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quinta-feira, 22 de maio de 2014

4* Ímpeto de ruptura


4*
Ímpeto de ruptura
Não é invulgar o avanço para a queda em mim, um ímpeto inabalável de ruptura na direção do vácuo: e algo há-de acontecer, nem que seja um termo a prazo certo ditado por mim ( eu mando, a ditadura sou eu: fim).
Isto de quererem que eu exista para satisfazer as necessidades de outros e oprimir as minhas é uma treta. Era criança, impreparada, e já o reivindicava. Porque será? como se explica? Memórias de genes grisalhos, longínquos, vidas cumpridas até às rugas, calejadas de mágoa e resiliência, que permaneceram no óvulo da minha mãe e no espermatozoide do meu pai? Embora não haja notícia de na história familiar haver assim alguém tão insubmisso aos tempos, se calhar até houve, lá nas linhagens de mouros e nórdicos. Já vos disse que reconheço-me feições mescladas, testa de moura, nariz de romana e cores de viking? Ao rubro, sempre ao rubro, cabelos de fogo e olhos de lince – coração de fera abatida, a rosnar um “ Não te atrevas, longe! Olha que mordo e tenho fome!”
Rompi com o padre que massacrava a missa e eu tão pequena: Fala baixo, homem, que desperdício de energia, eu ouço bem! E porque só tu, homem, e não uma mulher? Anos a fio, corpo anestesiado, a percorrer os mesmos carreiros, a sentir a dureza daqueles bancos, joelhos doridos, mãos atrofiadas, uma na outra, a impedir a explosão de dentro no encalço da testa, o eco do sino a consumir-me os badalos do que é imposto, uma foto em que me vestem de bege, terço a carpir os nós dos dedos e eu, tão pequena, de maxilares cerrados, nem um sorriso. Será que não sentiram que não celebrava?
Rompi com a cultura da época, o pai que concentra em si todos os poderes, a subserviência do feminino ao masculino: “Não, meu pai, por que tem a minha mãe de estar de pé e te servir? Não foi ela que cozinhou? Por que não senta a minha mãe e serves tu a ela, não merece esse descanso, esse carinho? Por que não lhe abres tu a cama e lhe colocas os chinelos à porta do que a espera: ternura? E eu? Por que não saio eu à rua como os meus irmãos homens? Não te beijei quando entrei? Não te dei o mesmo abraço que eles deram?” Anos a fio a contornar a voz do instinto, a abraçar um toque oco, a beijar de cadeados, e venci. Rumei, esgotada e triste, ao futuro de um passado que não se recupera porque não existe. Vencemos. Já não há subserviência do feminino, há crescimento, aprendizagem, um pai divino e uma mãe aragem, evolução: e avental no coração de um homem bom.
Isto de quererem que eu exista para satisfazer as necessidades de outros e oprimir as minhas é uma treta, escutas bem, Sr. Ministro? Temo fazer uma loucura, temo fazer uma loucura. Um instante de decisão. Mais um ímpeto de ruptura. Um insignificante instante de decisão – e já nada será como antes, nem p’ra mim, nem p’ra ti, irmão. E, na verdade, já nada há que eu tema e esse é o gigantesco temor: nada há já que eu tema, escutas bem, Sr. Ministro? Um instante de decisão. Aviso-te. Um instante de decisão. E já não existo. Qual é a complicação? Sou moura, viking e romana, irmão…
A que vem será melhor. Respirará a liberdade de ter agido em tempo útil a decisão de lhe aprovar a vida: a de verdade. Uma loucura pelo bem da sanidade. Uma loucura e o champagne do teu sorriso. Uma loucura e o alívio da humanidade.
Quem vem comigo?
Sim, ninguém, de início, já sei...

Conceição Sousa

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