Número total de visualizações de páginas

sábado, 30 de novembro de 2013

7* E se eu não quiser frequentar mais esses espaços?

É certo que o que sinto, penso e sou me foi servido, em amplas doses, nos tascos e restaurantes mais variados.

É certo que não me lembro de ter escolhido, alguma vez, a ementa, nem sequer recordo se tive direito a entrada, sopa, prato principal, sobremesa ou aperitivos.

É certo que, ao ser servida, algures na memória, retenho fragmentos de ter preferido peixe a carne, ou carne a peixe, rejeitar o pudim e, com olhar de gula, consumir o bolo de bolacha.

É certo que, no dia em que quis fazer uma refeição ao ar livre, me foi pura e simplesmente negado tal pedido.

É certo que não consigo pensar em alternativas que não conheço. Ou porque, deliberadamente, não me foram ensinadas ou porque as desconheço de facto…

É certo que também me ensinaram a passar fome, pois se não há trabalho, não há dinheiro, e se não há dinheiro não há comida. Mais grave do que isso é… haver trabalho e muito, mas passar fome na mesma, por demorar a remuneração, ou, no final, nem sequer existir.

E pergunto-me: "Mas por que raio é que tenho de passar fome se não tenho trabalho, ou se tenho trabalho, mas não mo pagam? Não sou um ser humano, um ser vivo como os outros? Se tenho fome deveria poder comer como os outros que têm fome, e trabalho não remunerado, e trabalho remunerado, e dinheiro sem trabalho?"

É certo que até pode haver trabalho, mas nos restaurantes de luxo e tascos que frequento, dizem-me que aquele trabalho tem de ser pago de três formas: à experiência ou estagiário, sem compensação financeira; em início de carreira (mesmo que o início dure há 20 anos) com remuneração de principiante (salário mínimo ou menos); à pastilha elástica, o financiamento estica ou encolhe conforme o menu pré-confeccionado. E não importa se ajudaste a comprar os ingredientes ou a confeccionar, se aprendeste direitinho a lição, se seguiste as instruções à risca, se deixaste a cozinha a brilhar, não importa o que quer que te tenham dito sobre a possível promoção no caso de teres contribuído para a invenção de um excelente prato. No final, dizem-te que apesar de ter agradado muito aos clientes , e apesar de tu veres a sala repleta, apesar das evidências, para além de não te darem a promoção, cortam-te na remuneração que não auferes, dizem-te que é necessário continuares a contribuir com a tua fome para pagar aos credores dos tascos e restaurantes, e mais: sabem que é a fome dos teus filhos e o trabalho não remunerado dos teus filhos a contribuir também. Já para não falar das outras formas servidas na ementa, que, por vezes, nos são impostas e é de todo impossível recusar. Escravatura moderna.

É certo que quem me serve (e a quem eu sirvo) são outros clientes que, como eu, sentem, pensam e são o que lhes tem sido servido em amplas doses nos tascos e restaurantes mais variados.

É certa a continuidade na romaria de entrada nesses locais, onde ultimamente já nem comemos ou bebemos, ou nos divertimos sequer, apenas lavamos a loiça, esfregamos o chão e limpamos as casas de banho, sempre com muita fome, e apenas porque nos mandam limpar e porque os outros que têm fome também limpam, e porque virtualmente temos um emprego remunerado, e virtualmente podemos alimentar os nossos filhos num futuro próximo que nunca mais chega…

E se eu não quiser mais ser servida ou servir na base do que outros decidiram escrever como ementa?

E se eu não quiser mais frequentar esses espaços de reprodução do interesse alheio?

E se eu não quiser mais optar por estas falsas opções?

E se eu quiser sentir, pensar e ser sem ementas, nem restaurantes, nem tascos?

Lá terei de ser criada ou criar-me de novo algures num espaço inexistente, num tempo intemporal num hiato dimensional.

A questão é...como acontece a criação?

Conceição Sousa in " Hoje é Sempre um Bom Dia p'ra Começar", Livro de Crónicas

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

6* O que é o sentir-se sozinho, isolado, só

           Como foste capaz? Como foste capaz? Esta é a pergunta derradeira, a pergunta do embasbacamento, a pergunta guilhotina… Como foste capaz, meu pai? Como foste capaz, minha mãe? Como foste capaz, meu filho? Como foste capaz, meu irmão? Como foste capaz, meu companheiro? Como foste capaz, meu amigo? Como foste capaz, meu amor… meu amor…meu amor.

E, depois, entra a solidão. Uma solidão tão funda, tão mágoa, tão mágoa…tão mágoa.

Na verdade, não tenho ninguém, ninguém. Há uma fantasia, uma bela ilusão, criada com todas as cores aguarela que as manhãs teimam em me benzer; um socorro estendido pelo temperar do Sol; um alumiar da Lua em abraço pelo chão, como que a dizer

“Pensa melhor; vais ter saudade deste meu brilho, deste teu cintilar. Também não tenho ninguém. Entrego-me ao negrume da dor, quase por completo, até que de mim só me percebem uma leve foice. É quando me dizem que faço falta. É quando me dizem que a escuridão é imensa e deixaram de ver o seu reflexo nas águas do lago. É quando me dizem que há ferocidade por toda a parte e temem o rosnar do tempo. É quando eu perdoo e regresso do lençol alcatrão – ainda não é duro como a pedra nem mole como o coração; regresso em pinceladas de fumo branco, e cresço na esperança de ser resgatada; um alastrar redondo como o ventre, um vai-e-vem em busca de auxílio, uma contracção prenhe de apagão para que possa renascer sem memória, sem o “Como foste capaz?” e ter, novamente, a oportunidade de sorrir a inocência. Pensa bem: sempre me conheceste sem ninguém e faço-te falta, ou não?”  

Sim, fazes-me muita falta, meu querido, meu luar. Esta maldita solidão. Todos os momentos de quebra deviam ser proibidos. Todos. Todas as pequenas mortes deviam deixar de o ser: pequenas. Ou são mortes ou __________.

Como foste capaz, meu amor?

Que queres que te diga? Sei que é assim. Sei que já morri, mas tenho de viver. Sei que me mataram, mas tenho de viver. Sei que, p’ra mim, não valho a pena, mas tenho de viver. Sei que sou invisível, e até invisível me sentem como ameaça, mas tenho de viver. Sei que ninguém me tem, absolutamente ninguém – e é mais isso a solidão: ninguém nos ter; e não tanto ao contrário: não termos ninguém –, mas que vou fazer? Tenho de viver. Tenho de ser como a Lua. A Lua existe para me mostrar que é possível ser como a Lua: absolutamente só e iluminar toda a humanidade; é possível crescer e minguar, querer morrer e querer iluminar; é possível sermos amplamente amados na escuridão sem sequer sabermos que o somos: amados.  A Lua existe para que saiba que um mero satélite, tão insignificante, tão pequeno, faz falta à escuridão de um planeta inteiro. A Lua, tão só, tão desacompanhada, tão bela, tão necessária e urgente… a Lua.

Como foste capaz? Foste. E agora sou outra. Fiquei sem mim durante muito tempo; já regressei. Perdoei. Perdoei. Tenho a solidão por minha companhia. Aprendi a amar a solidão. E é tão minha esta solidão que me faz uma imensa companhia. Não me sinto só. Tenho a solidão. Tenho o luar. E tenho a esperança de que, um dia, venha a ter-te a ti… meu amor, meu amor, meu amor…

Conceição Sousa in "Hoje é sempre um bom dia p'ra começar", Livro de Crónicas

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

1* Hoje é sempre um bom dia p'ra começar


“Hoje é sempre um bom dia p’ra começar”, não sabe exactamente quando foi a primeira vez que lhe ocorreu este pensamento, mas sabe que foi na infância. Anos depois do nascimento, em Julho de 1974, mas ainda assim, na infância.

Lembra-se de sentir medo na cama quando, ainda de madrugada, a mãe batia com a porta para ir dar horas na fábrica. Sabia que, a partir dali, estava sozinha. Bem, sozinha não. Tinha a mana, um ano mais nova, mesmo colada às suas costas, não sabe se com frio se com medo, e o irmão de dois anos no outro quarto. Escusado será dizer que não pregava mais olho; repetia para si mesma, vezes sem conta “hoje é sempre um bom dia p’ra começar, coragem, levanta-te”, as instruções da mãe “ Acorda os teus irmãos, ajuda-os a vestir e dá-lhes o pequeno-almoço  - quase sempre sopas de leite -, leva o menino à ama e a tua irmã pela mão p’ra escola. Não falhes, é o primeiro ano dela, tem de aprender as letras e os números direitinho, e a mãe não pode, tens de ser tu a tomar conta dos manos. Cuidado com a estrada, vai sempre pela beirinha.”

Ela ouvia uns dentes a tiritar, na época achava que era o diabo, por causa das histórias a que sucumbia todas as tardes na casa da avó. Mais tarde descobriu que eram mesmo os dentes da sua irmã, não sabe se com frio se com medo; mais tarde, porque levou muito tempo a ter coragem de olhar para o sítio de onde vinha o som do diabo a tiritar os dentes. Até que uma madrugada, em que a porta bateu, e o frio começou “hoje é sempre um bom dia p’ra começar, coragem”, e ela olhou, e ela riu-se, era a mana de olhos arregalados e dentes a bater, ‘tadinha, abraçou-a o mais que pôde, e não mais, não sabe se o frio se o medo, voltou a ouvir-se dentes a tiritar. Que diabo que quê?

O pai era sempre muito longe, era comboios e armas e fardas e rigor, era sempre muito longe. E o mais perto, durante mais de uma década, era uma vez por mês em meses maus, duas vezes em meses bons, três dias de Queen e Beatles e bifes da vazia do tamanho dos remorsos e passerelle de Excelentes, ai de nós se não os apresentássemos “porque eu e a vossa mãe nunca tivemos a oportunidade que estais a ter, eu com dez já fazia soletas e a vossa mãe com nove limpava as casas das senhoras”. Um dia, já no oitavo ano, um Não Satisfaz a Ciências Físico-Químicas e “Hoje é sempre um bom dia p’ra começar, coragem”, lágrimas nos olhos, não te zangues pai!, e não se zangou “ mas que não torne a acontecer, ir à escola é um privilégio, e os meus filhos hão-de ser todos doutores!”

E os anos foram passando, as articulações dos ombros quebrando com o torcer dos toalhões de banho, dos lençóis, o carregar da mercearia desde a venda da Zefinha do bairro; o estudo para agradar ao pai que queria estar mas não podia; o tomar conta dos irmãos para agradar à mãe que queria estar mas não podia. E os  professores… como gostava de receber o afecto e a aprovação daqueles professores, professores que foram elevando a sua auto-estima, que reforçavam a sua vontade em melhorar, em evoluir, ao compensar o seu mérito com as melhores notas da pauta. “Hoje é sempre um bom dia p’ra começar, quero ser professora”, decidiu, e assim foi.

Sempre tudo certo: ao sacrifício de uma família ( que mudou de cidade), ao empenho de vários professores, ao esforço de uma decisão, ao mérito, ao suor, ao trabalho, a compensação: finalmente, sou professora,  S. Mamede de Infesta, ano de 1996.

Montalegre, Boticas, Vila Verde, Taipas, Urgeses, Revelhe, Fafe, Celorico de Basto, Braga, Guimarães, Felgueiras, em cada lugar, a cada ano “Deixa lá, hoje é sempre um bom dia p’ra começar, coragem”, e novas gentes, novas necessidades, novos laços, tristes  despedidas, sempre lá, sempre cá, sempre lá, sempre cá. 

Ano de 2013, está tudo do avesso, deixaram de valorizar o trabalho, deixaram de valorizar o mérito, é tudo ao acaso, é tudo aleatório, apetece e cortam, cortam a eito, cortam cegamente, cortam vidas sonhadas e conseguidas com tanto mérito, tanto esforço, tanto trabalho, cortam, cortam, cortam, é um crime o que fazem, o mais grave de todos. Deixou de haver um fio condutor, matou-se a confiança. Aquela criança já não tem frio, nem medo, nem esperança. Apenas sabe que tem de continuar a lutar e que “hoje é sempre um bom dia p’ra começar…”

Conceição Sousa

 

2* Quando me morreste


 Quando me morreste, não soube de imediato o que isso era "me morreres".
No dia seguinte, o amanhecer retornou, como todos os outros amanheceres de todos os outros dias seguintes e dos dias anteriores; a noite caiu, como todas as noites de aí em diante e antes dessa caem; a brisa orvalhou-me a face como já o havia orvalhado antes e com certeza haveria um depois; as folhas restolharam-me os pés descalços como já era hábito no antes e o seria no após; o cheiro a terra arada entranhou-se-me na pele, como acontece sempre que um homem ou uma mulher ou um animal revolvem a terra.
Foi quando afaguei a minha pele surrada que percebi: não mais um olhar teu a cativar o meu silêncio. A memória? Pânico. A memória? Não conseguia isolar no tempo o espaço cativo do teu último olhar. Pânico. As tuas feições? Não as lembrava. Como? Sabia que não mais o teu sorriso, não mais o teu choro, não mais o teu beijo, o teu abraço e nem sequer um vislumbre do que era o teu rosto conseguia. Pânico.
Não é morreres-me que me dói. É ter percebido que levaste contigo a minha memória. Essa é a dor maior. Não me teres deixado um canto para te lembrar ( uma esquininha que fosse), para que possa continuar a saber o que é amar-te. E até as fotografias me soam estranhas.

Conceição Sousa in "Hoje é sempre um bom dia p'ra começar"

3* Quando a paixão se transforma em indiferença


É inevitável. A paixão acaba sempre em indiferença. Uma atrás da outra, e mais uma atrás da outra, e ainda outra atrás da outra. Já lá vão quase quarenta anos e assim é, como assim sempre foi. A grande dúvida persiste: quando será que acaba mesmo? Acabar de acabar –  de fim? Eu explico.

Lá muito atrás era a paixão pelas brincadeiras: correr descalça e levantar o pó do largo, onde todas as crianças da rua brincavam desde o alvorecer até ao crepúsculo; saltar ao elástico, vezes sem conta, numa cadência exacta, cada vez mais alta, cada vez mais longe; na ausência dos pais, fazer da casa o barco do Tom Sawyer e navegar com toda a canalha das redondezas; jogar às escondidas ( 1, 2,3,…), escapulir pela janela, por cima do galinheiro,  fazer “tchiu!” às galinhas e cuspir as penas que teimavam em entrar pela boca, a tentar arrancar um espirro ao compincha do nariz. Lá muito atrás, basicamente, era isto a paixão: correr, saltar, suar, gargalhar, chorar, fugir, esconder, cantar, competir, perder, vencer…

Ali pelos dezassete, a janela já servia para outra coisa, saltar para o galinheiro já era; agora, havia os cachos loiros da Rapunzel, muito atenta à serenata dos jovens que insistiam em dedilhar nas guitarras as “Dunas São Como Divãs” ou “Tu Eras Aquela Que Eu Mais Queria P’ra Me Dar Algum Conforto e Companhia” ou “Não, Não Sou O Único, Não Sou Único a Olhar o Céu”, ai!, ai!... E vinha um sorria, e vinha outro cantava, e vinha outro dava a mão, e vinha outro segredava, e vinha mais um e escrevia poemas lindos e deixava, sem que eu soubesse, em todos os bolsos que conseguia, para que descobrisse mais tarde, ai!, ai!... Nunca era o mesmo e, por muito que tentasse, havia sempre algum detalhe, um mísero pormenor, que causava o desencanto e…já era. Como foi possível ter gostado tanto daquela aberração? Ciclicamente o mesmo desencanto, a mesma frase: Como foi possível ter gostado tanto daquela aberração?

É certo que pressentia o hábito a entranhar-se, o maldito hábito. O homem e a mulher são seres dados ao hábito. É inevitável. Detestam a rotina; detestam o rame-rame de sempre; deixam até de ver, de ouvir, de sentir aquelas pessoas, aqueles lugares, aquelas falas, aqueles comportamentos que são sempre os mesmos (acho que a isso se chama indiferença, não?), mas, na verdade, precisam do que conhecem como do ar para viver. Passava longas temporadas assim, só no conforto, na paz (mais valia chamar-lhe indiferença, porque indiferença e paz são a mesma coisa, e paz e conforto são a mesma coisa, e conforto e indiferença são a mesmíssima coisa). O pior era quando a hora do tédio, porque a seguir a longas temporadas de indiferença (que não é mau, bem vistas as coisas até é bom, é tranquilo, dá para aproveitar as coisas simples da vida – falo da nossa indiferença, do nosso desencanto, face aos outros –, o sol, a chuva, a lua, o vento, o rumorejar da natureza… ), como dizia, a seguir a longas temporadas de indiferença, inevitavelmente, há o tédio. E o tédio é a pior das doenças para a alma. Um entediado é um desapaixonado. Um entediado é um desacreditado. E um desacreditado está, nesse tempo em que nada o arrebata, em que tanto faz, morto.

Nessa hora, urge encontrar a paixão, ou ser encontrado por ela – mas isto é mais raro.

E, se não encontramos a paixão, temos de a fazer: seja o emprego novo, o puzzle que se constrói com o filho, a companhia diária ao ancião da família, o bolo de chocolate para o nosso doente, o Natal à lareira de um Porto, o poema de rajada, o abraço contínuo naquele olhar de infância, o chá que se toma com a amiga, o livro que se devora até de madrugada… Se não encontramos a paixão, temos de a fazer. Se é a paixão que nos encontra, temos de a agarrar. Dizer-lhe, todos os momentos da nossa terminável vida, que nos sentimos afortunados, que a queremos com toda a nossa volição, que não desgrudamos do que pertence ao nosso ânimo, do que nos faz levantar todas as manhãs e desejar que a vida seja interminável, que não tem de estar ali, efectivamente presente, na nossa vida, mas que só de a sabermos nos sentimos o ser mais abençoado à face da terra: só porque fomos encontrados por uma paixão.

Até à data, fiz milhentas paixões, fui encontrada por uma meia-dúzia, entre pessoas e actividades. Mas a grande dúvida persiste: quando será que acaba mesmo? Acabar de acabar de fim?

Enquanto isso: correr, saltar, suar, gargalhar, chorar, fugir, esconder, cantar, competir, perder, vencer…viver.

 

Conceição Sousa in " Hoje é sempre um bom dia p'ra começar"

4* Alinhar no preconceito e levá-lo, assim, a jeito. (um encolher de ombros)


 Uma rua estreita, de duplo sentido. A meio do percurso só um consegue passar. De ambas as extremidades a visibilidade é a melhor possível. Quem entra primeiro avança, a toda a velocidade. Quem entra depois, espera. É esta a regra. É esta a inteligência.
Ela já ía quase a meio - e só um pode passar ; ele vê, sabe disso,mas avança a toda a velocidade e pensa "vais ter de recuar".
Ela percebe que ele avançou; ela não quer recuar - e não vai recuar. " Se alguém tem de recuar és tu, parvo!", pensa, e continua.
Ambos param. Ambos estão parados, frente a frente. Ambos se posicionam para ver o outro recuar.
Ela sabe que está no direito dela, e não vai recuar.
Ele sabe que é mais forte e vai fazê-la recuar.
Ela diz " Eu recuaria com todo o gosto, se o soubesse fazer, mas é livre de me conduzir. Aqui tem a chave."
Ele pensa " Valha-me Deus, só me aparecem maçaricas!" e responde
"Deixe lá, sendo assim, recuo eu."
Ela encolhe os ombros e sorri. Ainda tem tempo de dizer "Agradecida!", enquanto pensa " Recuaste ou não recuaste?"

Conceição Sousa in "Hoje é sempre um bom dia p'ra começar"

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

58 *passeio pela vila

É simples. Estava destinado dares um passeio pela vila, como há anos desde há décadas fazes, tactear as linhas da tua mão. Estava destinado conheceres as mesmas alegrias de sempre, as que se sentam naquela esquina de sempre, e receberes as mesmas tragédias de sempre, as que te fazem tropeçar naquele quelho de sempre. Estava destinado...
É simples. Queres que seja diferente? Hoje, agora, decide. Entra num comboio e ruma até uma praia, uma outra cidade, uma aldeia no interior. Quando lá chegares - e até na viagem -, sorri a quem está, mesmo que não conheças, mete conversa e abraça o mundo. Vais ver que, porque quiseste que tivesse sido diferente, o teu dia resultará mais rico, ao tacteares assim a mão e o espaço do outro.
Boa descoberta!

(Conceição Sousa)

5* Inventar não é desistir. É só ceder um pouco, fazer uma batota pequenina.



Quando era criança, lembro-me bem, não sabia o que era o tempo, mas já sabia o que era o tédio: costurava as próprias bonecas com os trapos que a mamã trazia da fábrica ( e que feliz que eu ficava quando ela, a altas horas da noite, chegava..., derreada e carcomida das linhas de montagem, coração pesado, e me oferecia a melhor prenda que tive na vida, as sobras de um amor infinito na minha memória, as sobras de mil cores, padrões e texturas da obra, do tempo com a minha mãe que me foi roubado pela fábrica); enchia os tachos e as panelas miniatura, que a mamã suava nas feiras, com o arroz, a massa e o feijão, e contava, indefinidamente, os grãos de açúcar, até me fartar de contar ( acreditava mesmo que conseguiria chegar ao último grão – ainda hoje acredito…); tricotava o pano para a mesinha de cabeceira, a duas cores ( sempre a duas cores), e arrematava as imperfeições – sempre gostei de observar as minhas imperfeições e de lhes dar um fim , eram minhas ; lia, exaustivamente, as novas enciclopédias do Reader’s Digest que o meu pai tinha por vício encomendar e, assim, enfeitar todos os cantos da casa e da minha alma; devorava os discos de Vinil, promoções associadas às encomendas, o Elvis, os Queen, o melhor dos 60, 70, 80, e anotava, sem descanso, as letras num papel ( passava dias inteiros a decifrar a última palavra, aquela que não conseguia percepcionar para completar a letra da música). Às vezes, inventava. Inventar não é desistir. É só ceder um pouco, fazer uma batota pequenina. Às vezes, é preciso inventar para conseguirmos avançar – de um pulo só, avançar. E os livros e os discos eram o tempo que a segurança nacional roubou o meu pai de mim.
Quando era criança, sei-o bem. Ainda hoje, desconheço o tempo a passar quando faço da minha luta um ataque cerrado ao tédio e um abraço presente a todas as ausências. Ama-se quem nos tem na alma e no espírito, mesmo que o corpo não consiga – ou seja impedido de –
estar. E eu fui muito amada.

 Conceição Sousa in "Hoje é sempre um bom dia p'ra começar", Livro de Crónicas

caminhada

A caminhada. Não pode faltar. A cada alvorecer.
O instante que te comunga todas as respostas.
O reencontro sazonal com a dádiva.
Tudo o que se segue é sobejo grato
de um sorriso cúmplice
a cada aurora de pálpebras.

(Conceição Sousa)

Relativiza

Vive o que a vida te trouxer. Quanto ao resto...relativiza. É mau? O que a vida te traz é mau? Procura, à lupa, aquele buraco, aquela ínfima fissura, por onde te vais fazer o enfiamento de mais um dia feliz. Eu ajudo:
1º O básico que a vida te traz: respiras, e sentes as estações, e escutas o clima, e passeias as tuas vontades em mundos imaginários " A vida é tudo o que eu quiser que ela seja. Na vida, só sinto o que eu quiser que me sinta e fique em mim."
2º Relativizar: sou um entre tantos, e cada um com cada qual, que enfiados num estádio de multidões, e num ciclo de épocas e eras, já ninguém sabe ( nem se lembra!) de quem é quem. E até o ninguém se evapora.
Por isso te digo "Vive o que a vida te trouxer. Relativiza. Ama o mais que puderes. Só o amor te traz vida."

(Conceição Sousa)

Amor?

Amor?
Amor é uma coisa completamente diferente disso,
dessa explosão de sensações obsessivas, caóticas e céleres.
No amor só cabe a ternura.
Quando olhas para o amor, só vês ternura.
Quando escutas o amor, és ternura.
Quando sentes o amor, sorris e choras lentamente...
és sorriso e choro de felicidade,
no silêncio de um estar cúmplice,
que só o tempo e as adversidades...
consentem.
No amor, quando magoas,
dói-te o olhar resignado do outro.
É aí que sabes que amas.

(F)

 (Conceição Sousa)


16 *Acreditar em mim


O mais importante é nunca deixarmos de acreditar na pessoa que somos, e na pessoa que queremos ser.
Podemos, em dado momento, talvez por não estarmos rodeados das melhores pessoas nos seus melhores momentos, vacilar, ponderar algumas das nossas escolhas – isso é humano ( e até desejável!).
Podemos sentir a insegurança a apoderar-se de nós, questionar se os valores, pelos quais sempre nos regemos, são indispensáveis a um ar limpo e respirável; e até perceber, em dado instante, que a flacidez não é propriedade exclusiva da pele, também acontece na alma, também a alma pede flexibilidade – isso é humano.
E algumas das regras precisam mesmo de ser arrancadas do íntimo, porque, se antes serviam, mais à frente no tempo podemos senti-las como forçadas, destoadas da evolução natural das coisas – isso também é humano.
Mas o mais importante mesmo é nunca deixarmos de acreditar na pessoa que somos, e na pessoa que queremos ser, principalmente se essa pessoa é parte activa e fundamental na vida de outras pessoas: o bolo de chocolate que ampara a solidão da vizinha, o bom-dia nas escadas do prédio; o abraço ao nosso doente naquela cama de hospital, e que, por arrasto, se alastra ao doente da cama ao lado; o olhar atento às perguntas silenciosas daquela criança, e o sorriso, sempre o sorriso a dizer “estou aqui.”; a mão estendida e aberta no coração de quem te pede, em pé ou caído, sempre a mão estendida e aberta no coração de quem te pede ( e até de quem não te sabe ou não te consegue pedir, mas mesmo assim pede); a tua existência, a tua voz, o teu olhar, a tua presença, a tua ausência, a tua existência…tão somente isso, a tua existência – com rugas, sem rugas, mais gordo, mais magro, mais falador, mais calado -, a tua simples existência é o suficiente para que a vida de todos quantos te rodeiam, te sabem e te merecem, se sintam mais felizes.
O mais importante mesmo é nunca deixarmos de acreditar na pessoa que somos, e na pessoa que queremos ser. E eu, embora com alguns desvios ( confesso), quero manter-me e ser sempre Amor.

(Conceição Sousa)

toque feminino

- Lá está você. Mas eu não a critico. Há dias fomos jantar a casa de um casal amigo. Aquela casa estava um brinco, asseadíssima. Pensei “ Quem me dera ser assim como ela, tão dedicada à casa.” À mesa, o meu amigo, agora desempregado, comentou que tinha estado o dia todo a limpar a casa. Veja que raciocínio torto o meu. Afinal não foi a minha amiga a responsável pelo brilho do lar, e, garanto-lhe, era um toque feminino.
 

(F)
 (Conceição Sousa)

folha

Ainda te leio...
nas folhas de um outono tranquilo, um rumorejar caído, que guardo na sombra de me teres querido,
de me seres querido.


(F)


( Conceição Sousa)

O mundo cansa

O mundo cansa, é verdade. Nada que uma boa noite de descanso não resolva, pelo menos durante algumas horas. P'ra isso é que Deus criou o escuro - e o silêncio. Imaginem se vivêssemos eternamente às claras. Os surdos não sabem a sorte que têm.

(F)


 (Conceição Sousa)

Guardo-te / I keep you

Guardo-te no espaço que todos querem e ninguém tem. Aquela pausa de diafragma onde morte e vida se tocam num esgar de dor e entrega. Há quem lhe chame felicidade. /
I keep you in that place which everyone wishes but nobody gets. That midriff pause where death and life meet in a grimace of pain and handing over. There are those who call it bliss.


(F)


(Conceição Sousa)

Ama-me

Ama-me.
Ama-me como o que te traz até mim
ou o que me leva até ti.
Ama-me com força.
Ama-me devagar.
Ama-me com tudo.
Ama-me com nada.
Ama-me com o pensamento desperto
ou apagado.
Ama-me. ...
Ama-me sem lugar nem tempo.
Ama-me como sabes, como podes, como queres, como sentes, como vives,
como morres.
Ama-me como acordas, como comes, como bebes, como dormes.
Ama-me como és.
Ama-me como sou.
Ama o nosso estar.
Ama-me
sem que eu perceba
quando acabar.


(F)


(Conceição Sousa)


percurso

Sempre que olhas p'ra alguém, compreende: cada pessoa carrega consigo uma vastíssima história de ganhos e perdas, de dores e alegrias, de luta e desistência, que tem de ser respeitada. É certo que não a vês, é certo que essa pessoa conta a si mesma, a cada segundo, a sua própria história ( como tu te contas a tua ), é certo que não te vê - as histórias são sem paralelo e não se tocam, cada qual única e intransmissível -, mas podes sempre apertar-lhe a mão e dizer, nem que seja com os olhos: compreendo que há um percurso e nisso somos iguais, respeito.

(F)


( Conceição Sousa)

e se eu quisesse que me amasses?

- E se eu quisesse que tu me amasses, como teria de fazer?
- Simples. Terias apenas de mo dizer.
- Dizer, apenas?
- Sim, dizer apenas. Se te agradecesse o sentimento, saberias que o não terias, ao meu amor, da forma que tu gostarias.
- Não?
- Não.
- E então como saberia que me irias amar da forma que eu gostaria?
- Assim que mo tentasses dizer, os meus lábios calariam os teus.
Mas como nun...ca vai acontecer, estamos a ter esta conversa.
- Pois...
- O amor não é de conversas. Se é de conversas, um dos dois não está.

(Conceição Sousa)

escrever o vazio

- E o que é uma mulher que se abstrai do tempo, do espaço, de tudo e de todos e escreve, de forma apaixonada, sobre o íntimo de tudo e de todos, o seu íntimo pois?
-Alguém que de paixão não tem nada, que busca incessantemente não desistir do seu tempo ( vazio, atrás de vazio e mais vazio...) e ocupa-o com a criação obsessiva de paixões umas atrás das outras, corre na direcção da paixão perfeita, ...e enquanto arquitecta os alicerces da casa, do jardim, do céu e da cascata, esquece que o vazio acontece.
- Só isso?
- Sim, só isso. Apenas a maior das contadoras de histórias a si própria. Achas mesmo que se estivesse a viver uma grande paixão - e olha bem para a palavra que apliquei: viver -, estaria a escrevê-la? As paixões ou se vivem ou se desistem, não se escrevem. O que se escreve é a ocupação do tempo vazio.


(F)


 (Conceição Sousa)


convite

Um dia pensei em convidar-te para um café,
e não teria qualquer problema em telefonar-te e dizer:
"Olá, como estás? Correu bem o dia? Que tal tomarmos um café?
Vá, não aceito um não como resposta. Tem de ser. Há instantes que têm de ser cumpridos. E tu precisas de duas palavrinhas e de um abraço meu. No final, decides se te despedes com um beijo. No teu lugar, fecharia os olhos p'ra toda a vida... e relembraria incessantemente esse fim de tarde em que nos encontrámos e ao nosso tempo."
Como disse, pensei em fazê-lo e, por uma questão de horas, não o fiz. Foi só o tempo de ter percebido que a mesa já tinha dois lugares ocupados. Mas um deles pode sempre vagar. É preciso é que um de nós o saiba.
Há ainda um abraço que é teu e um beijo que é meu.
Com o destino que cada um sente não se brinca.


(F)


 (Conceição Sousa)


Se fosses cego, o teu ouvido dir-to-ia sem hesitação: amo-te.
Se fosses surdo, os teus olhos inundar-se-iam com o nome mais à mão: amo-te.
Se estivesses anestesiado, a minha sombra deitar-se-ia sobre a tua aura e fariam o que não abdicam de fazer: amor.
Mas como me escutas , vês e sentes, amas-me pelo paladar: o trago de vinho vintage, quanto mais enterrado na solidão e humidade das catacumbas, me...lhor o sabor do que nunca se vai provar.
Mas eu digo, sem grande pena nossa,
é hora, névoas em êxtase de nós,
de se findarem e nos devolverem ao toque,
o nosso trono,
do corpo o lugar:
amo-te.
Ainda respiras,amor?


(F)


( Conceição Sousa)


Tala

Quando a realidade é incomportável, Deus abre todas as portas, e a mente alcança o inexplicável. O humano toca as extremidades do divino, defesa à dor, cascata de espanto, portal que nos transporta para uma sintonia de tudo, um equilíbrio sóbrio, um deslumbramento difícil de aceitar porque não cabe na rotina dos homens. Mas a linguagem do acaso e das coincidências adensa-se e, num período habitualmente curto, a comunicação com o outro lado acontece. Todo o simbolismo da natu...reza, de repente, transforma-se em respostas e passamos a ver algo mais na simplicidade do habitual: numa melodia, numa fotografia, num número, num encadeamento de palavras, num acenar de folhas, num assobio de ventania, numa forma que se desenha quando soltamos uma pedra no lago, num aroma familiar, num padrão, numa textura, num nome que foi atribuido a alguém e , de repente, consubstancia-se em mensagem de poder. "Tala", o ritmo dos deuses, é testemunho dessa realidade incomportável e da abertura fugaz desse elo de comunicação com o inexplicável. E o que é a criação, afinal? Será realidade ou não? Gosto de pensar, ou melhor, prefiro pensar ( porque penso que o senti- e não terei sido caso único ) que o divino está bem aqui, bem próximo do humano, bem dentro do humano.
(Conceição Sousa)

pessoa menor

Não fique triste, nem se sinta uma pessoa menor, porque, com toda a certeza, num momento qualquer do dia, haverá alguém que, sem o saber, aguarda a sua palavra e o seu sorriso para que possa continuar até ao anoitecer.

(F)


 (Conceição Sousa)

conquistas

Há conquistas que são só nossas... só nossas e tão nossas - pequeninas vitórias aos olhos dos outros ( se calhar nem lhes chamariam de vitórias), mas se imaginassem todos os gigantescos obstáculos que tivemos de transpor nunca - como alguém, a quem disseram que teria de viver numa ilha deserta para sempre, construir uma jangada e enfrentar tempestades em busca de gente - nunca as chamariam de pequeninas. Há grandes conquistas que somos nós.

(F)


 ( Conceição Sousa)

como se numa mesa de café

É como se estivesse numa mesa de café, a conversar contigo. Sabes que te escuto, sei que me sabes. E as horas vão se passando...sem que nos apercebamos. É uma conversa sem fim. Cai a noite, e continuamos a falar, fecha o café, e continuamos a sorrir, amanhece na calçada, faz frio mas nem o sentimos, e as palavras continuam por ali fora, abraçadas, atentas, presas nos olhos que as devoram. Posso dizer que és meu amigo, sim. Obrigada.

(F)


  (Conceição Sousa)

açoite da vida

Por muito que a vida te açoite, não te resignes. Agarra tu no chicote, põe fim a esse estar que conheces, e recomeça noutro lugar - num lugar desconhecido, sim; mas diferente. Não receies o que não conheces. Receia, sim, o que conheces e que, por conheceres, te subjuga. Decide. É só um instante: decide procurar a tua felicidade. Podes até nunca a encontrar, mas garanto-te que o abandono da infelicidade te fará sorrir.
(F)
(Conceição Sousa)
Em cada um dos livros, Bugalhudo e Caracolitas, auxiliados pelo Mago Agosto e pela Mosca Verruga (Zzzzz!), embarcam numa aventura diferente no Reino de Encanta o Espanto ou Espanta o Encanto, dominado pelo astuto Príncipe Deslumbrate, que encontra como adversário o irmão, o Príncipe Atua - ambos apaixonados pela Pastora Serena.
Bugalhudo e Caracolitas conhecem, nesse trajeto, paisagens fascinantes e assombrosas, e inacreditáveis criaturas do fantástico, ora adjuvantes ora oponentes. São geocachers e buscam, em cada livro, uma cache singular, que lhes permitirá no final da obra encontrar ( supõe-se...) a Flor de Mil Cores. É uma flor com poderes especiais que irá salvar a sua família de uma terrível tragédia. Embora se encaixe no encadeamento da totalidade da obra, cada volume é perfeitamente autónomo e independente dos restantes. É uma obra que pretende ser interativa, dinâmica e conduzir à reflexão sobre questões importantes na infância e na adolescência. Há uma teia de desafios que coloca nas mãos dos leitores a responsabilidade da resolução dos problemas. Privilegia-se o caminho da descoberta, o conhecimento indutivo. Fomenta a pesquisa e o recurso às novas tecnologias.


1º livro (de seis) da obra infanto-juvenil " Em Busca da Flor de Mil Cores" de Conceição Sousa.

Por que me perguntas, mãe, o que tenho,
se não me apetece falar?

Olho para ti,
os teus olhos a quererem dizer que me amas,
e os meus a não conseguirem acreditar.

Se me amasses de verdade,
não terias discutido com o meu pai,
não terias lhe dito que gostas de outro,...
não terias casado com ele,
e não estaria o meu irmão a caminho -
mas dessa parte até gosto, confesso;
não to digo.

Por que me perguntas, minha mãe,
o que tenho,
se sabes que não irei falar?
Falar o quê?
Aquilo que já estás farta de saber?

Já nada posso fazer para que tudo volte a ser como antes,
já nada te posso dizer que faça
com que tu e o meu pai voltem a amar-se.

Lembro-me, muitas vezes, de quando éramos felizes,
de quando sorríamos juntos,
de quando éramos uma família.

O Natal. O Natal é sempre o que custa mais.

Por que me perguntas, mamã, o que tenho,
se sabes que tudo o que te diga
não trará de volta o meu mundo, a minha vida?

Por que me perguntas, minha mãe,
se sabes que não queres ouvir o que tenho a dizer-te?

Por que me perguntas, mamã?

Sabe bem a pergunta, mãe.
Sabe bem saber que te tenho.

Sabe bem ouvir:

Não queres falar, pronto.
Dás-me, pelo menos, um abraço?

Mas ainda dói muito, mamã. E abraço-te.


(F)


 (Conceição Sousa)