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quinta-feira, 22 de maio de 2014

1* O Abraço dos Cadáveres




1*
O Abraço dos Cadáveres
Hoje, mais uma vez, sem contar, num sítio público, chorei. Confortavelmente instalada à mesa de um café, com ar condicionado, a meio do meu banquete, um pedaço de cacete torrado com manteiga e um galão a escaldar, rotina de fim-de-semana, folheio as páginas de um jornal diário e eis que me deparo com a foto de um casal (choque, arrepio pela espinal medula), já cadáver, abraçado, debaixo de água (íris a afogarem-se junto), cabeça baixa, tremor, descontrole, revolta, ternura, ternura, ternura, impotência. Como pode alguém aceitar que milhares… que um só, que um só, morra em busca da vida? Como pode alguém, um só, um só, testemunhar um abraço p’ra lá da morte, um abraço prova de que nos somos um, um do mesmo, mais do mesmo, só o mesmo, e p’ra lá do que se não vê, e continuar indiferente ao naufrágio da existência? Eu não consigo, não consigo. Lampedusa deveria envergonhar-nos a todos. Não há-de faltar muito para que as águas do Mediterrâneo se tornem sangue: já o são, um sangue erguido a altar. Flores, muitas coroas de flores, vénias, muitas vénias, perdão, perdão, perdão, perdão, meus irmãos e minhas irmãs, perdão…
Há um holocausto a acontecer entre placas tectónicas, e o Homem decidiu que eram duas, e baptizou uma de Europa e a outra de África, e embora o Homem perceba que encaixam na perfeição porque já foram uma, Pangeia, impede, aniquila, assassina a vida daqueles que buscam a origem, que transitam, super-heróis e super-heroínas, com as suas famílias, na fuga desesperada da morte, e que encontram não mais do que a morte, na sua busca infindável pela vida. E o abraço desmistifica. O abraço consente a existência de uma verdade maior: o que importa é o caminho; o que importa é a pacificação da alma, a plena certeza de que tudo, mesmo tudo ao nosso alcance, foi tentado; o que importa é este calor, esta partilha derradeira aos olhos daqui, com que nos ofertamos à vida. O abraço que não desenlaça, o abraço que segura, o abraço que protege, o abraço que compreende, o abraço que confia, o abraço que não dói, o abraço que crê, o abraço que sorri essa verdade tão exasperante de tão simples: amo-nos; quero-nos; somo-nos.
O abraço dos cadáveres tão próximo do Papa. O abraço dos cadáveres, a voz de Deus, a linguagem de Deus, a prova de que é o Amor a transição, a prova de que a vida não termina nos corpos, a prova de que há muito mais p’ra lá do que se não toca, p’ra lá da matéria, p’ra lá do que se não ouve, do que se não cheira, do que se não vê; a mensagem tão óbvia, tão forte, tão evidente… o abraço dos cadáveres ali tão próximo da fé. É o abraço dos cadáveres a fé. Algo tão simples: sem catedrais, sem cerimónias, sem focos. E a prova da existência de vida para além da morte está ali, nas profundezas de Lampedusa, naquele abraço, naquele instante de transição em cujos corpos perduraram para lá do último sopro, a força sobrenatural, a partilha: o Amor.
E continuam a contar tostões, a descontar tostões, formiguinhas e cigarras em desvario a calcular dividendos, a massacrar lucros, a lambuzar off-shores. E Lampedusa ali, tão evidente, tão linda, na ternura daquele abraço. Quantos destes estrategas da estatística assassina, algures no tempo, irão sentir inveja deste abraço tão abraço?
Não sei quem são, os que se abraçam nas profundezas de Lampedusa, ali com a bota a pontapear-lhes o destino, Itália, carrasco ao serviço da Europa (Como conseguem? Não se imaginam lá? Naquele abraço das profundezas?). Gostaria de lhes conhecer o nome, não só o casal, mas todos os outros que buscam pela vida e sucumbem para esta vida naquele altar mediterrânico. Gostaria de saber o nome de cada um deles, dos meus heróis e das minhas heroínas, para lhes elevar velas e incenso, para lhes entregar orações e dedicar a minha gratidão eterna. É graças a pessoas que continuo viva (os outros, os decisores, não são pessoas) e que cada vez mais fortaleço a visão de que o melhor está para acontecer: e é p’ra lá do corpo, no embalo daquele abraço. Ninguém se pergunta por que se atiram os homens e as mulheres ao abismo em busca de consumarem o que, por nascimento, o é, a vida? Por que os fazem nascer e depois lhes ditam que têm de estar mortos? Por que será que o sinto, àquele abraço?
Deus não nos pede sacrifícios, Deus desfragmenta-se-nos escolhas e pede-nos bondade, ímpeto de retorno ao uno. E nós buscamos, mesmo que não nos peça, nós lançamo-nos nessa vontade inabalável de nos consumarmos Vida. E a morte deixa de o ser, recebemo-la com um abraço: será porque é a Vida que estamos a abraçar? E é isso: a bondade da partilha, a felicidade genuína na bondade da partilha, a entrega incondicional, este calor húmido de dádiva a que chamamos: Amor.
Deus, a Origem, o Ciclo, o Percurso Infindável, o Caos dos Fragmentos a gravitarem na realocação uns dos outros, a Verdade no Abraço dos Cadáveres: a Vida a receber-nos de braços abertos, por fim.
Só o Amor nos salva do não retorno. Só o Amor nos abre os braços. Só a Vida nos faz querer abraçar no limiar da morte.
Obrigada por estares aqui.
Conceição Sousa

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