia, mesmo sem antes teres chegado,
o horizonte dos que se fazem vivos.

(Conceição Sousa)

balão

Sobe, sobe, balão sobe...
será que encontras outros balões por lá?
Ou estarão todos os que interessam,
vazios,
cá por baixo,
a ver-te subir?...
Pum!
Ai!, que susto!

(Conceição Sousa)

lágrima

Um sopro
- de águas claras e tranquilas -
no cabelo esvoaçante da criança,
que em ti mora.
Um murmúrio quente
- lava crescente -
no ouvido do homem,
que em mim chora.
Uma lágrima
- algo ténue -
cai no teu rosto;
desperta na luz da minha chama.
Uma lágrima apenas
- algo dócil -
convida-te para mim;
e tu vens escorrendo: daí.
Vulcão faminto - em erupção nos sinto.
Lava: nossas almas no calor da paixão.
É nosso o momento - agora
que encontraste a criança abandonada,
perdida nos quelhos da vida.
Esta, que essa deserta encontrou,
e que te estende a mão
segura de tudo,
no entrelaçar híbrido dos dedos nossos,
nada.

(Conceição Sousa in "pontas soltas: nós")

incitas-me

Incitas-me a amar-te
e, no entanto,
toda a intensidade que pões nesse incitar,
não a vejo eu no teu amar-me...

(Conceição Sousa)

inóspito

O que nós temos,
mais ninguém tem.
É um patamar acima (ou abaixo) do regular -
é o inóspito,
a cadência hemorrágica do contínuo desbravar de terreno virgem,
a acontecer -,
fruto (quero crer!)
da exercitação intelectual de uma vida.
Até tenho receio do mais que me farás ver, ó criador!
Deslumbramento, ao segundo.
Por isso, pára de engonhar
e dá-me tudo de uma vez!
Se é p'ra ser, que seja!

(Conceição Sousa)

hibernas

Um dia,
acabas por descobrir que,
contrariamente ao que se pensa,
o animal mais próximo de ti não é o macaco,
mas sim o urso:
hibernas longas temporadas invernosas e,
quando, finalmente, acordas,
sentes todos os teus sentidos primaveris apurados,
e vives, sofregamente,
a comer tudo o que te passa ao lado.

(Conceição Sousa)

O grito

A vontade de gritar
grita ao grito, a toda a hora,
que não pode gritar: não!
E o grito, temerário,
faz-lhe a vontade...sempre, não.
E é por ausência forçada de grito
que as gentes se desesperam: aaaaaaah!
Ó grito! Ah!, tu que tanto me cansas!
Marca-me nas cordas das entranhas!
Assegura-te, ah!, e aos outros, ah!,
das tuas façanhas, aaaaaaaah!
Cansei.
Não te canses tu, ó grito!
De verdade, já te perdoei! Aaaaaaah!

(Conceição Sousa)

Cativa-me

É esta a nossa linguagem.
E canto-a num amor que não se dobra,
mas que rasteja que nem a própria vida
em ondas de cobra,
sempre alerta,
sempre desperta,
sempre de obra:
pedinte do vício,
do veneno de ti, d
a pele que se renova.
O insuflar-me de vida na picada do instante,
a mordedura lida -
que, mesmo a jusante, a morte cobra.
Cativa-me.

(Conceição Sousa)

credo

Tu: não me apontes o dedo!
Aponta-te: degredo, sem medo -
nenhum segredo, e cedo!
Credo!
Concedo.

(Conceição Sousa)

o olhar

no olhar que me lançaste,
encontrei-te crente da voz que é minha;
juraste perder-te em doces palavras
nas íris possessas com que me domavas;
despiste-me desta pele que não sinto
em tragos bebidos de língua;
vestiste-te, infiel, em mim,
coberto de todos os nãos
num suposto (a)deus à míngua.
no olhar que me furtaste,
ausentei-me de mim
e de todas as que conhecia;
jurei-te fidelidade, ao teu amor,
no arremessar de pedras que me cabia;
lancei todos os meus eus
num abismo insano de vontades loucas;
e todas as fantasias sentidas
só não deixaram de o ser
porque as tuas verdades se fizeram poucas.

(Conceição Sousa )
 

Tala, enquanto cura e nasce.

Sinopse:
E se, de repente, numa manhã, acordar e constatar que há outro ser igual a si, ali, mesmo ao seu lado? Um ser que lhe fala e o pressiona a agir de forma contrária a si mesmo. E se os outros lhe perguntarem, constantemente, com quem fala? E se a comunidade médica chamar a essa sua realidade doença? E se o seu caso for estudado e a sua condição passar a ser considerada, pela Ciência, não uma doença , mas sim um dom, clarividência? E se a sociedade olhar para si como uma prova de que é possível que haja algo mais do que apenas aquilo que o comum dos mortais vê? E se perceber que tem um contacto privilegiado com o que não é, mas se intui; com o que deixou de ser, mas existe; com o que ainda está por vir, e se pressente; com o que já foi, mas é possível lá voltar; com o que está, esteve e estará, simultaneamente, a ocorrer, a um mesmo tempo e espaço, em outras dimensões da realidade, dentro da própria realidade? E se perceber que tem um contacto privilegiado com o Criador? Que este, de alguma forma, lhe envia sinais, aparentemente aleatórios (e toda a vida lhos enviou – como a todo o ser existente),e que a sua bagagem existencial lhe permite, agora, começar a decifrar? E se neste livro encontrar evidências inequívocas, sinais óbvios, de que o Além afinal está Aquém, de que a morte talvez não seja o fim, de que a vida não é um mero acaso aleatório, e de que a resposta a todas as nossas perguntas esbarra-se , a toda a hora e momento, no nosso sentir profundo?
E se, de repente, após a descoberta do óbvio, houver uma corrida mundial desenfreada à condição de ser aquilo que o seu íntimo é? E se esse facto impulsionar o início de uma nova era?
Um romance que é, também, uma crítica social mordaz aos tempos que correm – e intemporal na observação do sacrificar do trabalho e da carne humanos perante o idolatrar do capital deificado.
Uma arrebatadora e desconcertante história de amor, sem tabus. Porque ninguém, por muito que tente, consegue trair o que verdadeiramente sente. Um diálogo permanente do eu consigo próprio, a tentação do pacto com o divino: Deus ou Mefistófeles? Permite-lhe descobrir que o sonho, quando exaustivamente explorado, é o transporte para outros caminhos, onde se toca com outros “eus” presentes no seu próprio eu – aquele que conhece e passa a desconhecer.
Agora compete-lhe decidir se entrará nesta viagem. Um aviso: uma frase lida, uma palavra sentida, um passo adiante no texto, causará em si uma travessia sem retorno ao outro lado de si: o que esconde, o que dói, o que o questiona, o que o arrasta lá bem para o fundo, mas o faz avançar na direcção do mundo a que tem direito. Uma pacificação entre todos os seus “eus”. Ou não…
Um romance em que qualquer semelhança com a realidade, sentida por si, é a mais pura das verdades. Sente-se. Preparado para conhecer quem, de facto, é? Folheie-se, escave-se e rasgue-se. Encontre-se.
Não adie mais, está na hora: abra-me.

(Conceição Sousa)

anjos idos

A dar os "bons dias !"
coloridos e perfumados 
aos anjos idos
que, num abraço de "guardo-te para sempre",
nos velam o sono,
a nós,
aos vivos
que insistem em estar mortos.
Salva-me,
pois eu já te salvei a ti.

 ( Conceição Sousa)

semente

Uma mesma semente,
dependendo do que lhe fazem
(docemente cuidada
ou levianamente negligenciada),
pode resultar,
naquele quintal específico,
na mais bela das receitas
ou na mais flagelada das colheitas.
A semente existe,
a semente consagra-se,
a semente vive o que de melhor é.
Já quem a cultiva...
pode nunca lhe conhecer o sabor.
Nem tudo é dor, amor.
Olha! Tão linda esta flor!

(Conceição Sousa)

companhia

Só de saber que estás aí,
e que me ouves,
é-me companhia ao meu viver.
Sei que te faço bem,
quando escrevo umas letras
e não te deixo morrer.
E, neste instante,
é tudo o que me apetece dizer.
Sabes-me ver.
Sorrio-te.

(Conceição Sousa)

caminho

É duro,
é solitário,
é doloroso,
é penoso,
mas é o único caminho que se te apresenta,
é o teu caminho.
E tens de o percorrer.
Não te adianta negá-lo,
rebelar-te,
fugir-te,
ou sequer fingir que o não é.
É mesmo.
É esse o único caminho que te dão,
que te é.
Assume-o,
enfrenta-o,
percorre-o e...
o que tiver de ser será.
Mas nunca deixes de crer em ti,
nisso que és aí dentro,
e na força que podes ser
ao não te deixares dominar pelo caminho.
És sempre tu que estás no controlo,
no comando -
mesmo que, por vezes, te apagues
e dês voz ao caminho;
mesmo que, por vezes, penses que não.
És sempre tu a ter a última palavra:
é tua a decisão.

(Conceição Sousa)

achada

Não me importa quem te aches
ou quem me aches.
Só começas a importar-me
quando me encontras ,
e quando te encontro,
quando passamos a ser-nos
serenos.
Se decides morrer- me,
passo a não ver -te,
matas a que te encontrou.
E se é isso que queres, assim será.
Uma não história,
pois só continua o que ficou :
nada - ou tudo . . .
Sou achada.

Será que te encontro?

( Conceição Sousa )