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quarta-feira, 10 de julho de 2013

21* ditadura do medo

O que gosto mesmo é de estar com pessoas.
Olhar, olhos nos olhos, e atentar como não dizem tudo,
como entram em contradição com os movimentos dos lábios.
Não quero dizer com isto que estejam a mentir, não.
Sei que não mentem - 
só me dou ao trabalho de estar com pessoas que se esforçam por ser verdadeiras.
Têm é grande dificuldade em verbalizar tudo.
As palavras são barricadas à porta da boca pela ditadura do medo.
O medo de desnudar-se,
o medo da incompreensão,
o medo do desamor,
o medo da dor,
o medo da solidão,
o medo da entrega.
E é tão bom estender-te as mãos,

segurá-las com firmeza no espaço do teu arriscar, do teu soltar,
do teu pedido no brilho da retina
"salva-me...salva-me...salva-me...",
do instante em que o baço quer expulsar essa luz que veio à tona da apatia.
Ofereço-te, com a determinação do meu querer ver-te, o meu ombro
(em busca do teu, é certo...),
e mantenho-me ali, frente a frente,
enquanto baixas a cabeça inúmeras vezes,
enquanto penduras a esperança no laço das nossas mãos -
e os polegares que afagam,
e os polegares que falam
"Estou, aqui. Não vês que estou aqui?".
O que gosto mesmo é de estar com pessoas,

e de sentir que essas pessoas,
mesmo barricadas em si mesmas,
estão comigo.
Obrigada.

Conceição Sousa

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