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sábado, 18 de janeiro de 2014

40* nascer


De que adianta consumires-te até ao torcer das tuas entranhas pelo que vives ou não vives, pelo que mereces ou não mereces, pelo que te revolta ou arrebata, pelo que queres ou não te querem? De que adianta todo esse temor, cálculo, aflição, hesitação ou rejubilação? De que te adianta, se numa bela manhã deixas de saber se é bela ou se não é? Se, de repente, ele decide fechar a cortina e tu já não estás?
E é precisamente este instante de desconhecido, o som da guilhotina a mover-se ( é agora?) que solta a fragrância da vida em ti, a rasgar pelo ranger da janela entreaberta da eternidade.
Quando nasces és o morto, a ser devolvido em cada pequena descoberta à vida.
E, a cada década que passa, ascendes a novos patamares de encontro com o divino, com a explicação de ti. A cada queda, a cada perda, a cada desilusão, a cada derrota, conheces um pouco mais do caminho para a tua felicidade, despes-te um pouco mais da pele morta com que nasceste e uma nova vida acerca-se de ti: a mesma, mas mais desperta, mais sentida, com chaves que abrem cada vez mais portas de luz - em cada negrume de poço fundo em que te lanças ( e os poços fundos mais não são do que a tua inexperiência, a tua ignorância perante o que conheces pela primeira vez - talvez porque não te lembres que já por ali andaste? -, a tua inaptidão de principiante ou de amnésico).
Quando, finalmente, estás pronto para morrer, na verdade, é quando a vida ( a de verdade) começa. Não sentes que , a cada fase que passa, há uma preparação? Não sentes que, a cada lugar que chegas, já lá tinhas estado, várias vezes no antes, mas em pequenas doses de transição ( quase como uma vacina?) ? Não sentes que há algo bom, muito bom!, à tua espera? Não sentes que é cada vez mais tranquilo? Não sentes, apesar de toda a dor, de todo o sofrimento, de todo o desalento, não sentes, meu amor?
Estamos quase, quase, a viver!

Conceição Sousa

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